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Entrevista com Alcione: “faça tudo com amor e alegria, principalmente o seu trabalho”


Waly Salomão, a pedido de Maria Bethânia, foi quem nos legou, em homenagem à Alcione, alguns dos melhores versos de nosso cancioneiro. “Quando ela aparece, cantando gloriosa, quem ouve nunca mais dela se esquece; barco sobre os mares, voz que transparece uma vitoriosa forma de ser e viver”.


Foto: Vinicius Mochizuki

Feliz é o país que pode orgulhar-se de possuir, no seu campo celeste, a presença luminosa de Alcione Nazareth, estrela entre as estrelas de primeira grandeza no firmamento da música brasileira. Pairam sobre a órbita do seu canto as glórias nossas, como povo; as histórias de amor que nos parecem tão íntimas; uma vastidão de belezas reconhecidas desde a primeira emissão de nota a lhe escapar das cordas vocais.

É mais que propícia a designação que a Mangueira – agremiação carnavalesca do coração de Alcione – utilizou para homenageá-la em samba-enredo: a negra voz do amanhã. Melhor síntese da justeza e da musicalidade da “Marrom”, nascida em São Luís, em novembro de 1941, não poderia haver.

A afinidade com instrumentos, que lhe foi sempre inata, e os movimentos que a conduziram à escolha do Rio de Janeiro como residência, para que se cumprissem as suas ambições artísticas, revelam, a um só tempo, a obstinação e a grandeza de um destino que não se poderia retesar.

Saudar a vastidão deste fado, e, ademais, conhecê-lo de sua fonte primária, Alcione, foi tarefa desta Sociedade do Copo, em mais um “Enchendo o Copo”. O começo, a família, a ligação com Maranhão, a música brasileira e, claro, a exposição “Com Amor, Alcione”, que homenageia os mais de 50 anos de carreira da artista, no Centro Cultural Vale Maranhão (CCVM) foram alguns dos principais temas desta conversa.

Waly Salomão, a pedido de Maria Bethânia, foi quem nos legou, em homenagem à Alcione, alguns dos melhores versos de nosso cancioneiro. “Quando ela aparece, cantando gloriosa, quem ouve nunca mais dela se esquece; barco sobre os mares, voz que transparece uma vitoriosa forma de ser e viver”.

Alcione Nazareth é um sonho bom.

Paulo Vinícius Coelho: Alcione, mesmo morando no Rio de Janeiro há muito tempo, você ainda tem uma relação muito forte com São Luís. Aliás, mais do que isso: você se tornou um dos maiores símbolos da cidade. A que isso se deve? E como é a sua relação com a cidade atualmente?

Alcione: Eu amo a minha terra, não poderia ser diferente! E se represento bem os meus conterrâneos, é claro que isso me gratifica imensamente. Tenho orgulho da minha terra, da minha gente, da cultura e do folclore riquíssimo do Maranhão. 

Paulo Vinícius Coelho: Durante a sua carreira, você já recebeu muitas homenagens. Uma das mais marcantes foi o desfile da Mangueira, sua escola de samba, no ano passado. Agora, o Centro Cultural Vale promove uma exposição sobre a sua vida e obra. É a primeira vez que você é retratada em uma exposição? Existe alguma peculiaridade nesse tipo de homenagem?

Alcione: Sinceramente, eu não esperava ser alvo de tantas e tão grandiosas homenagens como essas. Ser enredo da minha escola do coração, e retratada nessa exposição belíssima realizada pelo Centro Cultural Vale, na minha terra natal, são coisas que a gente não pode mensurar. Essas “flores em vida” foram absolutamente inesperadas e, claro, eu me emocionei muito. Me emociono até agora e sou profundamente agradecida a todos os envolvidos nessas realizações.

Paulo Vinícius Coelho: Uma curiosidade sobre o processo de montagem da exposição: de algum modo, você ou alguém próximo participou da curadoria, da escolha dos itens expostos ou de algum outro detalhe?

Alcione: Deixei a curadoria por conta da equipe da Vale juntamente com Carlos Marão, que cuida do meu marketing. Eles fizeram a seleção de itens, vestidos, fotos…

Paulo Vinícius Coelho: Lembro que no documentário “O Samba é Primo do Jazz” [Angela Zoé, 2021] você comenta que sempre recebeu muitas composições de autores pedindo para serem gravados. Pensando no outro lado da moeda: existe algum compositor que você quis ter gravado e não teve a oportunidade?

Alcione: Eu sempre procuro gravar o que gosto, sejam de autores famosos ou desconhecidos. Me importo com as músicas… se são boas, se me identifico com elas, se o meu público gostará delas…é claro que sempre faltarão alguns nomes em nossa discografia. Porém, com certeza, já gravei muita gente boa da música brasileira. E também do cancioneiro internacional.

Juliano Amorim: Alcione, sua inserção na música se deu desde muito cedo, e o trompete é uma marca dos seus primeiros anos como artista. Você também tocou, ainda na adolescência, em orquestras de jazz regidas por seu pai. Seu estilo de canto e o seu fraseado, inclusive, me soam naturalmente jazzísticos. Qual a sua relação com o jazz? Aprecia-o? Tem artistas ou discos favoritos do gênero para compartilhar conosco?

Alcione: Sim, eu adoro jazz, e cresci também ouvindo as grandes divas americanas do gênero. Mas nunca discriminei nenhum estilo musical. Gosto de samba, de forró, bolero, reggae, balada e, também, de jazz. Gosto de música boa, músicas que me emocionem, sem classificá-las por gêneros ou estilos. 

Foto extraída do site oficial da cantora

Juliano Amorim: Você é reconhecida como um ícone da música, da moda e da beleza. A exposição “Com Amor, Alcione”, no Centro Cultural Vale Maranhão (CCVM), com fotos suas em diversas fases, deixa isso demonstrado. No entanto, nos anos 70 e 80, sua beleza como mulher negra muitas vezes não era destacada na mídia, em comparação com outras artistas. Como você vê a baixa aceitação que havia em relação à beleza negra, naquela época, e qual foi o impacto dessa falta de representação para você e para outras mulheres negras de sua geração? Além disso, como você enxerga a evolução dessa percepção ao longo dos anos e o que você acha que ainda é preciso ser feito para valorizar mais a diversidade da beleza negra brasileira?

Alcione: Acho que durante esses últimos tempos conseguimos vencer algumas batalhas contra o racismo. Mas ainda estamos muito distantes de alcançarmos os objetivos necessários. Basta olhar nas redes sociais, nos noticiários das tvs…todos os dias vemos agressões, ofensas e discriminações raciais. Felizmente, essas novas gerações estão tendo a coragem e a capacidade necessárias para enfrentarem essas barbaridades que ainda fazem parte do nosso cotidiano. Eu, particularmente, sempre fui orientada pelos meus pais a ter orgulho da minha raça, da minha pele.
Aliás, acabei de gravar uma canção que fala a respeito desse assunto: “Marra de Feroz”, música que conta com as participações de mulheres muito representativas da nossa raça. E lindas também. 

Foto extraída do site oficial da cantora

Juliano Amorim: Alcione, sua discografia é plural, com uma variedade de gêneros, compositores e estéticas sonoras, nestes mais de 50 anos de carreira. Há, no entanto, um disco em particular pelo qual você mantenha uma relação afetiva maior? Aquele que você considera a sua obra-prima?

Alcione: Não há um específico, mas tenho carinho por alguns do meu começo, como “A Voz do Samba” (o primeiro LP), “Pra Que Chorar” (que me rendeu meu primeiro disco de ouro) e “Gostoso Veneno”. Foram eles que pavimentaram minha estrada…

Leonardo Alves: Ainda levando em conta a extensão da sua carreira, a que você atribui o apreço das gerações mais novas pela sua obra? Você destacaria algo específico na sua trajetória que se conecta com fãs mais jovens?

Alcione: Geralmente, os jovens crescem ouvindo nossas canções por conta dos pais. Isso faz com que, com o passar do tempo, também  se tornem fãs da gente. É quase como uma passagem de bastão dos pais para os filhos. E isso está acontecendo com muitos outros artistas, é só darem uma olhada nas plateias dos shows pelo país afora. Aliás, esses movimentos são muito importantes para a música brasileira…e para que os nossos ídolos não caiam no esquecimento. 

Leonardo Alves: Considerando sua presença forte no Rio de Janeiro e em São Luís, gostaria de saber: quais diferenças você percebe entre ludovicenses e cariocas nas vivências do samba e do carnaval?

Alcione: O Maranhão tem manifestações culturais muito genuínas, além do samba, como os blocos de sujo, blocos tradicionais, casinhas da roça. Sou apaixonada pelos fofões. Tanto que quando eu comandava os blocos Esbandalhada e Fuleragem, que desfilavam no circuito carnavalesco de rua de São Luís, eu estava sempre de fofão. É coisa nossa.

Foto extraída do site oficial da cantora

Paulo Vinícius Coelho: Alcione, nós sempre encerramos nossas entrevistas pedindo aos entrevistados uma indicação e uma contraindicação. Vale tudo: um objeto, um sentimento, um livro, uma música…

Indicação: faça tudo com amor e alegria, principalmente o seu trabalho. No início de minha carreira, Maria Bethânia me disse isso e levei para a vida.

Contraindicação: rancor. Nunca cultive isso dentro de você.


Produção por Paulo Vinícius Coelho e Juliano Amorim
Roteiro por Paulo Vinícius Coelho, Juliano Amorim e Leonardo Alves
Texto introdutório por Juliano Amorim
Edição e divulgação para redes sociais por Gabriel Jansen

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