Conto dos banheiros químicos ou há algo de podre no reino de São Luís


Uma prosa sobre o “Révis”, a adolescência, o envelhecimento e a lida com o que a realidade apresenta de mais banal e de mais surpreendente.


Aos quatorze anos de idade, acompanhado de alguns amigos mais velhos, inalei a fumaça saborizada daquele que seria meu primeiro cigarro. A clareza obtusa de uma memória distante se confunde com o gosto de uma brasa quase açucarada que se instalou permanentemente em minha garganta desde aquele fim da tarde na Praça Nauro Machado que, pela primeira vez, acenei positivamente para a proposta do trago. Tossi, sim, claro que tossi, mas não fiz a desfeita de apagar um cigarro pela metade.

Pés pueris tomam caminhadas imprudentes como as mais adequadas, então, me sinto incapaz de julgar meus passos pretéritos. Ainda assim, não é incomum que eu seja tomado por um certo arrependimento sempre que me deparo com os frascos dos perfumes que costumava armazenar na mochila, buscando maquinar um disfarce para o odor impregnado nas minhas roupas depois de, como costumávamos chamar à época, “um rolê no Révis”.

O suor que escorria pelo meu pescoço ao atravessar a ponte do São Francisco – sim, íamos caminhando – disputava espaço com o fluir dos destilados e vinhos baratos que encharcavam meu órgãos e, é claro, me levavam à embriaguez. A juventude almeja o comando sobre o próprio corpo, sobre o próprio mundo, sobre as próprias rédeas e, naqueles instantes, curiosamente, o descontrole e a rebeldia eram os meus sinônimos de autonomia. Aos meus olhos juvenis, o auge da maturidade era exercer a própria estupidez se esgueirando pelos degraus insalubres da escadaria, ingerindo o máximo de álcool que o vigor da puberdade me permitia e, vitimado pela minha insensatez, pôr para fora todas as coisas que ingeri ao crer que eu era senhor de minhas vontades.

Não ouso me desfazer ou renegar essas escolhas, mas, ao encarar o espelho, reflito sobre o que elas geraram. Afastar-se da inocência é um processo doloroso e contínuo, pois não há maneira cuidadosa de remover os cascões da feridas ou evitar que as marcas das cicatrizes sejam perpétuas em nossa pele. Foram nesses capítulos da vida que as noites regadas a pizza e refrigerantes tornaram-se comenos de confissão em que pude enxergar os termos sórdidos com os quais o mundo opera. Foi em uma dessas ocasiões que um amigo, alguns anos mais velho, me confessou ter experimentado cocaína. Lembro que meu espanto se deu não somente por tomar noção do ato, mas também por notar que ele lidava com aquilo com uma certa indiferença. Era como se fosse algo qualquer.

O vórtice se abriu e comecei a perceber que o incomum era não perceber. Os vícios estavam mais que instaurados, tanto no âmbito das amizades quanto no seio familiar. O reconhecimento passou a ser cada vez mais recorrente. O que era sombra não tornou-se luz, mas passou a possuir forma, a ser tocável, a espelhar um corpo exaurido. As filas nos banheiros químicos das festas já não eram mais o que eu pensava, mas também não me diziam algo além do que falavam antes. Até que passaram a não dizer mais nada.

Nunca usei cocaína ou sequer senti vontade, mas me lembro bem da primeira vez que me ofereceram. No carnaval, um sujeito me mostrou uma cabeça de pó e perguntou se eu queria. Recusei. Eu tinha dezessete anos, mas o espanto já não existia mais. Hoje, me questiono quais motivações se escondem no espírito de um homem que enxerga uma criança andando desavisada pelos becos do Reviver e o propõe algo assim. Talvez nem mesmo ele saiba. Talvez ele não seja mais capaz de sentir o odor que me faz ter certeza que, sim, há algo de podre em nosso reino, que não necessariamente é a substância, mas o que ela gera em seu entorno, o que ela remove e o que ela perpetua.

Deixe um comentário

últimas

"Senta, se acomoda, à vontade, tá em casa...''

Assine a Sociedade do Copo e receba as nossas publicações em primeira mão!

Continue lendo