
A serenidade precede o mestre. Os passos tímidos de Josias Sobrinho contrastam com o enorme entusiasmo de quem o vê chegar. Muitos se levantam de suas mesas e fazem questão de cumprimentá-lo; os mais íntimos, de abraçá-lo.
É uma noite de chuva torrencial em São Luís. Fui ao Bar do Léo, local onde havia combinado a entrevista, com receio de que o clima atrapalhasse o encontro. O atraso do compositor durou somente três minutos, o que apressou o fim do temor e impediu que eu terminasse a minha cerveja.
A entrevista ocorreu na mesma data em que o compositor paraibano Vital Farias faleceu. Fiquei pensando na coincidência que seria entrevistar um grande letrista brasileiro no dia em que outro partiu. Ao mesmo tempo, a oportunidade de registrar a história de Josias Sobrinho se tornou ainda mais especial.
Nas próximas linhas, o leitor confere um perfil muito abrangente deste que é um dos maiores nomes da história da música maranhense. Entre os assuntos abordados estão: a sua trajetória pessoal, o seu processo de composição, as polêmicas e nuances envolvendo o álbum Bandeira de Aço, o surgimento do grupo Rabo de Vaca e tantas outras pautas que transcendem Josias Sobrinho e tocam em pontos cruciais da identidade cultural maranhense. “Identidade’’, aliás, é a palavra-chave desta conversa. Confira:
Paulo Vinícius Coelho
Josias, vamos começar pela sua biografia. Você nasceu em Penalva, morou um tempo em Belo Horizonte…
Josias Sobrinho
Na verdade, sou registrado em Penalva, mas nasci em um povoado chamado Tramaúba, que hoje pertence ao município de Cajari. Antes, essa região fazia parte de Penalva, mas no ano em que nasci — 1953 — Cajari já havia se emancipado. Minha família é originalmente de Penalva, e foi para lá que meu pai se mudou, para tomar conta de uma propriedade da família onde passamos a viver.
Tinha sido um engenho antigo e foi parar na mão da família não sei por que cargas d’agua. De vez em quando um dos filhos ficava lá cuidando, e aí chegou a vez do meu pai ir pra lá.
Eu sou o sétimo filho. Nós somos treze, entre os que sobreviveram, porque minha mãe teve dezoito concepções. Éramos quatorze, mas o meu irmão mais velho morreu de coqueluche. Então eu nasci nesse lugar. Era bem próximo de Penalva e tinha essa relação com a cidade de Penalva onde os parentes estavam.
Paulo Vinícius Coelho
Entendi. Mas a minha curiosidade, Josias, é porque lendo a tua biografia, a gente vê que tu morou um tempo em Belo Horizonte, acho que já começando a carreira como músico, e aí tem um intervalo de tempo considerável até a volta pra São Luís.
Eu tenho curiosidade de saber o que aconteceu nesse intervalo de tempo, entre Belo Horizonte e São Luís.
Josias Sobrinho
Eu fui pra Belo Horizonte pra estudar. Desde os seis anos de idade que eu saio de casa pra estudar. Eu morava em Tramaúba e com seis anos fui pra Penalva para as primeiras letras.
Os meus irmãos mais velhos iam para São Luís e depois para Belo Horizonte. Os meus irmãos mais velhos são formados em engenharia elétrica em Minas Gerais, porque queriam fazer essa engenharia que naquele momento só tinha lá em Belo Horizonte. Era uma escola que tinha referência. Eles iam pra lá. Então eu vim pra São Luís, pro ginásio, no Liceu. No Cajari não tinha. Aí fiz o ginásio todo. Quando foi pra cursar o científico, eu fui na mesma levada dos irmãos .Eu passei dois anos lá. Eu comecei a compor lá.
Eu tava querendo compor aqui, uma coisinha ou outra, mas a primeira canção de fato foi feita lá. Eu passei dois anos em Belo Horizonte e voltei por conta de uma dificuldade financeira do meu pai, que bancava o estudo de todo mundo. O meu segundo irmão mais velho, Alberto, já tava formado e veio trabalhar na CEMAR [empresa privatizada pela Equatorial].
Eu queria fazer cinema lá em Belo Horizonte. Quando eu cheguei em São Luís, o cinema me engoliu, sabe? Meu irmão mais velho tinha esse hábito e eu peguei, de ir ao cinema, assistir aos filmes com curiosidade e ir registrando.

Paulo Vinícius Coelho
Você era quase um crítico de cinema.
Josias Sobrinho
Exato. A gente anotava sinopse, nome do diretor…
Paulo Vinícius Coelho
Isso pra registro familiar?
Josias Sobrinho
Sim, pra registro pessoal. Então, em São Luís, eu via todos os filmes que estavam na cidade. Inclusive, ia até o Rialto onde tinha uma sessão dominical que passavam dois bang-bangs, que era o meu gênero favorito.
Paulo Vinícius Coelho
Isso me lembrou de uma curiosidade. Eu trabalhei durante muito tempo no Festival Guarnicê de Cinema e sempre tive vontade de te perguntar da trilha feita para o filme Os Pregoeiros de São Luís que acabou sendo muito importante pro surgimento do festival.
Josias Sobrinho
A gente estava no Laborarte, no departamento de cinema do Laborarte. E entrei na história pra fazer a trilha sonora.
Mas antes dessa coisa do cinema, lá em Tramaúba eu queria ser médico e também queria ser cantador de boi, porque era uma coisa que me chamava muita atenção. Eu gostava muito das toadas e, na época, não tinha jornal, então esse cantadores eram os cronistas da comunidade. Nas toadas, eles contavam o que acontecia, o que ficava na boca das pessoas…e eu sabia as toadas, aprendia a cantar elas. Quando me perguntavam o que eu queria ser, eu dizia: médico! ou cantador de boi. [risos].
Paulo Vinícius Coelho
Duas profissões muito distintas, né, Josias? [risos]. E no Laborarte, como foi a experiência?
Josias Sobrinho
No Laborarte, quando eu voltei de Belo Horizonte, eu tinha começado a compor. E tinha um lance lá com cantores, compositores e músicos, principalmente músicos. O violão foi o caminho de me enturmar mais com o pessoal. A turma lá em Minas me chamava de baiano, meio como o pessoal faz com quem nasce no Nordeste e é chamado de paraíba. E um dia meu repertório acabou e eu lembrei de umas coisas antigas, de uma cantigas de roda, de temas de umbanda, de macumba, de Divino Espírito Santo…as coisas que eu ouvia garoto. Aí quando eu comecei a tocar essas coisas, as pessoas ficaram curiosas e perguntavam de onde era música, e eu respondia que era lá do lugar de onde eu vinha. -Que lugar é esse? -É o Maranhão. Aí passaram a me chamar de Maranhão. Eu perdi o apelido e ganhei uma identidade.
Uma identidade relacionada com o meu lugar de origem e com a cultura do meu berço. E aí, cara, foi assim, A música que eu tava começando a compor era uma música com linguagem nordestina, influenciado por Geraldo Vandré, Luiz Gonzaga, baião, xote, frevo…então, a partir daí, eu comecei a pensar em fazer uma música que tivesse as características da cultura popular do Maranhão.
Botei fé que eu podia dar uma contribuição pra música popular brasileira e também pro meu lugar, se eu fizesse uma música maranhense com esses elementos da cultura popular. Principalmente porque a minha grande influência é o Bumba Meu Boi.
Paulo Vinícius Coelho
Algum sotaque específico?
Josias Sobrinho
Principalmente da Baixada, né? Chamamos de Pindaré. Ou então o sotaque de Viana, que é um pouco diferente, não se conhece como Pindaré.
Voltando pro Laborarte, quando eu cheguei, uma irmã minha que fazia teatro disse: ”olha, tu tem que mostrar tuas canções, lá tem músicos e tal”. Então eu fui e o laboratório estava fazendo exatamente isso, estava estudando a cultura popular pra formular uma linguagem artística que tivesse elementos populares, tanto na música quanto em outras linguagens.
Eu passei e fiz um testezinho lá com os caras que estavam acompanhando o som, com o César Teixeira e o Sérgio Habibe. Passei e mergulhei de cabeça no Laborarte.
Paulo Vinícius Coelho
Depois surgiu uma brincadeira chamada Bandeira de Aço, né? [risos]. Inclusive, Josias, quando a gente fala de música maranhense, uma associação automática é o Bandeira de Aço, né? Tanto pra turma dessa época quanto pra nós, que somos mais jovens. Essa associação quase automática ela te deixa orgulhoso ou em algum momento ela te incomodou? Pensou assim “porra, minha carreira vai além do Bandeira de Aço”? Ou não? Como é essa tua relação?
Josias Sobrinho
Não, porque o Bandeira de Aço é um marco nessa luta por produção musical local com a identidade, com esses elementos de identidade cultural. A partir dele, tem uma coisa que se pode chamar de música maranhense. Não só uma música que é produzida no Maranhão, mas uma música que é natural daqui, tem raízes aqui.
Isso pra mim é uma coisa muito importante porque até hoje todo o meu trabalho é com esse objetivo.
Quando eu tinha vontade de estudar medicina, era por conta do meu desejo de voltar pra minha comunidade e cuidar das pessoas. Quando eu mudei pra música eu trouxe essa coisa também.
Eu saí de casa pra estudar e os meus conterrâneos não tiveram essa oportunidade. Não tinham grana. Meu pai tinha como fazer isso com a gente. Então muitos dos meus conterrâneos estão lá na mesma situação. O que é que eu posso fazer? Eu posso chamar a atenção para que a sociedade veja o que está ocorrendo. Chamar a atenção do mundo todo se for possível.
Então o Bandeira de Aço não me incomoda, mas teve muita polêmica…
Paulo Vinícius Coelho
Por causa do lance da MPM? [sigla para música popular maranhense]
Josias Sobrinho
Não só. O Papete quando gravou o disco, ele escolheu o repertório lá em São Paulo, com o Marcus Pereira [produtor do álbum]. A gente entregou as músicas. E naquele momento, em 1977, quando começou a pré-produção, a gente estava num momento político e cultural muito complicado no país, por conta da censura e da discussão sobre propriedade intelectual.
A indústria fonográfica é cheia de histórias de apropriação. De gente que vendia música porque não tinha grana.
Grandes artistas da música popular brasileira venderam. Grandes artistas também compraram compositores que não tinham como gravar. Então o Bandeira de Aço, foi feito em São Paulo e trouxeram pra gente ouvir. Muita gente não gostou. Houve quase que uma unanimidade. Houve muita crítica. Disseram que não houve fidelidade às obras, que não respeitaram a natureza das músicas. Teve letra minha que foi substituída. Em Engenho de Flores, a letra original diz: eu “vi fortaleza abalar”. E foi substituído por “eu vi fortaleza falar”. Foi gravado por Papete. Depois foi gravado por Diana Pequena e trocou no país inteiro. O país inteiro conhece essa versão. Muda completamente o sentido. Eu fui em Fortaleza dois meses atrás fazer um show e as pessoas acham que a música foi feita pra cidade.
A polêmica começa aí. Houve um mal-estar com relação a essas situações. E aí o que aconteceu? Logo depois o disco começa a ter uma certa notoriedade local, porque era um disco que tinha canções, tinha melodia, arranjo, apoio da gravadora, estrutura…tinha tudo. Era uma coisa bacana. O disco começou a crescer em popularidade e a gente ficou aguardando que a grana do disco aparecesse. -E aí, cadê? Vocês já receberam alguma coisa? Ta vendendo. Vocês já receberam?
E a resposta era -não, ainda não.
Isso foi criando um mal-estar. Eu reclamava contigo, tu reclamava com outro, isso passava adiante…foi um bolo que foi crescendo. Chegou uma hora que um jornal publicou.

Era o seguinte: na época, você gravava um disco e só depois de seis meses do lançamento a fábrica prestava contas das vendas para a sociedade de autores. E só depois as editoras passavam o direito. Eram cerca de noves meses pra receber. Mas alguns de nós não sabíamos disso na época.
E Papete, o intérprete, já nesse momento, já não se identificava mais com os autores das músicas nas execuções de rádio. Não se dizia ”ouvimos Engenho de Flores, de Josias Sobrinho”, se dizia ”ouvimos Papete cantando Engenho de Flores”. As pessoas começaram a dizer que as músicas eram dele. Aí souberam que ele cantava as músicas nos lugares e não falava os nomes dos autores.
Chegou num ponto em que ele demorou dez 10 anos pra conseguir lançar o disco aqui; pra vir fazer o show aqui.
Ele se sentiu exilado. Não teve coragem de vir, porque tinha todo esse clima. Porque um jornal aqui, publicou uma matéria dizendo “compositores do Maranhão foram enganados…” e na capa eu e Cesar [Teixeira]. Essa matéria foi reproduzida na Folha de São Paulo. Papete me ligou me esculhambando, nós discutimos…e ficou assim. Só conseguiu lançar o disco aqui 10 anos depois. Quando ele veio, fez três dias de show no Arthur Azevedo, com a casa lotada, e as pessoas não viam ele falando o nome dos autores. Isso criou uma cobrança, de gente que subia no palco pra dizer “você é um ladrão”, ”você não fala…”.
Teve toda essa polêmica, mas é o seguinte: o Papete, quando foi gravar o disco, trouxe pra nós toda a papelada necessária pra você ter uma música gravada. Tudo que era exigido. Você tinha que estar ligada a uma sociedade de autores para receber os direitos autorais. Nós fomos associados a uma editora de autores. Então, apropriação, não houve. Foi mais uma questão de crédito. E a gente recebeu. Depois de algum tempo a gente recebeu os direitos autorais. Recebo até hoje, na verdade, mas muito menos. Mas quando Diana Pequeno gravou Engenho de Flores, eu consegui comprar um carro com a arrecadação do disco dela, que vendeu bastante. O Bandeira de Aço não vendeu tanto assim, apesar de ser conhecido nacionalmente.
Depois eu me reconciliei com o Papete, reconheci que tinha muita desinformação da minha parte. Não falo pelos outros, tem gente que até hoje deve ser magoada com ele. Mas eu, inclusive, tenho um CD que foi produzido por ele.
Paulo Vinícius Coelho
O Dente de Ouro…
Josias Sobrinho
Isso, que é da CPC Umes [gravadora].
A gente gravou aqui. Os músicos daqui. [E uma coisa que eu sempre gostei de fazer: todos os meus discos foram gravados aqui, a não ser o Engenho de Flores, que eu gravei em São Paulo, mas com os músicos daqui.
Paulo Vinícius Coelho
Josias, deixa eu te perguntar como é a tua relação com a nova música maranhense. Eu sei que você é um cara que tem uma predisposição a abrir espaços, O Samba Choro e Outras Bossas [projeto da Fundação da Memória Republicana Brasileira] é a prova disso. Mas como você avalia o nosso cenário? Você acha que a música maranhense vai bem?
Josias Sobrinho
Olha, eu tenho visto isso por gerações. Eu tô há mais de 50 anos na área, então vi muita gente iniciando. Vi o Zeca Baleiro que, quando surgiu, eu ja tinha gravado o Bandeira de Aço, o Engenho de Flores, o Dente de Ouro…e o Zeca foi um cara muito legal.
Eu acho muito importante a relação que eu tenho com quem vem surgindo. Pra mim, é muito importante essa troca. É importante como compositor também, porque minha obra é muito revisitada pelos novos. Eu tô sempre aberto a isso. Eu faço música para as pessoas conhecerem. É através da minha música que eu falo, que eu comunico, que eu digo o que penso.

Paulo Vinícius Coelho
Você mencionaria algum nome contemporâneo?
Josias Sobrinho
Eu considero que a gente tem bons nomes na atualidade. Gente que eu conheço desde que começou. Teve um tempo que eu tinha um estúdio, sabe?
Passei mais de dez anos no estúdio. E muita gente ia procurar o estúdio pra ensaiar e tal. Também porque eu tenho dois filhos que são músicos, né? Eu tenho um que é da área do samba e tem um outro que é mais novo, que é mais ligado a rock. Os dois são músicos profissionais. Por meio deles eu me aproximo também.
O que eu penso é que, se a minha trajetória e os meus resultados podem influenciar, eu me sinto contente pela contribuição. Quando alguém me procura pedindo para gravar uma música, a única coisa que eu digo é “fique à vontade”. Eu quero ver a coisa chegar mais longe, sabe? Se alguém com 20 e poucos anos quiser pegar minha música…
Paulo Vinícius Coelho
A gente pode?!
Josias Sobrinho
Claro! Você vai trazer pra essa obra uma contribuição. Ela vai te fortalecer e você vai fortalecer ela.
Eu tô com 72 anos. Quando eu sair da cena total, eu quero que a minha música esteja aí.
Paulo Vinícius Coelho
Josias, sobre aquele projeto seu que lançou cem músicas inéditas…você ainda tem música na gaveta ou foi tudo?
Josias Sobrinho
Ah, tem algumas coisas…algumas coisas antigas…tem coisa recente também, claro. Eu tô fazendo agora um trabalho com o Beto Pereira. Ele tá compondo uma exposição que ele vai fazer sobre a democracia lá no Convento das Mercês. E a gente tá compondo, como compôs pra exposição sobre Gonçalves Dias que ele fez ano passado. E a gente compôs dez músicas, pra cada uma das telas tinha uma canção. Eu escrevi a letra e ele musicou.
Paulo Vinícius Coelho
Eu acho o lançamento das 100 músicas uma coisa incrível. Eu lembro que há algumas semanas eu li uma reportagem dizendo que uma música do Aldir, do Aldir Blanc, que tinha sido descoberta, ia ser gravada. Aí eu pensei que o Josias acertou em cheio quando ele lançou esse projeto que era lançar dez músicas a cada mês.
Josias Sobrinho
Tem músicas da época do Rabo de Vaca, que é de 1977. Tem realmente muita coisa. Imagine quantas músicas um compositor perde durante a vida? Tem alguns colegas que são mais desleixados do que eu nesse sentido que já perderam muita música.
Paulo Vinícius Coelho
Josias, deixa eu te fazer uma pergunta que todo compositor já ouviu: como é o seu processo de composição?
Josias Sobrinho
Eu comecei a compor sozinho, com o violão, tentando encontrar alguma coisa. Eu ficava tocando, de repente aparecia uma coisinha, daí vai crescendo. Grande parte da minha obra, até pouco tempo, foi feita assim. Era uma coisa isolada, reservada. Depois eu comecei a fazer buscas em parceria, principalmente com o Beto, porque o Beto era companheiro do Rabo de Vaca, a gente tinha uma certa intimidade. Por cinco anos a gente conviveu no Rabo de Vaca, fazendo show.
A gente montou a peça dos Saltimbancos, do Chico Buarque. Eu já trabalhava com o Aldo Leite, fazendo trilhas para os trabalhos dele, e ele me chamou pra coordenar essa peça do Chico. E aí formamos o grupo.
No Laborarte eu também escrevia pra teatro, tanto fazendo melodia pra textos ou às vezes falando letra e melodia.
Esse processo de compor é muito simples pra mim e muito fácil de resolver. Porque cria um compromisso de trabalho com um tempo pra entregar. Aí eu pego, vou e faço. Não fico pensando no que vai ser. Pega fogo, cai matando e faço.
Mas agora tem sido muito legal esse processo com o Beto. No começo eu não queria aceitar a parceria porque a exposição ocorreu lá no Convento das Mercês, onde eu trabalho. Não queria misturar as coisas. Mas depois o Beto me convenceu. Ele pintava a tela e me mandava a foto, o tema… e aí, me pegou mesmo. Eu chegava a sonhar com as telas, pra tentar escrever as músicas. Depois que eu mandava a letra ele encaminhava a melodia.
Ocorre também de alguém me mandar a letra e eu fazer a melodia. Eu tenho uma parceria com o Zeca Baleiro, chamada Flor do Mururu, que foi quando ele me deu um poema, me dedicou e eu demorei uns 20 anos pra fazer.
Paulo Vinícius Coelho
Não tinha prazo, né? [risos]
Josias Sobrinho
Pois é! [risos]. Com prazo eu funciono bem, mas se não…
Mas aí quando o Zeca veio fazer o Ventos que Sopram Maranhão [filme de Neto Borges], eu pensei “pô…vou terminar essa música”. Aí eu criei o prazo, que era quando o Zeca chegasse pra gravar o filme, e deu certo. Sentei no violão pra fazer e a música veio inteirinha de uma vez.
A minha frequência de composição, às vezes, é meio rara, porque eu não vivo só de música. Eu não sou um grande intérprete, que é quem às vezes consegue se destacar mais. Então, só como compositor não dá. Eu tenho que ter outros trabalhos.
Quando eu me casei e minha mulher ficou grávida, eu pensei: é, agora eu vou ter que trabalhar. Foi assim que eu fui pro Serviço Público.
Paulo Vinícius Coelho
Faz quanto tempo que você está no Convento? Na Fundação da Memória Republicana?
Josias Sobrinho
Eu estou na Fundação desde 2015. Mas eu sou servidor público estadual. Inclusive tenho uma aposentadoria já pelo INSS com 35 anos de serviço, mas eu posso ficar até os 75 anos, pra aposentadoria compulsória.
Eu tive que fazer muitas coisas. Eu vendi ovo. Eu fiz transporte escolar. Fui dono de uma livraria, na rua do Sol, o Espaço Aberto. E até hoje sou servidor público, que é uma coisa que eu acho muito importante.

Paulo Vinícius Coelho
Josias, o que você gosta de ouvir em casa?
Josias Sobrinho
Eu ouço pouca coisa além da minha obra. Essas 100 músicas que eu lancei, eu não sei elas. Eu conheço, sei tocar mais ou menos, mas preciso estudar esse repertório.
Eu ouço música no carro, na rádio. Também ouço muita música que as pessoas me indicam. Mas, pra citar um exemplo melhor, eu gosto de música africana. Adoro música africana. Dá vontade de fazer aquelas coisas. Muita vontade. É uma música que me prende. Me prende mesmo.
Eu gosto de ouvir coisas da cultura popular de outros cantos. Mas eu ouço música erudita, ouço música clássica. Eu ouço música jamaicana. Eu ouço rock. Eu descobri o Frank Zappa há pouco tempo e estou adorando. Sabia dele, claro, mas não tinha ideia da genialidade.
E gosto de samba, de choro.
Meu pai ouvia muito samba em casa. Isso me formou musicalmente. Noel Rosa, principalmente, que eu gostava muito. Também tinha Nelson Gonçalves. Tinha tudo do Nelson Gonçalves, Ataulfo Alves, Altemar Dutra, que minha mãe gostava mais…algumas coisas de orquestra também, dos anos 50. Muita música brasileira.
Hoje mesmo eu tava fazendo uma pesquisa na música brasileira porque o Samba, Choro e Outras Bossas vai dedicar mensalmente um quadro pra essa música que tem alguma coisa a ver com democracia, com liberdade, né? E com censura, com aquele material das músicas de festival e tal.
Então a cada edição um dos artistas vai cantar três músicas desse repertório. E a gente vai fazer uma edição no aniversário da Constituição. Fazer um show só com esse repertório.
Paulo Vinícius Coelho
Josias, vamos falar da homenagem da Turma do Quinto. Eu vi o desfile, foi um negócio espetacular. E eu acho que ser homenageado por uma escola de samba deve ser uma emoção incomparável. Dá pra dizer que foi a maior homenagem que você já recebeu?
Josias Sobrinho
É, cara, eu não sou adepto a homenagem. Eu nunca almejei. Não faço as coisas pra ser homenageado. Não fico esperando. Tanto que se eu pudesse, só me vestiria assim como eu estou hoje, pena que minha mulher não deixa [risos].
Mas é o seguinte: o Quinto é a minha escola. Conheci através de César Teixeira, que é do Largo de São Pantaleão, lá da Madre Deus. Todo domingo a gente estava lá no Quinto. A gente ia pro Quinto e pro Boi da Madre Deus
Eu tava lá no primeiro racha do Quinto, quando as escolas se aproximaram mais dessa coisa parecida com o Rio de Janeiro, se distanciando dos ritmos da Madre Deus pra ter um samba mais contemporâneo. Fui autor de um samba dessa transição, participei de concursos pra eleger os sambas.
Tem uma relação muito afetiva com o Quinto, mesmo que eu não seja de estar sempre lá. Quando eu fui convidado pra homenagem, foi por meio do Celso Brandão. Eu fiquei ”não sei, não, cara”, mas ele é bem convincente.
Até porque é o Quinto falando as coisas que eu fiz, não sou eu falando sobre minhas coisas. É a minha escola. E se todo mundo concordou, por que não?
Só que esse enredo do Quinto foi o mais longo da história, né? Demorou três anos pra sair, por conta da pandemia. Depois, quando eu vi o samba, eu fiquei encantado. Na verdade, eu vi os sambas todos que concorreram. Antes da escolha, eu tive acesso a todos os sambas, mas não participei da escolha.
Leonardo Alves
Você falou das trocas com as novas gerações, da importância de conhecer, mas eu queria saber se tem algo que te incomoda na forma como a música atual é feita, em termos de mercado e de conteúdo?
Josias Sobrinho
A música da grande mídia é uma música realmente incomodante, né? Diz pouco. Mas essa coisa do mercado sempre foi presente. Hoje, claro, com a expansão da internet, muito mais gente tem voz. Isso é legal. Só que o poder do capital inviabiliza essas pessoas. A grande música ainda está viva; ainda existe. A obra de arte musical é feita por muita gente.
O que me incomoda também na produção musical é ver muita coisa, muita gente, muito talento, sem ter a chance de se mostrar.
Lá no Convento, eu tenho tentado ajudar, mas eu sou a ponta do iceberg.
Você não vê as coisas porque o mercado, o Estado, a política pública, é uma lástima. E por incrível que pareça, a gente deve isso, em grande escala, à esquerda que assumiu o poder. A coisa é tão presente que a gente chega a pensar que a esquerda não gosta de cultura.
Isso não é só Maranhão. Essa invasão de fora que a gente vê aqui, acontece em Fortaleza, Recife.
Tudo bem, é legal o que vem de fora, mas eu acho que a gente deveria dar oportunidade para todas as pessoas.
Os nossos gestores acham que cultura é gente na praça dançando. É também, mas cultura é uma coisa mais profunda, é o que nos distingue, é a nossa identidade.
Paulo Vinícius Coelho
Sim. Às vezes as pessoas dizem “ah, mas quando a gente coloca uma atração maranhense, não tem repercussão”. Ora, a função do Estado é dar repercussão. É fazer as pessoas conhecerem. O capital vai inevitavelmente fazer com que as produções deles sejam amplamente conhecidas, então é o Estado que tem que incentivar as outras produções.
Josias Sobrinho
Sim, mas a formação do ouvinte acontece em casa também, né? Por mais que meus filhos não tenham sofrido a minha influência direta, eles acabaram vivenciando um ambiente que estimulou eles a ouvir muita coisa. Um deles é muito fã de Beatles. Engraçado isso, porque quando eu era mais novo diziam que Beatles era banda para meninas. Só depois eu fui conseguir ouvir.
Paulo Vinícius Coelho
Josias, a gente sempre encerra as entrevistas pedindo uma indicação e uma contraindicação. O que você indica?
Josias Sobrinho
Eu indico gratidão. Se a gente tiver gratidão, o nosso modo de ser pode mudar. A gratidão é carregada de outros sentimentos, de coisas que fazem muito bem para a alma e para as outras pessoas, porque quem convive comigo vai ser impactado.
E eu não indico a arrogância e o ódio.






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