Botequins da Ilha #3 – Bar Meu Bem


A terceira edição do quadro Botequins da Ilha aterrissou no Desterro.


Dona Socorro tem ar sereno. Seria fácil, inclusive, presumir a economia de seus gestos como mera questão etária, mas no fundo de sua alma sábia, há razões outras para a contenção que lhe é praxe. “É melhor ouvir do que falar”, diz ela, esboçando um riso ao recordar o autor da sentença, o seu marido – falecido em 2015 – cujo mistério do nome é findo na candura do vocativo, utilizado a todo instante, ao mencioná-lo como o meu velho.

Originários do Ceará, o casal fixou residência em São Luís há mais de 40 anos. O Bar Meu Bem é como que a memorabilia desta relação, com fotografias, utensílios e esculturas alusivos à vida conjugal. O Flamengo – ah, o Flamengo! – é onipresente.

Socorro estima que o bar, situado nas imediações do Desterro, tenha 20 anos. As memórias lhe são fugidias, neste caso. Há precisão, porém, nos relatos da má relação com o proprietário do antigo imóvel onde o “Meu Bem” funcionava, na Rua da Palma. “Ele [dono do imóvel] começou a implicar com a gente, ameaçando até o meu velho. Chegou um ponto em que a gente não queria ficar”, explicou.

Décadas de funcionamento da casa fizeram de Dona Socorro uma das figuras mais conhecidas da região. Sua vida é mais solitária agora, mas não há lamúrias. Vizinhos, clientes, dentre outras pessoas próximas lhe prestam auxílios. “Na hora de fechar o bar, sempre tem alguém para me ajudar a colocar as mesas para dentro; [para] ajeitar o cadeado”.

O convívio com as mulheres que exercem o trabalho sexual também faz parte das relações estabelecidas no botequim. Com simpatia e respeito mútuos, o puro contato comercial transforma-se em uma rede de apoio e companheirismo. As profissionais do sexo, distantes de quaisquer exotismos, encontram, poucos antes da lida, neste local, a segurança e liberdade que as ruas lhes desmentem.

Enquanto houver clientes, há funcionamento. A rotina de trabalho dá o compasso com o qual Dona Socorro dita o seu cotidiano. As atividades têm início logo cedo, a partir das 9h. Exceto aos domingos, quando há missas “muito boas”, segundo ela, realizadas na igreja do Desterro. Concluída a eucaristia, café tomado e bar a postos. O Bastio é dos boêmios. E o vocativo – ah, o vocativo, outra vez! – é todo amável: – meu bem, mais uma, por favor.

Nem precisei perguntar por quê o nome.

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