George Harrison: a mágica canção misteriosa


George, o esotérico, franzino e belo. A marca de seu estilo é a canção sinuosa e álgida; um passo em densa floresta.


© Barry Feinstein Photography, Inc.

Dedico menos espaço do que gostaria, no blog, a falar de Beatles. Em partes, por me parecer um tanto previsível reforçar a explícita estima que mantenho pelo grupo, e também por desejar que outras paixões que cultivo mereçam a atenção de minha prosa. Logo cedo, porém, a lembrança de George Harrison e seu All Things Must Pass me pareceu forte demais. O fato de ser fevereiro, mês de aniversário do youngest Beatle – nem tão youngest assim, já que faria 82 anos, no dia 25, caso vivo fosse – me deixou mais à vontade para saudá-lo.

George, o esotérico, franzino e belo. A marca de seu estilo é a canção sinuosa e álgida; um passo em densa floresta. Há cinema nas imagens que saltam de suas harmonias lancinantes, constatável em canções como Blue Jay Way e Long Long Long

Paul McCartney nos dá a impressão de que pode tocar tudo e compor em qualquer estilo. Lennon me parece o menos versátil, embora não haja paralelos entre o poder de síntese de suas canções e as de seus pares. Harrison vai além, com as texturas sobrepostas do seu som e o refino do seu texto – o melhor texto do grupo.

Sua elegância pessoal também era um distintivo. Enquanto Lennon e McCartney dividiam os microfones e balançavam as cabeleiras, no front, para uma plateia siderada, e mesmo Richard Starkey – o Ringo -, em seu púlpito, deliciava a toda audiência com a fluidez no manejo de seu instrumento, a bateria, George era o centro de gravidade. De physique du rôle teso e sóbrio, um tanto distante dos demais, mantendo os bilros de seu conjunto rolando, a toda energia.

Esta é a função nobre de George, inclusive, pouco ou quase nada mencionada quando o assunto é compreender a sua importância para os Beatles. No fim dos anos 1950, quando McCartney – seu melhor amigo de adolescência – tentou convencer John Lennon, o líder dos Quarrymen, da importância de um novo integrante – o jovem Harrison -, este só o fez após percebê-lo versátil no domínio da guitarra, como nenhum outro outro filiado ao grupo seria capaz de sê-lo, nem jamais fora, quando os Quarrymen tornaram-se os Fab Four, anos depois.

George Harrison era exímio na competência do seu instrumento. Com toque pessoal e plurivalência em domínios de estilo. Um aficionado pela grande canção americana, ciente do que há de éter no blues, no rockabilly, no twist e, anos mais tarde, na sítar hindu. É o elã de sua técnica o lastro de singularidade beatle; a unidade sintética para a qual convergiram os interesses artísticos e estilísticos do quarteto.

A banda que se deixou interessar, em 10 anos de atividade, pelo hit parade dos EUA e, mais especialmente, pela sinfonia pop negra da Motown, transfigurou a todos os signos. Incorporou as vanguardas, em técnica e produção; retroagiu às tradições líricas da música clássica europeia; pensou o futuro dos gêneros com ousadas intervenções instrumentais. Em cada uma destas inserções, a sonoridade impressa, radicalmente nova, veio com uma carga de energia filtrada pela fluência musical, sempre atenta, de Harrison.

Considero-o a verdadeira aura. Lennon é Lennon; McCartney é McCartney, forças catalisadoras, com unidades estritamente demarcadas. A diluição de ambos, em espessura coletiva, passa por George, o remanso. A título de comparação, evoco as três últimas canções registradas no catálogo do conjunto: Free as a Bird, Real Love e Now and Then.

As duas primeiras, gravadas respectivamente no meio dos anos 1990, para o projeto Anthology, foram registradas a partir das gravações caseiras de John Lennon, já morto. Com a participação de Harrison, a fruição de ideias e a própria identificação das faixas como Beatles soa genuína. 

Now and Then, desta vez produzida sem George – apenas com takes registrados por ele ao violão -, perde o viço. Embora seu estilo de tocar – o slide guitar – seja emulado por Paul na faixa, algo não fecha. É uma bela homenagem, fragilizada, desta vez, não pela ausência de John, cuja voz restaurada por IA é de todo esmero, mas pelo absentismo de George Harrison, um mero espectro sem jus à sua real estatura como compositor.

Me fascinam, na mesma medida, os predicados artísticos e a personalidade reservada e imprevisível – com tiradas de humor espertas, quando não desconcertantes, nas situações mais insólitas – do músico, o anti-rockstar por excelência. O mito transfigurado e nu. Quando não, uma autoparódia, como ele mesmo explicitou no videoclipe da canção natalina Ding Dong.

Suas críticas ao show business eram enervadas por um senso de renúncia – próprio de sua personalidade – em uma postura crítica e visceral à desvirtuação da arte e seus propósitos. Não por acaso, George liderou o movimento de saída dos Beatles dos palcos e das grandes turnês, para que fossem favorecidas as composições e o mais alto nível das ambições estéticas dos quatro artistas.

Não se pode pensar os Beatles fora do alcance da grandeza de George Harrison. É empobrecer a discussão imaginá-lo um compositor vigoroso só nos últimos suspiros da banda, em canções como Something e Here Comes the Sun. Suas músicas sempre tiveram assinatura páreo para a dupla Lennon-McCartney. 

A carreira solo de George deixa isso ainda mais claro. Os discos lançados por ele nos anos 1970 estão prenhes do melhor soft rock. A ausência de hit singles, inclusive, é aspecto sedutor a mais. Há uma excitação deleitosa, ao ouvi-los e apreciá-los, diante da possibilidade de esbarrar, quem sabe, em uma pérola perdida. Um deep cut. Na obra de Harrison há várias assim. All Things Must Pass é um capítulo à parte. Idílico, da primeira à última faixa. O coração dos Beatles apartado da matéria que o consumia. 

Não mantenho preferências definidas por beatle nenhum. Isto pode variar a cada semana, em uma lógica muito particular de critérios. Hoje, não pude deixar de pensar em George. Em seu talento, suas ponderações, na serenidade do seu cenho, enfim. Toda a discrição que o cercou em sua trajetória pública.

O quiet beatle gostava do silêncio.

Eu também.

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