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Entrevista com Nenel (Baixa Gastronomia): “a comida é um grande fator, mas o botequim extrapola isso”


Nenel é jornalista, fundador do Baixa Gastronomia e pioneiro em matéria de conteúdo sobre boêmia para a itnernet. Confira mais uma entrevista do quadro Enchendo o Copo.


Foto: Maurício Vieira

São muitos os fatores e as inspirações que confluíram para o surgimento desta Sociedade do Copo. Entre os personagens sempre mencionados como referência destaca-se o jornalista Daniel Costa, 42, conhecido como Nenel. Pioneiro em matéria de conteúdo relacionado a boêmia na internet, o mineiro é fundador do Baixa Gastronomia, blog que posteriormente se desdobrou em diversos canais de comunicação. Os assuntos é que não mudam: a pauta é sempre o botequim e o rango- de preferência aquela que se contrapõe ao que os jornalões classificam como “alta gastronomia”.

Durante 40 minutos, conversamos com o mineiro, torcedor do Galo, filho de jornalista esportivo e, pasmem, baterista. Leia abaixo a entrevista, de preferência com a companhia de um copo de cerveja.

Torresmo do Bar do Antônio. Foto: reprodução.

Paulo Vinicius Coelho
Nenel, do começo: como surgiu o Baixa Gastronomia?

Nenel
Começou com o blog, em 2009, dedicado a abordar a boêmia e a culinária distinta do que a imprensa classificou como “alta gastronomia”.

Paulo Vinicius Coelho
E as inspirações, quais foram?

Nenel
Uma inspiração é o Anthony Bourdain, apesar dele não ser jornalista. Acho que é um herói pra todo mundo. Eu adorava os programas dele, eu via aquilo, mas eu não fiz por causa dele, né? Mas de qualquer jeito sempre foi uma inspiração pra mim, sabe? A forma de ver o mundo, respeitar a cultura, ser um cara sem preconceitos, né?

Paulo Vinicius Coelho
Legal. Eu ia te perguntar do momento do Baixa Gastronomia também porque a gente tá vendo uma ascensão de conteúdo relacionado a botequim e a gastronomia. Como você vê essa ascensão?

Nenel
Eu acho que tem muita gente legal, igual o Preá, que você usou de exemplo [antes da entrevista]. Tem pessoas que eu adoro, uma galera muito legal, mas, como tudo na vida, tem muito oportunista também.


Tem gente no Brasil inteiro tendo essa visão, essa coisa de registrar, de homenagear. E eu acho que quanto mais gente séria tivermos fazendo isso, melhor. Em todas as cidades, todas as capitais aí, eu acho muito legal.


Tem uma galera muito legal surgindo e tem uns picaretas de sempre. Mas eu acho que no final das contas é legal ver quem leva a sério fazendo, e não quem só quer like.

Paulo Vinicius Coelho
Queria te fazer uma pergunta que tá de certo modo relacionada com o documentário que você fez dos mercados de Belo Horizonte [Mercearias de Beagá]. Muita acha acha que os botequins estão acabando, estão sendo ameaçados pelo capital, pela dinâmica das cidades…como você vê isso? Há resistência?

Nenel
Acho que os botequins estão acabando. Tem como resistir? Eu acho que tem muita gente legal surgindo pra defender.

Tem muita gente criando “botecos PROJAC”, como se fosse um cenário. Eu fico triste porque vejo muito botequim legal acabando, coisa que daqui 10 anos não vai ter mais porque os donos estão cansados, já são mais velhos. Eu tenho uma visão pessimista, sabe?

Acho que a gente tem que aproveitar enquanto a gente tem muita coisa autêntica. É claro que demora um tempo pra alcançar essa autenticidade. Mas já tem gente nova que consegue. Você vê a verdade. Mas também tem muita gente que é essa história do cenário.

Paulo Vinicius Coelho
E por que o botequim é importante para uma cidade?

Nenel
É um lugar de troca, lugar de reflexão. O botequim traz mais segurança. Eu às vezes tô a pé, na rua, à noite, e procuro passar no botequim, porque tem luminosidade, tem movimento. Tem também a coisa do comércio, da importância pro bairro, além da cultura, é claro. Eu sou um fanático por botequim. Claro que não dá pra ter somente uma visão romântica; claro que o botequim tem problemas relacionados a alcool e alcoolismo, mas eu acho que o saldo é muito mais positivo do que negativo. Acho que o botequim é democrático. É o lugar pro cara solitário e também pro cara que gosta de conversar. É um local onde ninguém julga a vestimenta de ninguém – tem cara de chinelo, cara de terno.

Uma cidade como Belo Horizonte tem entre quatro e cinco mil bares registrados. Isso só falando de quem tem CNPJ; fora os caras que tem uma portinha e tal. Imagina quantos empregos isso gera e quantas famílias são sustentadas por isso. Então também tem essa importância econômica.

Paulo Vinicius Coelho
Você usou uma palavra que está relacionada ao botequim: a solidão. Muita gente se sente confortável bebendo sozinho no botequim. Você é desse tipo ou prefere beber com companhia?

Nenel
Adoro os dois. Eu gosto muito de beber sozinho. Gosto muito de ir para o boteco sozinho, mas também gosto de ir com minha esposa, minha mulher, com amigos e tal. Acho que tudo é questão de momento, sabe? Mas vejo uma grande beleza nessa coisa de estar sozinho.

Paulo Vinicius Coelho
E a música, Nenel? Eu confesso que não sabia que você era músico. Quero te perguntar se você gosta de ouvir música no botequim e aproveitar para saber como anda a carreira musical.

Nenel
Não gosto de ouvir música no botequim. E eu sou baterista, né? Toquei 25 anos aí na noite. E por isso também essa coisa da boemia, de sair do show e tomar uma com a galera, achar algum lugar. Mas, no momento, eu estou meio parado. Eu percebi que eu já não estava tendo tanto prazer.

Eu sempre gostei muito de tocar. Eu era mais um artista do que um músico, no seguinte sentido: eu nunca gostei muito de ficar em estúdio, gravando, ensaiando. Sempre gostei de tocar pra muita gente. Quanto mais gente, melhor. Me sentia melhor. Sempre gostei também da performance no palco. Mas, hoje em dia, eu estou parado. E não gosto de música em boteco. Com todo respeito. Eu sei que tem músicos que vivem disso. Eu tenho o maior respeito. Mas boteco que tem música ao vivo não é muito a minha, sabe?


Boteco silencioso é o que eu mais gosto. Boteco sem televisão. Boteco sem som. Eu vejo o botequim até como uma forma de fugir dessa quantidade de telas que a gente acessa, porque em casa casa a gente acaba pegando o celular, aí vai, entra, vê um filme, vê uma série, vê não sei o quê, aí entra no WhatsApp

Paulo Vinicius Coelho
E o que você gosta de ouvir, Nenel?

Nenel
Eu sempre fui um cara do rock. Belo Horizonte tem uma tradição de uma galera que gosta de rock. Não à toa saiu daqui a banda brasileira mais famosa do mundo, que é o Sepultura. Mas eu também gosto de samba, gosto de ir ao samba.

Não é uma coisa que eu escuto tanto em casa, mas eu adoro ir num samba, assim, sabe? Aí é uma outra pegada, né? Você vai num samba, toma uma e tal. Gosto, mas a minha formação é está relacionada ao rock.

Paulo Vinicius Coelho
Há alguns dias nós entrevistamos o Luiz Antônio Simas e ele contou uma história muito legal do Monarco da Portela. O Monarco dizia que o turno ideal para beber era o dia; a noite era do amador. Você concorda? Prefere beber pela manhã?

Nenel
Eu tenho preferido beber pela manhã. Eu acho que é uma coisa que vem com a idade. Eu já tenho 42 anos. Quando eu era mais novo eu era da turma que bebia a noite, com a galera. Ainda vou, mas eu tenho gostado muito dessa ideia de sentar no botequim ao meio dia.

Acho que é gostoso beber de dia. Traz uma sensação boa. E é verdade: só dá profí [abreviando profissional]. Eu também não tenho saído muito pra boteco no final de semana. Aí, parafraseando o Monarco, dá pra dizer que o final de semana é meio amador, né? Eu prefiro beber durante a semana, frequentar o botequim de segunda a quinta.

E a segunda é o dia do boêmio profissional, né? [referência ao quadro no instagram do Baixa Gastronomia]. A segunda é um dia muito bom, porque os bares não estão lotados. Não tem o frenesi do final de semana. Até o trânsito fica melhor, não tem aquela coisa de ficar procurando vaga. É uma coisa mais tranquila.

Paulo Vinicius Coelho
Olha, eu não vou te perguntar se você tem um bar preferido em Belo Horizonte porque eu sei que você tem uma relação muito íntima com a cidade. Então, eu vou te perguntar se você tem algum bar preferido fora de Minas. Ou alguns bares preferidos fora de Minas.

Nenel
Pegar aqui perto da gente, porque a gente acaba indo mais pra Rio e São Paulo por uma questão de logística, né? Eu tô até com a camisa do Bar do Momo aqui do Rio, na Tijuca. É sensacional.

São Paulo também tem bons botequins.  Ali o Luiz Nozoie, o Luiz Fernandes, o Kintaro, que é um boteco japonês, né? Aquele pequenininho, vende umas friturinhas. Tem muita coisa legal, assim.


Juiz de Fora é uma cidade muito legal também, aqui em Minas, pertinho do Rio. Tem uma tradição botequeira que é uma mistura de BH com Rio. Mas eu não tenho um favorito não. Eu gosto de tudo. E eu acho que o botequim extrapola a questão da comida. É óbvio que a gente procura isso, mas tem um monte de botequim legal que a comida nem é o forte, mas o ambiente, a cerveja gelada, as pessoas…


A comida é um grande fator. Mas não é só, né? Não é como o restaurante que você vai só pela comida.

Paulo Vinicius Coelho
E você costuma ir mais pra comer ou pra beber?

Nenel
Eu sempre fui muito comilão, muito glutão, assim, sabe? Minha mãe sempre cozinhou muito bem. Sempre comi muito. Ultimamente eu envelheci e tenho comido menos, por incrível que pareça. Então hoje eu estou preferindo beber do que comer. Eu gosto muito daquele belisquinho mais leve. Mas é muito bom quando você vai no boteco e ele é lindo, tem alma, tem aura e ainda tem uma comida excelente. Aí é o paraíso na terra.


Mas é muito bom quando você vai num boteco. Ele é lindo, tem alma, tem aura. E ainda tem uma comida excelente, né? Muito legal isso, assim. Eu acho que aí é o paraíso na Terra.

Paulo Vinicius Coelho
E os planos para o Baixa Gastronomia?

Nenel
Tem um plano que eu tenho desde 2020 e foi ficando por conta da pandemia. Eu sou não um cara de filmar e editar. Filmo no meu telefone e pá! Nem edito. Mas eu tenho muita vontade de estar mais no Youtube. Eu fiz uma série lá em 2016 na raça, com um amigo meu que é músico e nem mexe com isso, mas gosta de brincar com a câmera e tal. Então a gente fez de graça; nem ganhamos nada, mas foi muito legal. Mas pra esse ano eu quero estar mais no Youtube.

Juliano Amorim
Você é exclusivamente baterista ou toca algum outro instrumento?

Nenel
Só bateria.

Juliano Amorim
Você conseguiria mencionar três bateristas importantes para a sua formação?

Nenel
Eu gosto muito de batera que toca pra música, mais do que a intensidade. Acho que Ringo Starr, cara. Ringo Starr, Beatles. É um cara que todo baterista adora ele. Porque ele nem é o cara mais técnico, mas ele é extremamente criativo. E eu acho que isso tem muito a ver com cozinha. O Ringo tem a genialidade. Saber a hora de entrar, a hora de tocar. O João Barone dos Paralamas eu adoro também. Tem o Charles Gavin, que era dos Titãs. Tem muita gente.


Eu nem tinha pensado nisso. É uma coisa meio cozinha mesmo. Você nem precisa ser o mais técnico, mas se você souber o jeito certo de fazer aquilo. A hora certa. Acaba dando certo. É igual cozinheiro de bar. Ele não tem formação. É intuição. Tem cozinheiros que conseguem fazer coisas incríveis.

Juliano Amorim
Você viu aquele documentário sobre os Beatles que saiu na Disney?

Nenel
Eu não vi. Eu estava conversando com um amigo no churrasco. Ele estava falando desse documentário e eu não vi.

Juliano Amorim
Pois é. Porque a sua fala vai justamente de encontro a isso. Quando a gente olha as filmagens do Ringo e as músicas sendo feitas ali para o álbum, O Ringo é muito aquele cara que pega a música no ar. Se o Paul McCartney, o John Lennon, o George Harrison precisam de uma levada, ele já achou no ar. E tocar na noite faz com que você faça coisas muito diferentes, né? Escolas de bateria muito diferentes.

Nenel
Exato. E tocar na noite deixa a gente mais malandro, no bom sentido.


Você saber lidar com pessoas diferentes, Com o cara que está bêbado ali, sabe? A noite é bem interessante. Você tem que saber sobreviver a ela. Mas se você conseguir, você tira boas lições.

Juliano Amorim
A noite é uma grande lição de jogo de pintura.

Nenel
Exatamente. Perfeito.

Juliano Amorim
Você deixaria Uma recomendação de um disco que tenha feito a sua cabeça? Não necessariamente pelo lado da bateria. Mas um que você gosta mesmo e acha que seria legal que as pessoas descobrissem ou recordassem.

Nenel
Já que a gente está falando de Beatles, o White Album duplo é sensacional. Tem Helter Skelter, que é considerado o primeiro heavy metal. Depois vem o Black Sabbath, mas aquela porrada de Helter Skelter…é massa.

Juliano Amorim
E futebol, gosta?

Nenel
Adoro. Já gostei mais. Meu pai é jornalista esportivo. Aposentado hoje. Quando eu entrei na faculdade, eu achei que ia ser jornalista esportivo. Eu via todo jogo quando era adolescente, todo jogo passando na TV. Hoje eu não tenho tanto isso. Gosto muito do futebol clássico, daquela coisa romântica do futebol.

Juliano Amorim
Galo ou Cruzeiro?

Nenel
Galo. Galo doido.

Juliano Amorim
Voltando a falar em Beatles, você foi na última turnê do Paul McCartney?

Nenel
Fui. Fui bem legal. Fui em Belo Horizonte e depois no Maracanã.

Leonardo Alves
Nenel, voltando pra culinária. Você gosta dos pratos que faz ou prefere cozinhar para os outros? E qual é o seu prato favorito de fazer e de comer?

Nenel
Eu cozinho pouco. Eu fico tanto na rua, em boteco…mas eu gosto de cozinhar umas coisas classiconas. Estrogonofe, bife a parmegiana…

Nenel
Eu acho que me viro bem na cozinha. Não sou profissional, mas eu leio o tempo todo sobre cozinha. Eu pesquiso o tempo todo. Eu tenho uma biblioteca de livros sobre o assunto, mas não sou um cozinheiro profissional. E prato predileto? Eu acho tudo bom [risos].

Leonardo Alves
Maravilha. Como você costuma chamar o garçom? Quando está em um bar, qual o vocativo?

Nenel
Um jeito que eu gosto de chamar é “mestre”. Eu acho que eles são mestres. Mas tem vários jeitos carinhosos de chamar o garçom. Tem até a música do Skank “comandante, capitão, tio, brother, camarada”.

Nenel
Até fiz uma série ano passado sobre os garçons. Foi o ano dos garçons. Todo ano eu pego um tema para falar mais sobre o assunto. Não é só sobre aquilo, mas é pra aprofundar mais. E eu acho que a galera dos garçons merece muito respeito e reconhecimento.

Leonardo Alves
É isso. Obrigado. Eu vou passar o pau. E ele pode dar o encaminhamento.

Paulo Vinicius Coelho
A gente sempre termina as entrevistas questionando uma coisa que você indica e uma que contraindica.

Nenel
A indicação é: vá ao botequim. Mesmo que você não beba, porque não esta estritamente ligada ao álcool. Vá enquanto a gente ainda tem essa cultura linda.

A contraindicação? Sachês e cardápio QR Code.

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