
Sexta-feira, como sugere o clima, é dia de amenidades. Pensei nisso enquanto comentava com alguns dos amigos desta confraria etílico-jornalística sobre discos importantes para nós. Falar de discos prediletos, artistas favoritos e canções marcantes é assunto que não fica gasto; pelo contrário, é um enorme regalo. Foi motivada por isso a minha decisão por elencar, em forma de lista, alguns discos muito importantes para mim. Ordens às favas: o importante é falar de música. Façamos:
Caetano Veloso – Livro (1997)

2015, viagem de carro pelo Nordeste. Naqueles idos, dando prosseguimento ao meu frisson por Caetano, iniciado no fim do ano anterior, decidi aprofundar-me em sua discografia. De seus trabalhos, não conhecia muito além das coletâneas que meus pais possuíam em casa. Aqui e acolá, sucessos quaisquer e regravações semi-obscuras de seu repertório também chegaram até mim, dentre outras coisas que ouvi no rádio. Tudo muito disperso.
As coisas mudaram quando, em 2011, meu irmão trouxe para casa o Circuladô (1991). Não sei dizer, me afeiçoei àquele disco de cara. A “estranheza” do repertório, e, singularmente, a produção me pareciam muito excitantes, de modo que eu poderia citá-lo como um dos discos mais definitivos para minha formação, preterindo-o ao álbum que decidi escolher.
Não o faço porque as coisas em Livro me absorveram – quando das minhas primeiras audições -, convidativas ao extremo, como jamais outro trabalho de Caetano me cooptou os sentidos. Era o clima da época associado à beleza das composições. Posso dizer, com mais contundência – e com referencial estético mais apurado -, que a combinação do cool jazz, presente na escolha dos metais dos arranjos; os sotaques de percussão e o lirismo preciso das cordas de Jaques Morelenbaum, combinados, é que resultam na elevação deste conjunto de canções, para o meu gosto, ao sublime.
E muito do que é a minha emoção, se falo e penso em Livro, se deu por conta da viagem, mencionada por mim no parágrafo que abre o texto, à diversas cidades do Nordeste. A paisagem agreste – o calor, a maresia, o cheiro do ar – veio adornada por Os Passistas, Onde O Rio É Mais Baiano, Manhatã, Você é Minha. Não menciono o smash hit Não Enche porque, como sugere a adjetivação, é autoexplicativo. Ça va sans dire.
Ana Frango Elétrico – Little Electric Chicken Heart (2019)

Me Chama de Gato Que Eu Sou Sua é definitivamente um ato de aproximação ao mainstream – se é possível falar nesses termos. É justo que o seja, posto o alto quilate da produção musical que o acompanha e o repertório bem acertado. Gosto do disco com ressalvas, porque o trabalho anterior, Little Electric Chicken Heart, é uma das minhas coisas favoritas na vida.
Lembro de ter achado a capa do disco linda, elegante, sintética. Uma carta de intenções em imagens. Se pensarmos bem, a imagem representa o álbum com eficácia. O tom esmaecido, os granulados, o vermelho, o rosto desbotado de Ana. O olhar. Gosto da forma como ela olha para a câmera.
Seria sugestivo mencionar a sonoridade do disco como vintage. É um tipo de aprisionamento, pela definição, que não me interessa enquanto categoria. Seria lançar mão, aqui, de um truísmo, um facilitador. E facilidades não constam na textura da arte desenvolvida por Ana Fainguelernt.
O texto dela é livre e expansivo. Não conclui, ou melhor, não pretende concluir-se, em mensagem, pela forma tradicional da poesia. Estamos lidando, ou ouvi-la, com uma liberdade pareada à força descomplicada do som, onde o indie é primo do jazz. High-Fi.
Promessas e Previsões e Chocolate têm tanta exuberância, que, ao deleitarmo-nos na audição de ambas as faixas, só poderemos mesmo chegar à conclusão mais pragmática: apenas uma pessoa linda poderia fazê-las.
Billie Eilish – Happier Than Ever (2021)

Não chega a ser exagero dizer que Hit Me Hard and Soft foi o álbum de 2024. O disco conserva todos os predicados de Miss Eilish: texto apurado, confessional; harmonizações bem situadas e uma produção sólida de Finneas O’Connell, irmão da artista. Tudo muito bom, embora algo em mim, quando do lançamento do disco, não conseguiu acessar as informações sugeridas nas composições.
Fui com expectativas muito ambiciosas, dado o lirismo do disco anterior, Happier than Ever, planar sobre os meus sentidos com toda a paixão que se possa presumir. Este disco, sim, congrega o melhor da identidade Eilish-O’Connell. A diversidade de gêneros reunidos em cada uma das faixas – e a própria ambição da dupla em emprestar beleza ao número mais diverso de estilos possíveis – se não consegue chegar a um acabamento ideal, como pode-se ver, por exemplo, em Billie Bossa Nova, é, no mínimo, auspiciosa pretensão.
Certamente, um dos melhores álbuns desta década. No meu íntimo, ao menos, sempre será.
O Terno – Melhor do que Parece (2016)

O Terno é, com sobras, minha banda brasileira predileta. Por causa de Tim Bernardes – quando tomei nota de sua música – vi que era possível conservar uma linguagem rock, de um neo-rock inglês, conjugada à tradição de música popular. O líder do grupo – àquela altura em que a banda existia – segue como um dos mais bem sucedidos em realizar esta conjunção.
Decidi, após vê-lo, que as canções em inglês que eu fazia – muito precárias, por sinal, embora com alguma graça – deveriam ser postas no esquecimento. Passei a esboçar versinhos; a atentar-me ao furor da novidade de sua presença como um sinal positivo de saúde na música brasileira.
Voltando ao Terno, Melhor do que Parece chegou até mim tão logo me dei conta da aparição de Tim Bernardes. Recomeçar (2017) era o seu trabalho mais recente, só que este disco pecava – e peca, até hoje, embora o aprecie mais – em um desnível entre a qualidade das harmonias e dos arranjos e o texto que os acompanha. Parecem descompassados, sendo a primeira categoria muito mais bela que a segunda.
No Terno, o despojamento indie rock subleva este ponto. As coisas ficam claríssimas. E a delicadeza dos arranjos de Recomeçar, quando no contexto da banda, sofisticam a linguagem rock empregada pelo grupo. Aí, sim, a totalidade de elementos converge para uma mesma instância. E tudo fica mais bonito.
Tim Bernardes tem o mesmo tino de um Guilherme Arantes, quando o assunto é compor baladas. Em Volta, as certezas de um grande amor são inequívocas. Ouso dizer que é dessas grandes canções do nosso tempo. O álbum todo o é. Ainda não alcançamos nem a beira da grandeza que ele possuirá daqui uns anos. A História das coisas belas não são fáticas; elas têm seu próprio tempo. O tempo da grande arte é quando?
Paul McCartney – Ram (1971)

Ei! Ei! Ei! Ei! Faça como o filme: vá e veja. E assevere-se, ao fim, também como noutro filme: é tudo verdade





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