
São seis meses de existência de Sociedade do Copo, mas sua história remonta a um tempo que escapa às contagens. Não se mede em dias ou meses o turbilhão de ideias, angústias e desejos que deram forma a esta iniciativa — jovem na forma, mas herdeira de aspirações antigas. O que nos move é a excitação pelo bom jornalismo, pela palavra, pelo debate e pelo sonho. Mas antes do entusiasmo, há um incômodo.
Um incômodo que se volta contra o mau jornalismo, contra a ignorância, a mediocridade e a mesmice. Este veículo nasce, assim como outros partos, não apenas do ímpeto, mas também da dor. Antes de nós, o professor Darcy Ribeiro já havia dito: “Tenho tão claro o que pode ser o Brasil que me dói o Brasil que é.” Eis a ferida que nos atravessa, mas também a centelha que nos mantém em movimento.
Não negamos: o que propusemos desde o início é uma tentativa de provar que outra forma de produzir jornalismo e de produzir conteúdo é possível. Tentamos – nem sempre com sucesso, evidentemente – fazer notícia, humor, entrevista, crônica, conto, reportagem, ensaio e tantos outros formatos, com qualidade, sem se apegar à maldita pecha que reina nas redações de que qualquer modelo que escape da mediocridade é “rebuscamento’’. Ora, não é possível menosprezar o leitor. Muito menos tomar a baixa qualidade como norte por conta de falsas justificativas. Ousamos dizer: já provamos que há espaço para fazer diferente e para fazer com virtude.
Em seis meses de expediente, produzimos quase uma centena de textos em diversos formatos, alcançamos mais de 11 mil leitores em nossa plataforma e outras centenas de milhares de espectadores por meio das redes sociais. Enchemos o Copo, ou seja, entrevistamos, dezenas de figuras relevantes para o pensamento maranhense e o pensamento brasileiro, entre os quais destacamos Luiz Antônio Simas e Laerte Coutinho.
Não há como saciar o leitor elucidando uma cronologia definitiva dos fatos que concorreram para que o blog nascesse. Sonhos diferentes, de naturezas diferentes – no coração de cada um dos membros, Leonardo Alves, Juliano Amorim, Gabriel Jansen e Paulo Vinícius Coelho -, compuseram a ideia que acabou por tornar-se pública, no fim de julho de 2024.
O elemento comum: a insatisfação com o ambiente estéril e castrador da prática jornalística local. E mais: de minha parte, um vislumbre por estender o alcance do nosso discurso para antigas e, sobretudo, novas gerações país afora. Me parece injusto crer que, no Maranhão, tenhamos todos de estar atados apenas às imediações de nosso regato.
Deve-se inadmitir, sempre que possível, uma resignação sem latência. O horizonte sem lume. No Estado mais pobre do Brasil, é preciso que as gerações se desatem do mal-estar e mostrem que nós, aqui, queremos estabelecer diálogos, e não apenas perecer na penumbra de uma vida que, dia após dia, severina e cabisbaixa, faz-se apenas de pensamentos no adiantado da hora e no ordenado do mês.
Uma expressão que nos é de uso íntimo é “tomar o navio da civilização”. O chamamento que a cada um dos nós atravessa, convidando para ações mais robustas, quando é preciso recolocar o desejo de mover nossos sentimentos aos lugares que nos parecem corretos, mantendo, sem que fujam dos olhos, valores essenciais do jornalismo, como a credibilidade, a transparência e o respeito à audiência.
Quem não pode ver que são estes, no fim das contas, os propósitos mantenedores deste espaço, não poderá entender mais nada. É preciso fazer jus à pluralidade do que é produzido no Maranhão, para que as novíssimas gerações tenham onde mirar seus olhos, caso queiram desautorizar saídas mais simplórias perto do que ocorre no íntimo de suas intuições.
Em menor escala, o ambiente de ideias, em São Luís, pode seguir à risca a frase em que Caetano diz que “tem que esconder no escuro quem na luz se banha”. Se alguns nos pretendem ver discretos, por não quererem-nos à altura do projeto que lideramos, recuso o aprisionamento. Somos ambiciosos.
Dos clichês que restam para definir a Sociedade do Copo, debruço-me sobre as palavras de Antônio Carlos Belchior em Como Nossos Pais, “o novo sempre vem”. A recusa à estagnação reina soberana nos circuitos que compõem este veículo, assim como um apreço inestimável pelo questionamento. A matéria prima do jornalismo é a dúvida – certezas inexploradas me geram as maiores inquietações – e a partícula elementar das novidades reside na mesma biosfera. É neste ecossistema que se calcula o peso das lágrimas e mede-se a curvatura dos sorrisos, que se materializam os sonhos, se abstraem as lorotas e que afago e repulsa coexistem com um mesmo propósito. Portanto, é neste espaço que a SDC pretende fincar seus pés e suas mãos. Mãos estas que, mesmo repletas de calos de nossas outras atividades, se empenham diariamente em produzir o que acreditamos ser de merecimento do estado que temos como berço.
O empirismo revela e as teorias decretam: o contato com o outro é intrínseco à comunicação. É preciso estar disposto à expansão, “reconvexar”, eximir-se do “eu” e dar espaço ao “você”. Ao mesmo tempo que é necessário abrir os corredores aos que geram seu primeiro alvorecer, é preciso estar com os olhos atentos a quem continua a ser reflexo no retrovisor da história; nossos ouvidos estão reservados tanto a Clara Madeira quanto Odair José, assim como nos deleitamos com os murais de Origes com a mesma admiração que observamos as tiras de Laerte. Aqui, há sempre de existir a ousadia pulsante para enfrentar os leões, estejam eles nos coliseus ou nos palácios, e nós nas mesas de botequim ou nos balcões das lanchonetes. Reside a peculiaridade nestes locais que nos são comuns, tal qual a esperteza e a inteligência; a estranheza pode surgir na “alta cúpula” no momento em que nós, frequentadores destes espaços, ousamos falar sobre a realidade que nos permeia com a mesma tenacidade e sofisticação que se comenta sobre a utopia que nos é negada. Acredite ou não, meu amigo, mas frequência do canto de Chico Buarque ressoa em meus paupérrimos tímpanos com mais clareza que em seus ouvidos banhados a pirita.
A efeméride dos seis meses de atividade da SDC me faz lembrar, ainda, de que a certa altura houve a discussão sobre a elaboração de um manifesto da plataforma. A ideia era um texto que transmitisse ao público a síntese de nossas intenções e os caminhos que pretendíamos percorrer para concretizá-las. Por mais que o tal documento nunca tenha visto a luz do dia, me parece que o trabalho falou por si.
O processo de maturação da Sociedade do Copo se dá desde o pontapé inicial, quando cada um de nós rebuscou nas gavetas – literais ou figuradas – escritos que surgiram em momentos diferentes, por objetivos diferentes e com destinos diferentes. De lá para cá, mudanças de direção, aparo de rusgas e levantamento de bandeiras não previstas na gênese do projeto. Ainda assim, no fim das contas prevaleceu, acima de quaisquer metas originais, a força congregadora que transformou ideias até então aprisionada nos corações, entranhas e cérebros de cada integrante no espírito coletivo que estabelece uma alma una, que pulsa e inflama a cada sílaba de cada palavra de cada frase de cada texto.
O jornalista espanhol Íñigo Domínguez afirma que “a frase jornalística tem de estar construída de tal forma que não só se entenda bem, mas que não se possa entender de outra forma.” Que façamos nos entender, então, uma vez mais e de uma vez por todas: na Sociedade do Copo, a ideia, agora, é tocar no assunto, mesmo quando nos ditam como indignos para tal.
Glória a todas as lutas inglórias
Por Paulo Vinicius Coelho, Juliano Amorim, Gabriel Jansen e Leonardo Alves





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