O instrumento de Theo


O comovente expediente do flautista João Neto e as rodas de choro no Bar do Léo.


Foto: Juliano Amorim

Nos últimos meses, o Bar do Léo tem sido agraciado esporadicamente com rodas de choro que reúnem alguns dos melhores instrumentistas ludovicenses. O motivo é tão nobre quanto o talento dos músicos: arrecadar fundos para o tratamento do pequeno Theo, como é carinhosamente chamado o filho do flautista João Neto.

Para quem acompanha o grupo com frequência, não há dúvidas de que suas apresentações são sempre prazerosas (o Bar do Léo e a sua gente facilitam, e muito, essa condição). Mas ontem a atmosfera parecia ainda mais encantadora. Atribuí aquilo, a princípio, a um sentimento pessoal, despertado pelas boas companhias que me cercavam. Comentei a impressão com o amigo Zeca do Cavaco, que logo exclamou: “hoje está realmente diferente!”.

A mesa estava repleta. Ao grupo habitual — pandeiro, violão, cavaquinho e flauta — somaram-se trompetistas e trombonistas, ausentes em outras ocasiões, engrossando ainda mais o caldo. Vieram também as intervenções de samba de Nivaldo Santos e do próprio Zeca do Cavaco, que nos presenteou com uma interpretação brilhante de Miudinho (autoria incerta, embora popularizada por Paulinho da Viola), além de Onde a Dor Não Tem Razão, também de Paulinho da Viola, e Pedacinho do Céu, de Waldir Azevedo. Um primor!

Entre as pausas para que os músicos retomassem o fôlego (ufa!), o apresentador nos recordava o essencial: toda aquela beleza tinha o propósito maior de contribuir para o tratamento do pequeno Theo.

A dedicação do pai, João Neto, é comovente. O flautista recebe cada colega de roda com um sorriso que estampa gratidão. E a adesão dos músicos, marcada por um companheirismo sincero, não é menos emocionante.

Não posso imaginar o quão difícil deve ser para João lidar com a delicada situação do filho, mas me sensibiliza a maneira como ele enfrenta o desafio: fazendo música, empunhando a flauta como escudo. Esse é o instrumento de João Neto. Já o do pequeno Theo é o amor inabalável do pai e o cuidado generoso da trupe do choro ludovicense.


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