Quando vi Chaplin dançar ou uma revisão muito incompleta do ano de 2024


Uma retrospectiva em moldes literários.


2024 chega ao fim. Foi um ano difícil. Os horrores da Covid-19 brecaram minha percepção temporal de tal forma que me parece espantoso constatar que estamos chegando à metade da década. Os anos 2020 têm candura, embora seus transviamentos sejam delirantes. As discussões caríssimas à minha geração – somos as crias do que se chama, hoje, temercore – relacionadas à sexualidade, novos costumes, gênero e raça perderam tração. O Brasil se embrutece, mas Liniker lançou o disco mais popular do ano. Somos isto mesmo: desordem e graça.

A entrevista em três partes de Ed Motta ao canal Alta Fidelidade foi das coisas mais sensíveis que vi. Ed é espirituoso e os movimentos mentais daqueles que teimam em classificá-lo, de forma capciosa, como o sobrinho do Tim Maia, sem talento e arrogante, devem ser ignorados. A vitalidade de sua canção impressiona e prescinde estreitezas. Entre e Ouça é um dos melhores discos brasileiros em qualquer tempo.

Rua Godofredo Viana: Seu Carlos e Priscila. A luz difusa, em tom pastel, quando o sol cai. O Teatro Arthur Azevedo sempre cheio, e dou graças por isso. O carinho de todos; o êxtase com Lindo Balão Azul. O show de Jerry Jones, quem não viu, tem de ver, é livre e elegante. A amizade de Clara Madeira me honra desde o primeiro instante. Vê-la cantar por ocasião do aniversário de Carlinhos foi atestar como a felicidade é coisa mesmo muito simples.

Os Tropix trazem frescor à canção que se faz em São Luís. Há muito desejava vê-los, e só pude fazê-lo às vésperas de o ano acabar. O show é bem dirigido, criativo, caloroso. O repertório reinventa músicas consagradas sem repisar maneirismos. Gosto muito de ouvi-los longe dos beats onipresentes no pop local. Espero seus trabalhos autorais com entusiasmo similar ao de ouvir o canto jazzy de Núcleo Terrestre. Sonho em escrever para ela algumas canções.

Tacanhices e gestos desproporcionais de poder rasuram, mas não cessam o vigor do que se faz no Centro da cidade. Não há por que ostentar fuzis e se orgulhar disto, quando o que havia mesmo era gente e música. Não devemos nos acostumar com a sugestão do desvario. Nem mesmo achar desejável a política maranhense como este coquetel indigesto de coronelismo repaginado e nepotismo petulante. O deslumbre de nossas autoridades é de assustar mesmo a subcelebridades emergentes. Não creio que o Maranhão esteja destinado a servir a interesses particulares; familiares. É preciso lutar contra isso.

Foi ano de ver muita gente. Não sou gregário, mas me permito encontros. Mistério sempre há de pintar por aí. O Bar do Léo é como casa, mesmo. Sorrindo por Tudo. Morrendo por Nada é epítome do que é ser e estar ali. Amo os discos de Aldir Blanc com Maurício Tapajós e Guinga. Ouvir Escancarando de Vez, de Elymar Santos, me dá sempre vontade de fazer uma festa. A vaidade de nossa elite ascendente é malsã.

Quando olho Juan Terra constato que o tempo faz bem às coisas. Há mais liberdade e fruição em sua forma de ser um homem negro jovem. Os melindres, a baixa autoestima e a sensação de autoequívoco comuns entre a geração de garotos negros da qual fiz parte, nele já me parece resolvido e melhor afirmado. Seu Black Power em exibição realiza esboços do meu pensamento. Na adolescência, eu, também usando cabelo Black, torcia para que, noutra época, quaisquer alardes já não constrangessem a quem por bem optasse pela imponência dos penteados afro, como tantas vezes constrangeram a mim.

Nossa vegetação está em risco com a sanha predatória do agronegócio. É preciso que se denuncie com veemência. Eduardo Braide teve a preferência inconteste dos eleitores de São Luís, com reeleição expressiva. Espero que sua permanência no poder esteja à altura do entusiasmo com o qual a população lhe assegurou um segundo mandato. Wesley Sousa é como o prazer de uma notícia boa; há de haver sua hora da estrela.

Fizemos ainda a Sociedade do Copo. Eu, Paulo Vinícius, Gabriel Jansen e Leonardo Alves. O projeto é mero desenvolvimento de nossas afinidades. A naturalidade da forma como o blog se constituiu não me faz sequer pensar em datas (sou rigoroso com datas). Certo é que temos feito tudo o que queríamos desde o início. Faremos muito mais. A ideia é tocar no assunto.

A música mais bonita do ano, feita na cidade, foi de Jansen. É a canção de amor que nunca fiz. Espero que possamos gravá-la, além de outras muitas coisas minhas, antigas, de quando ainda mantinha pretensões de ser músico. A música, em verdade, nunca me abandonou. Mas é a prosa, hoje, quem faz mais sentido.

O texto do blog, o esquerdomacho, fez barulho. Acho engraçado e original. Gosto de outras coisas e sorrio um riso meio incrédulo quando noto que parte do público acredita que sejamos uma página de humor. E pode até ser verdade. Giovana Kury é estelar. A imensa repercussão de Jorge Ben e Marina Lima entre os meus contemporâneos sinaliza coisas boas. Tudo em Sabrina Carpenter é USA. O que isto quer dizer?

Não vi A Substância, mas espero assisti-lo em breve. Consegui gostar de Joker 2, sem levá-lo a sério; é cultura pop, estúpido. Brat é mesmo tudo isso que dizem. Ainda Estou Aqui não é tudo isso que dizem. Alegram-me as duas Fernandas; a vastidão de seus talentos constituem os bilros deste Brasil acima e apesar de tudo. O centenário de José Chagas, este ano, como bem disse Paulo Vinícius, atestou o que já sabíamos, e nunca é desnecessário lembrar: sua obra é imprescindível. Júlio César é bom poeta. Não se pode passar pela vida sem ir ao Rio de Janeiro. Emoção é assistir Hannah and Her Sisters.

Quando vi Chaplin dançar na abertura de O Dono do Mundo, pensei ter tido a maior alegria deste ano em que sofri tanto. Mas a vida não pode ser adivinhada. E sou vivo; nada do que é vivo reputo alheio a mim. Espero encontrar debaixo do sol, na próxima parada, 2025, tempo de amenidades. De antigas e novas alegrias. Prazeres grandiloquentes e felicidades em sínteses.

Sou um lírico.

2 respostas para “Quando vi Chaplin dançar ou uma revisão muito incompleta do ano de 2024”.

  1. […] que o último texto de Juliano foi forte inspiração para minha escrita de hoje, assim como os relatos mais voltados para o […]

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  2. […] a promessa e o espanto de meu texto anterior na constatação de que nos aproximávamos, àquela altura, da metade da década finalmente se […]

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