Não houve jeito, a reestreia de Neymar pelo Santos – cá desta terrinha, o Brasil – foi o assunto da semana, por toda sorte de razões. Na ala em que o futebol é a pauta, a curiosidade esteve centrada na performance do astro, já que as dúvidas surgidas a respeito de seu estado físico para a partida não poderiam ser ignoradas.
Os nostálgicos, como eu, atentaram-se mais ao signo do gesto de reencontro do artilheiro com o ladrilho de seus próprios pés, no cadafalso que o projetou. Foram milhões de homens e mulheres encarando, nos 45 minutos de Neymar em campo, a face dos seus próprios destinos mais íntimos, como se, ao darmo-nos conta de que ele já não era o mesmo, algo nos dissesse, por óbvio, que nós, os espectadores, também não éramos mais os mesmos.
Mas a tarefa de dizer, com mais acurácia, o que foi a volta de Neymar ao futebol brasileiro está brilhantemente documentada no texto de Leonardo Alves. O que se deu em mim, em decorrência disso, foi a lembrança da razão que me levou a elaborar algumas palavras: Ronaldo Nazário de Lima.
Vejo mais similaridades entre os retornos de Neymar e Ronaldo ao Brasil do que a volta do homônimo – o gaúcho – ao país, em 2011. Sobretudo pelo debate quanto ao vigor físico, pouco ou nada relevante no caso de um Ronaldinho cujas incertezas que o cercavam se sabiam de outra natureza, vinculada ao seu lifestyle dionisíaco.
Ronaldo, por sua vez, trouxe com sua presença – primeiro no Flamengo, não nos esqueçamos – a preocupação que há também com Neymar sobre a qualidade de seu jogo. Para a crítica, os torcedores e os entusiastas, as inúmeras lesões e o flagrante sobrepeso minaram a confiança na medida do seu gênio.
Mas o Ronaldo, de alegrias infindas aos brasileiros, desde a sua aparição, no início dos anos 1990, é coisa que não se poderia e nem se pode ignorar. O ceticismo – na projeção de sua figura com a camisa do Corinthians, naqueles idos –, bambeou, se entrecruzou nas alamedas, porque os predestinados, aqueles de aura, sabem o que fazer do imprevisto; entendem, desde o início da vida, o que é desarmar os encalços.
E, naquele domingo, de data que prescindo a recordação, Ronaldo, outra vez, revolveu a todos a paixão por vê-lo em estado da arte, fazendo gols. O êxtase, lembro-me, transcendia a mera identificação – ou torcida – para o Corinthians. Pelo contrário, era felicidade coletiva. Vê-lo outra vez capacitado, triunfante nas quatro linhas, era a mais explícita desdita à máxima céptica de John Lennon de que “o sonho acabou”. O sonho, nos avisava Ronaldo, àquela altura, não só não havia acabado como estava por começar.
O Nazário, na dança inspirada de seu futebol, com gestos desconcertantes e firulas de explícito encantamento, era a superação da beleza para além do que a palavra, a ciência, ou o que quer que seja, possa designar como o infinito. Ainda o saudei com amor, no ocaso de sua trajetória no futebol, a partir da Copa de 2006. Se me refiro ao evento de forma dulcíssima e afetiva é porque o vi jogar. E todas as Copas seguintes não são capazes de chegar às raias daquela emoção, porque a presença de Ronaldo põe acima o nível do seu ofício e nos obriga, como espectadores, a fazer o mesmo.
Aceito que se aplique a esta colocação o surrado, embora eficiente, adjetivo de “saudosismo”. Penso além, porque a aparição de Ronaldo; o seu jogo e toda a sua técnica, elevam todos os parâmetros, levando-nos a reavaliar o que sabíamos. Mais ainda: a presença do “fenômeno”, àquela altura de recuperação nacional pós-ditadura, em um cenário devastado por gravíssimos problemas de ordem econômica e de estrutura social, punha-nos diante ao menos de um vislumbre de superação dos velhos arcaísmos; na trilha do desacato, como gesto de ordem, a uma sina de incontáveis injustiças.
Porque a consagração de Ronaldo, na metade dos anos 1990, no intercurso entre Barcelona (Espanha) e Internazionale (Itália), parecia realizar, conjuntamente ao crescimento do mercado de música, com a aparição dos grupos de pagode nos veículos de mídia brasileiros; da ascenção da axé music, da consolidação do funk e da estabilização da moeda brasileira, o Real – na esteira do plano econômico de 1994 –, a nova aurora dos tempos. Pretos e pardos no show bizz. Com a régua e o compasso.
Não me furto em pensar na segunda metade dos anos 1990 como um segundo estágio – ao menos em cultura – da modernização a que tomamos nota, nos 1950, de Juscelino, Brasília e Bossa Nova. Mas entendo o perigo de definir as coisas nestes termos. E é bem possível – aliás, nem é preciso – que se definam as coisas assim. Se me permito ousar um tanto, ao menos posso dizer que a categoria de Ronaldo – com seu futebol estimulante, de máxima ternura, sem demover os contornos; da ação nas frestas, do improviso tenaz –, explicita a justa forma de manifestação do que há de melhor. É autoestima como parâmetro e qualificação.
Uma bossa possível no eixo de gravidade, em cada um dos seus passos.
Ou simplesmente a espontânea beleza que nos revelou um caminho de liberdade através do sonho.





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