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Um palhaço!


Um estudo sobre a iconografia do palhaço no cancioneiro nacional.


Lirinha durante a apresentação de Palhaço do Circo sem Futuro – Cordel do Fogo Encantado

Em 10 de dezembro de 2023, ao rolar o feed do Instagram, me deparei com uma publicação comemorando o Dia do Palhaço. Na ocasião, o disco homônimo de Nelson Cavaquinho estava fazendo a minha cabeça. Enquanto cantarolava o verso “sei que é doloroso um palhaço se afastar do palco por alguém…’’ uma ideia se formava na minha cabeça. Não pus nada no papel, mas guardei, lá naquela gaveta da memória onde se guardam as coisas importantes, o objetivo de realizar algo que explorasse a relação entre o palhaço – essa figura tão marcante no imaginário brasileiro – e a música. Sou instigado, desde então, por questões como: por que o palhaço é tão significativo a ponto de ser mencionado em diversas canções de diversos períodos históricos? de que forma o palhaço costuma ser representado por essas canções? o palhaço assume sentidos diferentes na música brasileira em relação a música feita em outros países?

Minha relação com o palhaço não chega a ser tão profunda. Na infância, passei indiferente pelo personagem. Fui ao circo, assisti aos filmes e vi as fantasias. Nada me comoveu ou foi capaz de gerar grandes temores ou grandes alegrias. Ainda criança, vivenciei, por meio de uma visita colegial ao circo instalado provisoriamente na minha cidade, uma circunstância reveladora de toda a potencialidade do palhaço. A apresentação feita pelo personagem foi o tema de dezenas de causos de medo ou regozijo contados na escola, no dia seguinte. A mim, coube o desinteresse. Essa impressão um tanto cinzenta foi rompida em pouco tempo. Já adolescente, tirei uma das infinitas tardes de tédio pós aula para exercitar o que ainda hoje consiste numa das minhas maiores fontes de prazer: conhecer novas bandas. Cheguei ao Acústico MTV do conjunto pernambucano Cordel do Fogo Encantado. E encantado, aliás, eu assistia as apresentações enérgicas e teatrais de Lirinha, vocalista e líder do grupo. Lá pelo final do show (depois de Os Óim do Meu Amor, música que o leitor também certamente já dedicou para alguém), começa um prólogo que eu faço questão de transcrever: 

“Tudo começou quando o filho morria de vergonha porque o pai era palhaço de um circo sem futuro. E ele cresceu sem dizer para os amigos onde é que o pai trabalhava. Sempre muito envergonhado, cresceu com a vida amargurada, se formou em outra coisa. Um certo dia recebe a notícia que o pai tá no leito de morte. Ele corre lá, entra no quarto, tira a gravata, tira o paletó, se ajoelha e diz: ‘pai, me ensina a ser palhaço’.

Ao passo em que o prólogo é declamado por Lirinha, o vocalista se pinta de palhaço. Ao fundo, sons de risos dramáticos de crianças. E o diálogo do texto se repete:

-pai, me ensina a ser palhaço… pai, me ensina a ser palhaço!

-isso não se ensina, seu bosta!

Depois, tambores e violões entram em cena e acompanham um Lirinha eufórico que canta: sou palhaço do circo sem futuro! circo pegando fogo! 

Lirinha

Pois bem, eu assisti a essa apresentação de “O Palhaço do Circo sem Futuro’’, do Cordel, tal qual o povo vendo a Proclamação da República: bestializado, surpreso. Mais do que isso: com uma comoção que só a adolescência pode proporcionar. Ali, a minha indiferença em relação ao palhaço foi superada. Passei a associar o personagem a apresentação de Lirinha. Depois, ao álbum de estreia dos Los Hermanos e ao filme de Selton Mello (que nostalgia, meu Deus!).

Já agora, na fase da vida onde não é mais possível alcançar a descoberta da infância e a comoção da adolescência, vejo de outra forma a minha relação com o palhaço. Ainda intimamente marcada pela música, mas, agora, em especial, pela música que retrata o personagem como tolo. Aliás, diria até que o palhaço deixou de ser um personagem e passou a ser um estado de espírito. Quer dizer, quem nunca, depois de ter sido enganado no amor, pensou “sou um palhaço!’’? Menos Lirinha e mais Pierrot. 

As questões mencionadas no início não serão solucionadas agora. Faço questão de guardar um pouco dessa inquietação para, no futuro, explorar com mais profundidade a relação entre o palhaço e a música brasileira. Por enquanto, novamente esta Sociedade do Copo me serve como espaço para reflexão. Deixo, abaixo, uma relação de músicas importantes para mim que falam sobre o palhaço ou sobre se sentir um palhaço. Na internet, é possível encontrar outras listas sobre o mesmo assunto. De todo modo, peço somente uma coisa: atenção especial ao ouvir a música de Nelson Cavaquinho. 

Palhaço – Nelson Gonçalves (Herivelto Martins e David Nasser)

Sonhos de um Palhaço – Antonio Marcos

O Palhaço do Circo Sem Futuro – Cordel do Fogo Encantado

Palhaçada – Miltinho (Hardoldo Barbosa e Luiz Reis)

Colombina – Ed Motta

Pierrot – Los Hermanos

Palhaço – Nelson Cavaquinho

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