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Entrevista com Dora Morelenbaum: “eu sou mais fluente em música do que em português”


No pique! Dora Morelenbaum conversa com a Sociedade do Copo sobre o seu primeiro lançamento solo, suas referências, a experiência com o Bala Desejo e tudo que orbita seu universo central: a música.


Foto por Maria Cau Levy e Ana Frango Elétrico

A manchete dá uma dimensão muito pontual do que foi esta conversa com a musicista Dora Morelenbaum. Integrante do Bala Desejo, banda que experimenta um hiato atualmente, a cantora e compositora lançou, em outubro do ano passado, o seu primeiro disco solo: PIQUE.

Ao longo da conversa, Dora revela que a obra nasceu com uma ideia musical bem definida, mas sua identidade visual e conceitual foram tomando forma aos poucos. “Antes do álbum ficar pronto, eu ouvi muito ele em movimento, no ônibus, no avião, no carro, andando, correndo…”, conta, ressaltando como a sensação do deslocamento se tornou parte essencial do trabalho e definidora do título do álbum.

A sonoridade do disco também traz experimentações: as gravações foram feitas digitalmente, mas mixadas em fita analógica, num processo que, segundo Dora, buscava definir uma linguagem sem cair no saudosismo. Essa busca por identidade também se reflete na estética visual, construída em parceria com Maria Cau Levy, designer, e Ana Frango Elétrico, com quem dividiu a produção das 11 faixas.

Na composição, Dora encara deleites e desafios. “A canção no Brasil é uma instituição. Tem muitos caminhos já trilhados, e eu me pergunto: como esgarçar isso, olhar para outros lugares?”, reflete. PIQUE traz diversas parcerias, com destaque para Tom Veloso e Zé Ibarra. Mas se tem algo em que a artista confia, é na força do coletivo: “Quando você discorda de alguém, vocês acabam chegando num consenso que, no fim, é melhor para os dois.”

Com o desejo de circular mais com seu álbum, Dora sonha em levar PIQUE para novas cidades – e São Luís está na lista. “Me ajudem a ir para aí!”, brinca. Entre suas referências, a cantora e compositora, óbvio, menciona os seus pais, os consagrados Jaques e Paula Morelenbaum, mas também faz referência a Stevie Wonder, Gal Costa, Negro Leo e Alcione, além de Ryuichi Sakamoto, destacado como uma inspiração e uma motivação para o seu desejo de elaborar trilhas para o cinema.

Confira a entrevista completa:

Leonardo Alves
Vamos começar falando sobre o PIQUE, seu último trabalho. Gostaríamos de entender se o teu processo de criação e gravação de álbum tem ideias mais prontas, pré-definidas, ou elas vão sendo construídas com a banda conforme o processo de produção avança?

Dora Morelenbaum
Legal essa pergunta para começar, porque ontem mesmo eu estava com a Ana Frango Elétrico, que produziu o álbum comigo, e a gente estava falando como cada processo é muito único. E agora, quase cinco meses depois do lançamento, eu consigo ter uma outra visão de como foi o processo. No caso desse álbum, eu comecei com uma ideia mais fechada do que eu queria em termos sonoros, em termos musicais, mas toda a parte de imagem, conceito, nome, o entendimento do tema, da poética, foi vindo depois.

Surgiu, nesse caso, a partir do discurso musical. Para um próximo projeto eu imagino algo diferente, começando a partir de um pensamento sobre a temática, a poética e o conceito antes de necessariamente um discurso musical.

Leonardo Alves
Dora, sobre essas mudanças durante o processo de gravação: elas ocorrem de maneira natural ou geram uma dificuldade de aceitação entre o que você havia imaginado e o resultado final?

Dora Morelenbaum
É um pouco dos dois. Eu já tinha muito esse pensamento estético do som, até por isso eu chamei a Ana Frango Elétrico para a produção, e o resultado que a gente chegou tinha muito a ver com a minha vontade inicial.  A Ana também tem muito essa visão à frente, de conseguir visualizar essas paisagens sonoras. A boa produção tem a ver com você já conseguir imaginar algo. Óbvio que mil coisas vão mudando no caminho, mas, nesse caso, o entendimento poético do álbum mudou mais do que o musical. Em termos de música, eu cheguei no lugar onde eu imaginei no início.

Leonardo Alves
A faixa título do PIQUE traz uma mensagem muito clara sobre crescimento e maturação. A escolha da música para nomear o primeiro disco solo passa por esse lugar na sua vida? Dá pra dizer que a música é uma carta de intenções?

Dora Morelenbaum
Com certeza. No início, o álbum não tinha esse nome. Isso veio no final justamente por essa compreensão de que esse processo era o que estava movendo todo o álbum. Esse processo de me jogar sobre a canção mesmo e, a partir dela, como matéria-prima essencial, começar a entender esses outros movimentos.

E o nome PIQUE contém tudo isso. Essas mudanças que foram sendo entendidas ao longo do processo, o movimento da própria música. E aí eu entendi que isso era o PIQUE. E eu fiz esse álbum também no PIQUE, me mexendo de um lado para o outro, eu e a Ana conciliando agendas, minhas e dela. Isso foi também trazendo esse movimento para a gente.

A gente ouvia uma música nova, um festival em algum lugar novo, e isso dava novas ideias para a gente. E além disso tudo, teve uma coisa muito sinestésica para mim da imagem do álbum, da sensação do álbum.

Antes do álbum ficar pronto, eu ouvi muito ele em movimento, e eu acho que isso me fazia muito sentido naquele momento, sabe? Era um álbum que eu ouvia no ônibus, no avião, no carro, andando, correndo… enfim, isso refrescou para mim a musicalidade do álbum.

 

Capa de PIQUE

Leonardo Alves
Dora, sobre imagem: a gente teve uma curiosidade também especial pela estética visual da tua carreira, que também parece algo bem pensado, bem elaborado por ti e pela equipe de produção. Como é que a imagem dialoga com a sua música?

Dora Morelenbaum
Cada caso é um caso. No PIQUE, ao longo do processo eu fui entendendo essa sensação do movimento e pensando como retratar isso em imagem. E não foi fácil, porque justamente a imagem também foi uma coisa que foi vindo depois, ao longo do processo.

E a gente foi entendendo como retratar exatamente essa sensação que eu tinha ao longo do processo. E aí eu chamei a Maria Cau Levy e a Ana Frango Elétrico também para a gente começar a experimentar essa fotografia, como seria retratar isso.

A gente não tinha a intenção de fazer esse paralelo com a feitura da música, porque nas gravações a gente gravou tudo em digital, normalmente, como se faz hoje em dia, mas a gente mixou na fita.

Então, teve um processo analógico posterior. E eu acho que isso também tinha muito a ver com uma vontade de delimitar limites, colocar limites para delimitar uma linguagem. E a mesma coisa acabou acontecendo na imagem sem que a gente soubesse o porquê.

A gente também fotografou tudo em digital, que era a tecnologia que a gente tinha à mão. E a Maria Cau veio com essa ideia de passar tudo na risografia, ou seja, também tratar com verniz analógico, não como uma coisa saudosista, mas como uma coisa de usar a tecnologia que existe a nosso favor.

Hoje, muitas pessoas conseguem gravar um álbum em casa com o próprio celular. E isso delimita a linguagem. E eu acho isso muito interessante de olhar hoje em dia. E tem muita gente que tem um estúdio disponível e um monte de equipamento e mesmo assim a coisa fica solta, porque você tem milhões de tecnologia disponíveis. A fita, o analógico, o microfone tal, e aí, às vezes, vira uma miscelânea que não é nada. E às vezes você grava um disco inteiro no celular e consegue imprimir uma linguagem ali.

Eu acho muito interessante olhar para isso hoje, porque acho que os gêneros vão surgindo a partir daí também, desses limites que se colocam para cada coisa. E isso foi um pensamento que me acompanhou bastante nessa gravação.

Leonardo Alves
Tem alguma música específica no PIQUE que você elegeria como representante da tua fase atual como artista?

Dora Morelenbaum
Olha, a princípio, eu diria que é difícil escolher. Mas eu acho que nem tanto. Eu sinto que fui também no processo entendendo as minhas favoritas de cada momento. Várias dessas músicas eu comecei a compor lá atrás, muito antes de ter a ideia do disco mais formada.

Então elas tinham um caráter de uma Dora de, sei lá, seis, sete anos atrás, que olhava para a música, para a musicalidade, para as canções de uma outra forma. E eu justamente, com a produção, consegui trazer isso para mais hoje em dia.

Tem o “Sim, Não”, a única do álbum com letra e música só minha. Tem outras que eu faço a letra também, faço a música também, mas em parceria. E essa música, como composição, tem uma ideia só.

Leonardo Alves
Dora, aproveitando que você mencionou que algumas músicas vêm lá de trás, queria saber como foi o seu início nessa questão da composição, quais foram as dificuldades e como você lida com essa questão?

Dora Morelenbaum
Eu acho que ainda é uma dificuldade. Compor, para mim, é um mistério ainda de que caminhos seguir. Porque eu acho que a gente tem uma instituição que é a canção no Brasil. É uma coisa muito forte e muito completa. E tem muitos tipos de canção, muitos caminhos possíveis. E coisas consagradas e sagradas. Então, acho que é um caminho difícil de seguir.

Por isso que comecei a olhar com um pouco mais de atenção para outros parâmetros da composição e da produção, principalmente. Acho que a gente não esgotou, claro, os recursos da canção formal, clássica, tipo harmonia e melodia. Sempre vão ter novos caminhos. Mas, ao mesmo tempo, não são tantos. A gente tem uma limitação, que é a música ocidental, a música tonal. A gente só tem 12 notas, não tem mais do que isso.

Volta e meia tem aparecido de plágios. E é muito doido, porque muitas vezes tem plágios, com certeza. Mas muitas vezes são caminhos muito comuns na música, que se repetem, sabe? A gente já viu isso acontecendo.

A música tonal existe há muito tempo, muitas coisas já se repetiram, sabe?  Por pensar justamente essas repetições, eu acho que tem muitas pessoas olhando para outros parâmetros da música, para além da harmonia e melodia, que é uma coisa limitada, não infinita, e olhando para a textura, para timbre, justamente essa sinestesia, as paisagens sonoras, a imagem que a música produz. Não necessariamente uma imagem real, mas a espacialidade daquilo, a ambiência, sabe? Isso tudo eu acho que passou a ser mais interessante para mim no momento da composição.

Voltando mais diretamente à pergunta: para esse álbum, eu estava juntando músicas de um tempo atrás, elas estão dentro desse quadrado, bem ou mal, sabe? Porque são da onde eu vim, é a música que eu ouvi a vida inteira e é a música que eu amo.

A canção é a maior instituição para mim, ponto. Mas, por respeito, eu acho muito interessante também olhar para outros lugares, tipo, isso aqui foi feito, isso aqui é genial, e tem muito mais, sabe?

O que mais dá para olhar, sabe? Como ainda esgarçar isso? E aí, o que eu estou falando são os meus processos atuais de composição. Tanto essa música, que eu falei que foi uma das últimas, quanto as músicas que eu tenho composto depois do álbum lançado e fechado, acho que elas olham muito mais para esses outros caminhos do que para esses caminhos formais, assim.

Eu sou da música, né? Eu sou mais de fazer a música primeiro e depois a letra. Normalmente, a letra nem é minha.

Foto: Maria Cau Levy e Ana Frango Elétrico

Juliano Amorim
Ainda falando de composição, porque o disco, PIQUE, tem várias músicas em parceria. E tem a colaboração do Tom Veloso. Desde a sua estreia com o Dó a Dó, passando pelo Vento de Beirada, o Tom é parceiro recorrente no teu trabalho. E eu queria saber como é esse processo de compor em parceria para você. Dá dor de cabeça ou é tranquilo?

Dora Morelenbaum
Eu acho parceria muito bom, acho que me dá tranquilidade de você entregar para uma outra pessoa que você confia. Eu chamei a Ana para produzir também, acho que é muito bom quando você confia, admira alguém a ponto de querer entregar uma parte do seu trabalho para essa pessoa.

Mas cada processo é um processo também. Eu aprendi muito sobre compor em parceria no Bala Desejo. Acho que foi mais importante ainda para eu entender o que de riqueza tem essas multiplicidades de pensamentos, de pensamentos musicais, de pensamentos poéticos, de pensamentos de forma, de tudo, de ideia.

Quando você discorda de alguém, se vocês têm que fazer uma música, vocês vão chegar em algum consenso que, em geral, vai ser melhor para os dois. A princípio, você pode ficar meio contrariada, mas depois percebe como é mais múltiplo aquilo, mais rico.

Juliano Amorim
Eu mencionei o Tom porque talvez ele seja o parceiro mais recorrente do disco, e o disco tem muitas parcerias. Geralmente, artistas têm essa dificuldade de compor com outra pessoa, de dividir a linguagem, de entender a canção da mesma forma.

E eu gostaria de saber como é isso para você. Até o fato de essas parcerias terem sempre uma recorrência com nomes como Tom, com o Zé Ibarra. A recorrência facilita?

Dora Morelenbaum
Acho que, nesse caso, a maior parte das letras do álbum são do Tom ou do Zé. E acho que por esse processo meu criativo ter mais uma ligação diretamente com a música, acho muito bom poder entregar esse discurso poético para uma outra pessoa.

Tem uma música que tem uma citação ao Ítalo França, que acabou virando parceiro também, sem querer.

E a outra que não é minha é da Sophia Chablau, que é uma pessoa que tenho muita vontade também de ter novas parcerias, também pedir letra para ela. Acho que cada pessoa fala uma língua, é fluente em uma língua.

Eu escrevo também letra, mas sou mais fluente em música do que em português.

A canção é isso, você fala uma língua e uma outra falando em cima ao mesmo tempo. É uma loucura. Acho isso muito bom da parceria, quando rola esse encaixe. O Tom, a gente já teve muito esse encaixe e continua compondo, se admirando.

Juliano Amorim
Agora, uma pergunta para a gente fechar, em relação ao PIQUE, tem a ver com a banda que você escolheu, que é uma banda estelar. Tem o Alberto Continentino no baixo, Sérgio Machado na bateria, Guilherme Lino na guitarra e teclados com o Luiz Otávio.
A partir disso, considerando o peso que essa banda tem, que ela agrega para o disco, eu gostaria de saber duas coisas. A primeira, como foi trabalhar com eles no estúdio e a segunda é uma pergunta mais de cunho pessoal: se você pudesse montar uma banda dos sonhos, como ela seria? Quais os elementos que você escolheria?

Dora Morelenbaum
Eu já tenho a minha banda dos sonhos. A minha banda dos sonhos é a minha banda. É realmente um sonho, porque eu não precisava nem dar as músicas, entendeu? O disco já estava pronto na mão deles.

E a gente tem tocado junto nos shows também, nos shows de lançamento. Não exatamente com a formação original. O Sérgio Machado não tem feito os shows, porque ele também está fazendo vários outros shows. 

Não dá para querer tocar com uma banda dos sonhos e achar que vai ser fácil [risos]. Não é. Por isso mesmo é a banda dos sonhos. Eu não trocaria nenhum. Quem está fazendo os shows é o Daniel Conceição, que é outro gênio e também completa esse time dos sonhos.

E o processo deles no estúdio foi incrível. Realmente onírico. Porque eu e a Ana, quando a gente começou a pensar na sonoridade, a gente selecionou muito a dedo cada um e conseguiu juntar eles em uma data específica, porque todos trabalham com gigantes e têm seus próprios trabalhos também. Mas acho que todo mundo se sente muito à vontade também naquelas músicas. E uma coisa que eu me orgulho particularmente do álbum é que eu sinto que tem muito espaço para todos eles brilharem.

Não só com solos, mas a espacialidade do som das músicas permitiu isso. A gente quis dar essa espacialidade. A gente não queria botar um milhão de elementos. A gente queria dar espaço para cada um ter um palco, sabe? Em algum momento ter um foco de luz. E acho que isso é maravilhoso, porque eles são muito soltos no estúdio.

A gente já tinha muitas ideias, as ideias de forma, de arranjo, várias, mas a gente quis muito que cada um trouxesse também a própria individualidade ali. É uma forma como eu gosto muito de trabalhar como produção.

A gente não quis levar uma partitura e falar “toque isso aí”. Não vou chamar o Alberto Continentino num estúdio e falar toque isso aí. Quero que ele toque o que ele sente.

As pessoas falam que isso não é verdade, mas é porque eu falo que é um quarteto de jazz me acompanhando. É um quarteto de jazz porque eles têm muita liberdade ali. Não é um quarteto de jazz porque as músicas não são, mas é jazz nesse sentido da liberdade sonora

Juliano Amorim
A VW Blue tem muito isso, né?

Dora Morelenbaum
Exatamente.

Paulo Vinícius Coelho
Ontem eu apresentei o disco para um amigo meu e fiquei procurando para ele como definir o disco. No fim das contas eu disse “olha, é meio jazzistico…” e ele gostou da definição. E do álbum!

Dora Morelenbaum
É, ele tem isso, né? É muito difícil a gente se definir em gênero hoje em dia. Porque você tem muitos discos de jazz brasileiro. Não dá para falar que é jazz brasileiro, mas tem jazz, tem soul, tem um monte de coisa. Tem canção. Música brasileira é muito complexa nesse sentido.

O VW Blue que você falou, foi a comprovação disso. E vendo aquele time de músicos incríveis no estúdio, falei, vamos gravar esse tema. E é isso. Vai ser um instrumental no meu disco. Não é um disco de cantora. É um disco também tem uma cantora.

Dora por Maria Cau Levy e Ana Frango Elétrico

 

Juliano Amorim
Dora, no processo de gravação, o disco foi feito ao vivo? As canções são tocadas ao vivo? Ou cada um tocou sua parte?

Dora Morelenbaum
A gente gravou as bases todas ao vivo. E aí depois só foram gravados os arranjos de sopros e cordas e as vozes.

Juliano Amorim
Perfeito. Agora a gente queria falar um pouquinho de Bala Desejo, que foi o seu projeto anterior. E a primeira pergunta que eu queria fazer, refere-se ao seguinte. a questão do “sim” ganhou contornos pejorativos, de humor, mas havia ali a transmissão de um pensamento sofisticado, cuja fonte não era a música, e sim a literatura de Clarice Lispector. Houve alguma influência externa, como livros, filmes ou viagens, que tenham ajudado a moldar a visão do PIQUE?

Dora Morelenbaum
Eu acho que tive mais referências musicais e de cinema, talvez, no PIQUE, do que de literatura. Acho que no Bala estávamos em um outro contexto, um contexto pandêmico, então a gente se mergulhou em várias outras ideias que faziam muito sentido para a gente ali naquele momento e que foram se transformando ao longo do tempo.

E eu acho que o PIQUE veio mais de um discurso musical antes. Acho que o Bala já tinha uma ideia do que a gente queria falar sobre, do tema, da poética, e a gente foi atrás de referências bibliográficas naquela época.

E, no caso do PIQUE, eu acho que eu queria falar mais de sensação, de uma coisa mais subjetiva. Então, eu tinha referência de fotografia, os filmes do Wong Kar Wai, que tem essa sensação meio do lusco-fusco.

Leonardo Alves
Aproveitando que você mencionou o cinema. Uma referência muito presente nas suas citações é o Ryuichi Sakamoto, que é um compositor com um trabalho muito marcante no cinema. E eu tenho a curiosidade de saber se você tem vontade também de trabalhar com algo similar, fazendo trilhas para cinema ou algo do tipo.

Dora Morelenbaum
Tenho muita vontade. Acho que isso tem muito a ver com o papo que falei em relação às composições. Acho que tenho criado uma curiosidade em relação justamente à paisagem sonora.

No cinema é o lugar onde isso mais, talvez consiga ser completo, porque você atrela isso à imagem e aí fechou o círculo. Tenho muita vontade de trabalhar com trilhas.

Fiz uma coisa ou outra na pandemia. Eram curtas ou coisas de amigos, mas ainda não tive uma experiência de fazer uma trilha inteira, mas acho que é uma coisa que adoraria e faz parte do que tenho pensado de composição ultimamente.

Leonardo Alves
O Sakamoto tinha uma relação muito forte com o Jaques e a Paula Morelenbaum, os seus pais. Aproveitando isso, eu queria saber um pouco sobre a sua família. E eu queria saber se de alguma forma isso afetou com um receio seu de talvez não estar à altura das suas referências ao longo da sua trajetória, ou se talvez só foi um incentivo. Como é essa relação e influência dos seus pais na musicalidade e na carreira?

Dora Morelenbaum
Eu gostei da sua pergunta, porque em geral me perguntam se ser filha dos meus pais me pressionava de alguma forma, e para isso a resposta é não. Mas eu senti essa pressão em relação às referências, as coisas que ouvia a partir deles e talvez por causa deles também na minha infância.

Eu acho que isso é uma coisa que eu falo assim, caraca, é muito gigante. Meus pais sempre me incentivaram. Eu saí da escola e fui fazer arquitetura, não fui fazer música direto. Já tocava, já cantava, mas eu acho que ainda não vi um caminho muito claro para mim, por conta dessa pressão que eu mesma me colocava.

Já tem muitos caminhos já feitos, tem a ver com essa coisa da composição que eu falei. Meus pais tocaram com o Tom Jobim, também com o Sakamoto, que são grandes compositores, exploraram ao máximo essas linguagens.

Nesse lugar eu ficava achando que já tinham feito tudo, mas aí eu descobri que não. Eles fizeram muito, mas eu acho que eles justamente abriram mil outros caminhos também. O Sakamoto, muito. E eu fui entrando em contato com a obra completa do Sakamoto mais tarde, recentemente, porque até então eu conhecia poucos trabalhos, não conhecia toda a obra dele.

Só um pouco mais tarde que eu fui conhecer também o trabalho dele com a Yellow Magic Orchestra, que é o início da carreira dele. Justamente ele consegue falar sobre a canção, sobre aquela coisa formal, tradicional, mas ele consegue falar da desconstrução total disso.  Ele é uma grande referência que me fez me aproximar dessa vontade de criar musicalmente também.

Paulo Vinícius Coelho
Dora, um trabalho teu que eu gosto muito é a tua participação no Tributo à Gal Costa. Além da Gal, quais são suas outras referências como cantora?

Dora Morelenbaum
A Gal é a maior. Como cantora, é a maior. Mas eu penso muito na obra artística como um todo. A Nina Simone é incrível por ser uma cantora incrível e ser uma instrumentista incrível junto, sabe? Acho que isso também me brilha os olhos ainda mais, sabe?

Eu penso em Ella Fitzgerald, Billie Holiday, eu tenho muitas referências de jazz, de cantoras de jazz, e acho que talvez tenha refletido no meu trabalho de alguma forma, não na minha voz, porque eu não canto nem um pouco perto delas, mas no que eu gosto de produzir.

Vou até citar uma que eu não citaria normalmente, mas pensando nisso da obra como um tudo, tem a Alcione.

Ela é de São Luís, né?

Paulo Vinícius Coelho
É de São Luís

Dora Morelenbaum
Eu acho que esse é um caminho que me brilha muito os olhos. Ela ter começado instrumentista e aí depois… O que vem daí é muito rico, sempre.

Paulo Vinícius Coelho
Dora, o teu trabalho com o Bala Desejo tem um acesso importante no exterior. E aí eu quero saber como é que você lida com essa relação com o exterior e perguntar se você já teve alguma história inusitada em relação ao teu trabalho ou à música brasileira no exterior e ao modo como ela é recebida lá fora.

Dora Morelenbaum
Eu acho que o Bala teve muita abertura fora do Brasil também por conta talvez desse lugar múltiplo que existe dentro do Bala. Tem uma salsa, tem uma chula, tem um meio reggae, tem vários…o que chamam de world music, que é meio mala, mas é verdade.

Tem muitos caminhos e a gente acabou tocando em vários festivais que tem justamente essa mistura. Isso se deu muito também aos músicos que a gente chamou para tocar na banda do Bala, quando a gente compôs esses arranjos, a gente também fez junto muito em parceria com os músicos.

E eu acho que isso que fortaleceu esse caráter da música do mundo. E isso acabou tendo um apelo muito forte para o Bala ter essa visibilidade fora do Brasil também.

E o Bala abriu portas para nós quatro, em vários sentidos. Eu, com o PIQUE, eu estou surfando essa onda ainda. Espero continuar surfando. Existiu um mercado que se abriu de alguma forma, para a gente, aos pouquinhos. A gente plantou um monte de semente com Bala, a gente colheu algumas, e agora eu estou plantando outras também. Acho que também, pelo meu disco, ter essa vertente do jazz, isso também tem um apelo. Eles veem muito a música brasileira, mas eles veem muito jazz.

E principalmente, nos dois casos, por ter muito um olhar musical, que é uma língua universal. Então, em qualquer lugar do mundo, vão entender o que a gente está querendo dizer. A gente, viajando, nosso público não é majoritariamente brasileiro. É bem misturado, tem muitos brasileiros, mas tem muitas pessoas dos próprios lugares que, de repente, nunca viram um show de música brasileira, nunca entraram em contato com isso. Então, tem muito a ver com a linguagem musical mesmo.

Paulo Vinícius Coelho
Você ficou devendo a história inusitada.

Dora Morelenbaum
Ah é! Fiquei com receio [risos]. Quando eu toco num festival ou num teatro da cidade, as pessoas muitas vezes não sabem quem eu sou, não ouviram o meu trabalho e vão porque sabem que é a música brasileira.

E algumas pessoas vão com a expectativa de ouvir um show de bossa nova, alguma coisa que tem na cabeça que é música brasileira. Talvez pelo meu sobrenome, não sei. E já aconteceram situações das pessoas se decepcionarem por eu levantar…

Eu não vou conseguir contar a história inteira porque me envolve outras pessoas. Mas, por eu levantar alguma bandeira… Foi em Portugal, e a gente estava falando sobre o genocídio indígena no Brasil. E pessoas conservadoras que não tinham ideia do que iam ver.

Tem uma música que eu cantava no meu show, que era em nheengatu. Uma música do povo Baniwa. E muitas pessoas em Portugal não têm ideia do que aconteceu. Não foram ensinadas, não procuraram saber.

E não se responsabilizam e não querem nem saber. Então, às vezes rola esse tipo de frustração. As pessoas vaiaram ver o show por conta de… desse contraste, de se deparar com uma coisa que era diferente do que estavam esperando.

Paulo Vinícius Coelho
A próxima pergunta, Dora, é um clássico. A gente quer saber dos planos para o futuro. Aproveitar para perguntar se São Luís está nessa rota. Quando é que você vem para cá? Como é que a gente te traz?

Dora Morelenbaum
Me ajudem. Me ajudem a ir para aí. Eu quero muito. Nesse momento, o ano ainda não começou oficialmente. Ainda está difícil. Até o carnaval está difícil engatar, mas a gente está querendo muito fechar uma agenda pelo Brasil para poder fazer o lançamento, levar com banda.

Infelizmente, é muito difícil viajar com banda para qualquer lugar. Os shows que a gente conseguiu fazer até agora foram Rio e São Paulo, com a banda completa. Eu moro no Rio, e São Paulo é perto. A gente consegue ir de ônibus.

Mas tem muitas situações que a gente conseguiu, pelo menos com o Bala, levar a banda, que são os festivais e projetos do governo, além de alguns editais. A gente tenta isso, que acho que é a forma mais real de fazer a gente circular. Mas a gente vai tentar de um jeito ou de outro.

Quero ir. Quero muito conhecer São Luís, que eu nunca fui. Ainda não tem coisas fechadas, mas em breve eu vou divulgar mais uma agendinha de lançamento.

Juliano Amorim
A minha pergunta derradeira para a Dora é se tem algum disco no momento que está fazendo a sua cabeça.

Dora Morelenbaum
Eu tenho ouvido pouco. Eu tenho ouvido muito Stevie Wonder. Tem um álbum de Stevie Wonder que eu tenho ouvido muito, o In Square Circle,  é um álbum que eu redescobri e estou amando ouvir.

Só para citar um outro mais recente, um outro álbum que eu tenho ouvido muito. É o Rela do Negro Leo. Eu sou muito fã.

Ele já está com outro álbum quase pronto para lançar também. Ele não para. É um gênio. Uma das pessoas que eu mais sou fã atualmente no Brasil. Eu fui no show do último disco também e pirei.

Paulo Vinícius Coelho
A gente sempre termina as entrevistas, Dora, com uma provocação. A gente pede uma indicação e uma contraindicação para o entrevistado. Pode ser qualquer coisa. Um objeto, uma música, um livro, um filme, um sentimento, um hábito, enfim.

Dora Morelenbaum
Minha indicação vai ser justamente o Rela.
E minha contraindicação é o capitalismo.


Roteiro por Juliano Amorim e Paulo Vinícius Coelho

Entrevista por Leonardo Alves, Paulo Vinícius Coelho e Juliano Amorim

Produção, transcrição e revisão por Paulo Vinicius Coelho

Edição e divulgação nas redes sociais por Gabriel Jansen

 

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