
Na primeira vez que ouvi Tigresa, meu coração tremeu. Não sabia ao certo o que era aquilo, nem o porquê de ter me abismado tanto. Talvez pelo fato de essa ser uma canção do Caetano mais próxima do rock, gênero que tanto me interessava à época. Mas um rock com glamour, sincopado, bem diferente da inserção autodeclarada do compositor no gênero, a partir do disco “Cê”, cuja concepção é pretensamente rock em gesto e propósito.
Lembro-me à perfeição: 22h de uma quarta-feira, na Rádio Senado. O riff que ia e voltava; a orquestra pontual; a explosão de imagens sugeridas pela força da letra. Chico Buarque é a exatidão que nos orgulha a todos. A justeza de sua métrica e de seus intentos estéticos não deixam dúvidas de que, ao ouvi-lo, estamos diante da dulcíssima formosura de um Brasil impremeditável, de insuspeitada nobreza.
Mas o chiste de Caetano e a sua poesia libérrima, cheia de figuras, tão pessoal, é outra instância das coisas sensíveis que me arrebatam. Não posso resistir à prosa não-linear e a prosódia equivocada de “como é bom poder tocar um InstrumenTÚ”, porque é muldura tão inadequada quanto precisa para retratar a beleza feminina, a desfaçatez do flerte e toda aura yuppie setentista e despojada da letra.
É o que nos aproxima de Dylan, claro, embora nos leve além. Muito além. Coisas de Caetano e sua poesia, um artifício acima da vulgaridade. Como deve ser acima da vulgaridade a postura com a qual devemos assistir aos grunidos vindos de onde o bastio das bestas se refestela no próprio absurdo.
Esquerda e extrema-direita convergiram, nesse sábado (01), para que o atraso do Centro, que nos aturde e nos aprouve o passadismo, estivesse, mais uma vez, no comando dos nossos desígnios. Esmoreço, mas não disperso. Não é possível fazê-lo. Resistir é déclassé e temercore? Não de todo. É preciso atentar-se a todos os males que nos surgem à espreita. Sobreviver está, de fato, cada vez mais difícil.
E sobreviver é agregar-se, estar na rua, manter o brilho, a efusividade de todos os corpos. No Carnaval, seremos todos estrelas brilhando nossos destinos, nossas desventuras e esperanças. Organizar é mesmo a palavra de honra para que, dentre outras coisas, a tigresa possa mais do que o Leão
Diálogo no Bar do Léo:
Criança: – pai, quero atravessar o balcão.
O pai diz: – não pode.
A criança retruca: por quê?
A serenidade do semblante do pai transcorre para a fala precisa: – porque aqui é um museu.
As classificações são redutoras e vãs, porque o coração não cabe no desvario que é possuir tantas certezas.
Para que servem tantas certezas?





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