
Por ocasião do aniversário de 87 anos de Martinho da Vila, comemorado no dia 12 de fevereiro, me recordei do exuberante álbum Canta, Canta, Minha Gente, certamente o disco mais emblemático da carreira do compositor carioca. Pensei, então, em outros álbuns marcantes de samba que não se tornaram tão populares assim, ainda que guardem enorme qualidade ou importância histórica. A ideia se concretizou em uma lista intitulada “alguns discos antológicos de samba’’. Naturalmente, a seleção é feita a partir de preferências e experiências muito pessoais. A relação serve, também, para ensaiar dois formatos de texto que muito me agradam e que eu tenho tentado emplacar na Sociedade do Copo: a lista e a resenha.
Canta, Canta, Minha Gente – Martinho da Vila

Em entrevista ao jornalista Lucas Borges Teixeira, da Monkeybuzz, Martinho da Vila revelou detalhes sobre a produção de Canta, Canta, Minha Gente. A gravadora RCA Victor, controlada pela Sony Music e responsável por praticamente todos os lançamentos de Nelson Gonçalves, Luiz Gonzaga e outros artistas consagrados, demonstrou certa resistência ao álbum, classificando-o como “rebuscado”. Um dos grandes entusiastas do projeto foi o ilustrador Elifas Andreato, responsável pela concepção da icônica capa.
Antes de 1974, ano de lançamento do Canta, Canta, Minha Gente, Martinho já havia gravado cinco álbuns pela RCA: Martinho da Vila (1969), Meu Laiá-raiá (1970), Memórias de um Sargento de Milícias (1971), Batuque na Cozinha (1972) e Origens (1973).
O álbum de 1974 marcou a estreia de uma série de clássicos na trajetória do compositor carioca, incluindo a faixa-título, que também abre o disco, além de Disritmia, Dente por Dente e Festa da Umbanda. Sobre a última música, vale lembrar que Martinho da Vila é ogã. Ou seja, homem autorizado pelos orixás a tocar os tambores nas celebrações do candomblé e da umbanda.
Outro episódio marcante do disco envolve o samba Tribo dos Carajás (Aruanã Açu), originalmente composto para ser o tema do desfile da Vila Isabel. No entanto, a música não venceu a disputa interna da escola, o que causou estranhamento entre os integrantes. Posteriormente, se descobriu que a faixa havia sido censurada pela ditadura. Ainda assim, o samba entrou para o repertório de Canta, Canta, Minha Gente.
O álbum também se destaca pelas homenagens a grandes compositores da música brasileira. Malandrinha é uma letra de Freire Júnior, lançada em 1927 por Francisco Alves; Visgo de Jaca é assinada por Rildo Hora e Sérgio Cabral – este último falecido no ano passado; e Patrão, Prenda Seu Gado é de autoria de Pixinguinha, Donga e João da Baiana. Martinho reverencia esses mestres ao final da faixa, chamando-os de “a santíssima trindade da música popular brasileira”.
Faixas:
- Canta, Canta Minha Gente ( Martinho da Vila )
- Disritmia ( Martinho da Vila )
- Dente Por Dente ( Martinho da Vila )
- Tribo dos Carajás (Aruanã Açu) ( Martinho da Vila )
- Malandrinha ( Freire Júnior )
- Renascer das Cinzas ( Martinho da Vila )
- Patrão, Prenda Seu Gado ( Pixinguinha / Donga / João da Bahiana )
- Nego Vem Cantar ( Martinho da Vila )
- Calango Vascaíno ( Martinho da Vila )
- Visgo de Jaca ( Rildo Hora / Sérgio Cabral )
- Viajando ( Martinho da Vila )
- Festa de Umbanda (Martinho da Vila )
Um trecho deste álbum:
Disritmia: Eu quero ser exorcizado/ Pela água benta desse olhar infindo/ Que bom é ser fotografado/ Mas pelas retinas desses olhos lindos
Uma versão para conhecer:
Parceria- João Nogueira e Paulo César Pinheiro

Gravado pela Velas com produção de Eduardo Gudin (!), o álbum celebra os 22 anos de parceria entre dois dos maiores compositores da música brasileira: João Nogueira e Paulo César Pinheiro. A banda estelar é formada por Cristóvão Bastos (arranjos e piano), Maurício Carrilho (violão), Paulinho Trompete, Désio Viana (bateria), Jorge Simas (cavaquinho) e José Santos Rosa (contrabaixo). O álbum foi gravado em estúdio, mas com a participação do público. São 17 clássicos cantados pelos dois bambas.
Sobre essa parceria, vale a pena mencionar um causo, relatado por Paulo César Pinheiro no livro História das Minhas Canções (Leya, 2011) e reproduzido pelo site Receita de Samba:
“Na época, a Odeon possuía uma infraestrutura invejável, coisa de primeiro mundo, e que foi inaugurada com pompas e circunstâncias pelo príncipe Charles, que veio da Inglaterra especialmente para a ocasião.
Um dos diretores, um polonês bastante antipático, implicou com um maestro que deixou cair no chão a cinza do cigarro. Quando o diretor já ia ensaiando um sermão:
– ‘Você faz isso na sua casa?’
O maestro, já sem paciência, respondeu prontamente:
– ‘Claro que não… Lá em casa tem um monte de cinzeiros espalhados por todo o canto. Isso aqui não é o palácio da rainha. A gente tá no Brasil e eu estou trabalhando, me dá licença.’
E, enquanto o diretor se desconcertava, Paulo César Pinheiro assistia a tudo e começou a pensar que todo aquele luxo com que o diretor se preocupava iria acabar um dia, os nomes dos figurões e do príncipe inglês na placa pendurada na parede um dia se apagariam.
O que restaria mesmo, para sempre, seriam as músicas que ali estavam sendo gravadas, que aquela discussão era uma bobagem.
E com essa ideia na cabeça, Paulo César Pinheiro começou a esboçar um de seus mais belos sambas, que recebeu o nome de Súplica:
O corpo a morte leva
A voz some na brisa
A dor sobe pras trevas
O nome a obra imortaliza
A morte benze o espírito
A brisa traz a música
Que na vida é sempre a luz mais forte
Ilumina a gente além da morte”
Faixas:
- Espelho ( João Nogueira / Paulo César Pinheiro )
- Eu Hein, Rosa! ( João Nogueira / Paulo César Pinheiro )
- E Lá Vou Eu (Mensageiro) ( João Nogueira / Paulo César Pinheiro )
- Bafo de Boca ( João Nogueira / Paulo César Pinheiro )
- Bares da Cidade ( João Nogueira / Paulo César Pinheiro )
- As Forças da Natureza ( João Nogueira / Paulo César Pinheiro )
- Batendo A Porta ( João Nogueira / Paulo César Pinheiro )
- Chorando Pela Natureza ( João Nogueira / Paulo César Pinheiro )
- Banho de Manjericão ( João Nogueira / Paulo César Pinheiro )
- Súplica ( João Nogueira / Paulo César Pinheiro )
- Poder da Criação ( João Nogueira / Paulo César Pinheiro )
- Minha Missão ( João Nogueira / Paulo César Pinheiro )
- Um Ser de Luz ( João Nogueira / Mauro Duarte / Paulo César Pinheiro )
- Chico Preto ( João Nogueira / Paulo César Pinheiro )
- Rio Samba Amor e Tradição (Tradição – Samba-enredo 1989) ( João Nogueira / Paulo César Pinheiro )
- Primeira Mão ( João Nogueira / Paulo César Pinheiro )
- Além do Espelho ( João Nogueira / Paulo César Pinheiro )
Um trecho deste álbum:
Além do Espelho: Sempre que um filho meu me dá um beijo/ Sei que o amor de meu pai não se perdeu/ Só de olhar seu olhar sei seu desejo/ Assim como meu pai sabia o meu/ Mas meu pai foi-se embora no cortejo/ E no espelho eu chorei porque doeu/ Só que vendo meu filho agora eu vejo/ Ele é o espelho do espelho que sou eu
Uma versão para conhecer:
Pirajá Esquina Carioca – Uma Noite com a Raiz do Samba

Como diria o mestre Leonildo: só tem cobra nesse álbum. O disco foi feito a partir do registro de um show realizado em 1999, no Tom Brasil (hoje Tokio Marine Hall). A produção é de Elifas Andreato e Moacyr Luz e o lançamento foi feito pela Dabliú, gravadora que produziu alguns outros álbuns do Moa.
No elenco: João Nogueira, Beth Carvalho, Walter Afaiate, Luiz Carlos da Vila e Moacyr Luz na voz. Entre os músicos: Moacyr Luz (violão), Carlinhos 7 Cordas, Pedro Amorim (bandolim, cavaquinho), Beto Cazes (percussão), Marcelo Moreira (percussão), Gordinho (surdo) e Dorina e Teresa Cristina (vocal)
Em 2004, o projeto teve continuidade com a gravação de Pirajá – Esquina Carioca – A Cozinha do Samba, lançado somente em 2013, pela mesma Dabliú Discos. Neste álbum, Martinho da Vila, Aldir Blanc, Monarco, Tia Surica e Moacyr Luz dividem os vocais. Destaque para as atuações de Aldir cantando Siri Recheado e o Cacete, O Mestre-Sala dos Mares e O Bêbado e a Equilibrista.
Voltemos ao primeiro Pirajá para a relação das faixas:
- Patrão, Prenda Seu Gado (Pixinguinha/ Donga/ João da Bahiana)
- Jogo Rasteiro (Nei Lopes/ Moacyr Luz)
- Pra Que Pedir Perdão? (Aldir Blanc/ Moacyr Luz)
- Olha Aí (Micau/ Miúdo)
- A-m-o-r Amor (Mauro Duarte/ Walter Alfaiate)
- Além Da Razão (Luiz Carlos da Vila/ Sombrinha/ Sombra)
- Doce Refúgio(Luiz Carlos da Vila)
- Minha Missão (Paulo César Pinheiro/ João Nogueira)
- Espelho (Paulo César Pinheiro/ João Nogueira)
- Axé De Ianga (Pai Maior) (Ivone Lara)
- Candeeiro Da Vovó (Délcio Carvalho/ Ivone Lara)
- Exaltação À Mangueira (Enéas Brites da Silva/ Aloísio Augusto da Costa)
- Folhas Secas (Nelson Cavaquinho/ Guilherme de Brito)
- Geografia Popular (Arlindo Cruz/ Marquinhos de Oswaldo Cruz/ Edinho Oliveira)
- Sacode Carola (Hélio Nascimento/ Alfredo Marques)
- Sem Endereço (Rossini Pinto)
- O Poder Da Criação (Paulo César Pinheiro/ João Nogueira)
- Acreditar (Délcio Carvalho/ Ivone Lara)
- Não Sou Mais Disso (Zeca Pagodinho/ Jorge Aragão)
- Saudades Da Guanabara (Aldir Blanc/ Paulo César Pinheiro/ Moacyr Luz)
Um trecho deste álbum:
Além da Razão, do Luiz Carlos Vila. Toda a música.
Uma versão para conhecer:
Prato e Faca – Cristina Buarque

Não me arrisco a procurar adjetivos para descrever este álbum de Cristina. No texto da contracapa do LP Prato e Faca, lançado em 1976 pela gravadora RCA, Fernando Faro descreveu de forma poética o significado do título do segundo álbum da cantora. O jornalista e produtor destacou a presença constante desses dois objetos no universo do samba desde o século XIX, especialmente nas rodas realizadas no Recôncavo Baiano.
Faro ressaltou a força simbólica do nome, associando-o à cozinha, à fome, ao ato de se alimentar, cantar, dançar e tocar. Para ele, Prato e Faca era a escolha perfeita, pois representava essa fusão entre a música e a vida cotidiana: “Ele arredonda o mundo. Ele aproxima as coisas da sua realidade. Assim, não pode ter mesmo outro nome este LP que não Prato e Faca”.
O time de compositores, formado majoritariamente por portelenses, é primoroso. Cito, para ilustrar, o mestre Manacéa (Sempre Teu amor), Bubú da Portela e Jamelão (Esta Melodia), Dona Ivone Lara (Dei-te Liberdade) e Paulinho da Viola (Abre os Teus Olhos).
Não menos distinto é o elenco de músicos, composto por Dino no sete cordas, Xixa no cavaquinho, Felpudo no trombone, Abel Ferreira no clarinete e sax baixo, José Briamonte no piano e arranjos, Paulinho da Viola no cavaquinho em Abra os Seus Olhos e Luna, Marçal, Eliseu, Jorginho e Milton Banana no ritmo e percussão.
Faixas:
- Sempre Teu Amor ( Manacéa )
- Dei-te Liberdade ( Dona Ivone Lara )
- Chega de Padecer ( Mijinha )
- Amar É Um Prazer ( Antônio Almeida / Zé da Zilda )
- Resignação ( Geraldo Pereira / Arnô Provenzano )
- Carro de Boi ( Manacéa ) com participação nos vocais de Manacéa e Monarco
- Abra Seus Olhos ( Paulinho da Viola )
- Sorrir ( Alcebíades Barcelos (Bide) / Armando Marçal (Marçal) )
- Sou Eu Que Dou As Ordens ( Heitor dos Prazeres )
- Não Pode Ser Verdade ( Alberto Lonato )
- Tua Beleza ( Waldemar Silva / Raul Marques )
- Esta Melodia ( Bubú da Portela / Jamelão)
Um trecho deste álbum:
Esta Melodia. Quando vem rompendo o dia/ Eu me levanto, começo logo a cantar/ Esta doce melodia que me faz lembrar/ Daquelas lindas noites de luar/ Eu tinha um alguém sempre a me esperar/ Desde o dia em que ela foi embora/ Eu guardo esta canção na memória
Uma versão para conhecer:
Eduardo Gudin e Vânia Bastos (1989)

Merece figurar nas cabeças de qualquer lista que se faça sobre os melhores álbuns da música brasileira. Foi lançado em vinil pela Eldorado e reeditado em CD no Japão em 1990. Há finesse em tudo neste álbum: nos arranjos, no violão e nas composições de Gudin, nas interpretações de Vânia, na produção que também conta com Fernando Faro, além de Luiz Carlos da Vila e o próprio Gudin.
Gudin assina todas as composições do álbum, algumas em parceria, principalmente com Costa Neto, que também trabalhou muito com Roberto Menescal. Arrigo Barnabé e Roberto Riberti também cooperam em algumas letras.
Faixas:
- Mensagem ( Eduardo Gudin / Costa Neto )
- Conjunto de Baile ( Eduardo Gudin / Paulo César Pinheiro )
- Estrela ( Élton Medeiros / Eduardo Gudin / Roberto Riberti )
- Confesso ( Eduardo Gudin / Paulo César Pinheiro )
- Verde ( Eduardo Gudin / Costa Neto )
- Paulista ( Eduardo Gudin /Costa Neto )
- Lenda ( Eduardo Gudin / Arrigo Barnabé / Hermelino Neder / Roberto Riberti )
- Cidade Oculta ( Arrigo Barnabé / Eduardo Gudin / Roberto Riberti )
- Bem-bom ( Eduardo Gudin / Arrigo Barnabé / Carlos Rennó )
- Balãozinho ( Eduardo Gudin )
Um trecho deste álbum:
Paulista. Você sabe quantas noites/ Eu te procurei/ Nessas ruas onde andei?/ Conta onde passeia hoje/ Esse seu olhar/ Quantas fronteiras/ Ele já cruzou/ No mundo inteiro/ De uma só cidade
Uma versão para conhecer:





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