Espantos de Beleza


Uma reflexão sobre três pilares da arte brasileira.


Respectivamente, Chico Buarque, Jorge Ben e Fernanda Torres.

Havia me prometido há algumas semanas, por ocasião da vitória de Fernanda Torres no Globo de Ouro, um texto que pudesse ao menos pinçar o simbolismo desta conquista para a cultura nacional, bem como as impressões que se desvelaram para mim de tão significativo acontecimento. Fui abatido pelo destino, que apeou o texto por meio de uma pane em meu computador. Não salvei. Perdi. Rita Lee, naquele tweet engraçadinho do backup, said: – Foutez-moi!

E eu já havia me decidido pela hora de escrever coisas novas. E falar do Brasil, coisa de que gosto e tanto me sensibiliza. Luiz Antônio Simas mencionou os “espantos de beleza” em nossa entrevista. Não só a expressão é sintética – e diz tanto – como traduz à perfeição o que é Chico Buarque em minha vida. Ando pensando muito no Chico: na sua grande arte; na economia de suas declarações públicas – raras e de explícita contundência; na envergadura do seu trabalho.

Com Chico Buarque, a dúvida sobre as nossas valias se desvanecem. Parecem combalidas, ou mera retórica gotejada sobre o melodismo de seu canto. Nada desmente o que por ele foi assentido no esmero de cada frase composta; no delineado de cada harmonia que nos arrasou. A vitalidade do seu trabalho retira o Brasil do reino das sombras e põe no lugar um país cuja dimensão não pode caber nas trevas. É como Jorge Ben em seu canto livre, caloroso e vital.

Os dois – Chico e Jorge –, com trabalhos seminais nascidos do influxo da bossa nova, aplainaram os horizontes da moderna canção brasileira. Ambos representam um convite à beleza e à inventividade, à ilharga dos desígnios pretensamente cósmicos que nos querem repreender a latência e a libido.

O canto de Chico Buarque e a pulsão estética de Jorge Ben abrem todos os braços de mar do Atlântico. Porque a expansão lusíada é a poesia que Buarque revolve; porque a consciência rítmica e solar de Ben Jor alude, impávida, ao fato de que tudo o que somos veio dos africanos escravizados, como de ninguém mais.

Quero que se abram os braços daqueles que estimo em ‘Tipo um Baião’; quero ouvir as vozes numa só em ‘Valsa Brasileira’. Quero ouvir o som do “São Sebastião crivado” na estrofe, em tom crescente, que precede o estribilho de ‘Estação Derradeira’, na voz de meu pai.

Digo que Chico Buarque e Edu Lobo são parnasianos em estilo, porque não representaram ruptura com a tradição da música brasileira moderna, o que não sugere um pesar à obra de ambos, porque vimos – especialmente em Chico – tudo de Noel Rosa, Wilson Martins, Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes repensado e expandido.

A virulência política e a reviravolta nos rumos do seu trabalho tomaram a rota do remanso e da calidez, já na segunda metade dos anos 1980, lembrando-nos que Buarque é mesmo um mar de água clara. E se a poesia, como o mar, é imensa; a beleza do melodista inadmite o alcance dos olhos. Guinga constatou.

Há na luz do trabalho de Chico Buarque o que só é possível supor como sonho ao Brasil. Ele realiza. Com Jorge Ben e Fernanda Torres, nosso autoflagelo se desintegra. Somos obrigados a crer que não só a vida presta como nosso destino mesmo é dar certo.

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