
Na última sexta-feira, ao sair do trabalho, abri o Uber para conferir os preços das viagens até meus bares favoritos: o Bar do Léo e o Butiquim do Carlos. Inicialmente, o valor definiria meu destino, mas, no fim das contas, não foi o que pesou na decisão. Foi então que percebi um detalhe curioso: meu local de trabalho fica exatamente no meio do caminho entre os dois! Estou a exatos seis quilômetros e cem metros das minhas segundas casas.
Não paro de pensar, desde então, no que une e separa os dois locais. De cara, constatei: cada botequim é um mundo. Não é possível falar em equivalências, mesmo quando há semelhanças estéticas, de perfil de público ou de música apreciada. Dito de outro modo – e aproveitando o último elemento mencionado – ouvir Porto Solidão no Léo não é igual a ouvir Porto Solidão no Carlos. A canção é a mesma, mas a atmosfera é diferente.
Conheci o Bar do Léo pouco tempo depois de me mudar para São Luís. Sou apaixonado pelo bar desde o primeiro instante. O encontro com o Butiquim do Carlos demorou um pouco mais a acontecer, mas foi igualmente significativo. Logo o carinho de Carlos e Priscila me cativaram e mudaram a minha rotina. Antes, eu não tinha dúvidas sobre onde tomar a cerveja pós expediente: o destino era sempre o Bar do Léo. No entanto, nos últimos dois anos, a coisa mudou. Percebi como era prazeroso descer a Rua Grande com destino à Rua Godofredo Viana.
O percurso de pouco mais de um quilômetro no centro comercial da cidade, onde eu trabalhei por cinco anos, até janeiro deste ano, é marcado por passos efusivos de empregados abandonando os seus postos de trabalho, de clientes apressados tentando a última compra, de camelôs organizando suas parafernálias. O barulho é infernal e só cessa ao chegar na Igreja do Carmo, já na Praça João Lisboa. Depois, o Teatro Arthur Azevedo e, finalmente, o Butiquim do Carlos. Um pouco antes da chegada, já é possível ouvir o som que vem do bar, o que apressa a caminhada. O que define a chegada? O sorriso de Carlos e o cumprimento de Priscila: “Ê, Paulinho!’’
Durante muitos meses, habituei-me a ir para o Bar do Léo somente depois de passar pelo Butiquim do Carlos, o que gerou um certo ciúme, muito mal disfarçado, em Nézia – quem comanda a casa na ausência de Leonildo. Eu dizia “Nézia, mas eu também preciso visitar os meus amigos do Carlos…’’. Não adiantava. Ela me olhava como se eu tivesse cometido uma traição. Contudo, é verdade que Nézia e Priscila, as gerentes, nutriam admiração pelos bares uma da outra. Apesar do ciúme de Nézia, os elogios eram mútuos. Priscila sempre diz, em tom de respeito, ao ouvir algo sobre o Bar do Léo: “aquele lugar é referência’’.
No último sábado, os dois bares, os dois mundos, uniram-se, representados pelas suas gerentes. Recebi de Maricilde a foto de Nézia e Priscila juntas no Balcão do Léo. Continuo dizendo que cada botequim é particular, mas, ao ver a foto, senti que no meu coração os dois bares ocupavam o mesmo espaço. O Bar do Léo, pela longevidade da relação, um pouquinho mais à esquerda, mas os dois no mesmo espectro.
O querido professor Luiz Antônio Simas disse-nos, em entrevista: você, durante a vida, só é capaz de conhecer um ou dois botequins, porque cada botequim exige intensa diligência para ser conhecido. Pois bem: os botequins que eu desejo conhecer são o Bar do Léo e o Butiquim do Carlos.





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