
Há curiosos incuráveis que dedicam parte do tempo a fazer as situações mais inusitadas alcançarem um público digno de se apaixonar, chocar, rir ou lamentar por elas. É o caso de Andrey Raychtock, 31. Nascido em Imperatriz, o jornalista hoje mora no Rio de Janeiro, mas já conheceu outros países, continentes e muitos personagens, muito por conta da internet e do futebol. Raychtock aliou as duas paixões e criou joias como o episódio em que “apurou” a contribuição do treinador Vagner Mancini para a própria página da Wikipedia.
Os vídeos do comunicador resultaram em um público tão fascinado quanto ele por tudo aquilo que ainda não foi dito. Seus trabalhos, hoje voltados principalmente para as redes sociais, reforçam o papel fundamental do jornalista: contar histórias. Dessa vez, colocamos no lugar de protagonista o próprio Andrey Raychtock, que conversou conosco sobre a paixão pelo rock britânico, perspectivas de mercado na comunicação e a melhor maneira de se tomar café, entre outros assuntos.
Leia abaixo:
Leonardo Alves:
Eu vi nas suas redes sociais que você comprou ingresso para o show do Oasis no ano que vem. A partir disso, eu quero fazer uma pergunta associando música e futebol: qual dupla do futebol você acredita que seria mais equivalente aos irmãos Gallagher?
Andrey Raychtock:
Ah, eu acho que Romário e Edmundo. É a mais clássica. Cantaram juntos, né? Eu fiz até um vídeo recentemente sobre isso: o rap dos Bad Boys. Agora a gente tem o Depay que canta, o Gabigol que canta, mas durante muito tempo Romário e Edmundo foi um caso único. Imagina isso: o melhor jogador do mundo e o melhor jogador do Campeonato Brasileiro de 94 e 95 fazendo funk juntos. Nessa época eles ainda eram amigos, depois saíram na mão, no Vasco. Enfim, a gente conhece as brigas dos dois. Seria a dupla que mais se equivale [aos irmãos do Oasis].
Leonardo Alves:
A música é um tema muito caro para o nosso blog. E nós não poderíamos deixar de perguntar: que tipo de música você costuma escutar? Como é o seu gosto musical?
Andrey Raychtock:
O meu gosto musical teve várias fases. Quando eu era moleque, eu ouvia o que minha mãe ouvia, e minha mãe sempre foi uma pessoa muito musical. Minha mãe produziu shows de artistas da Jovem Guarda durante algum tempo da vida dela. Então, eu tive contato com o que hoje seria um lado B [da Jovem Guarda]. Mas, na época, era o lado A. Cantores tipo Jerry Adriani, Wanderley Cardoso…É uma galera que hoje tá um pouco fora dos holofotes, mas que já foram os maiores artistas do Brasil.
Minha mãe trabalhou com esses caras no fim da carreira deles, nos anos 2000, 2001… Então eu tinha muito contato com esse tipo de música que hoje a gente olha e fala “ah, isso é música brega, né?” Mas isso era o que eu ouvia quando era criança.
Depois eu fui desenvolvendo o meu gosto pessoal. Teve um fato marcante quando eu mudei de escola. O cara que dirigia a van que nos levava era um jovem, devia ter uns 20 anos, e ele tinha uma fita, um tape do CPM-22. Era o CPM-22 antes de assinar com a gravadora, era uma demo que ficou até famosa na internet.
E aí eu ouvi isso e comecei a entrar nesse mundo que o pessoal chamava na época de Hardcore Nacional; não tinha muito isso de Emo na época ainda. Depois o movimento Emo chegou e o CPM acabou indo pra esse lado.
Enfim, eu comecei a ouvir rock. E como você disse, agora eu comprei o ingresso do Oasis, porque depois, já no auge da adolescência, passou a ser a minha banda favorita. Eu entrei nesse mundo de música britânica. É uma fase que todo mundo que gosta de rock em algum momento para pra ver. Eu gosto muito de Blur também. No ano passado eu estava na Argentina vendo o show deles, porque eles não vieram pro Brasil, já que ninguém conhece o Blur no Brasil [risos]. Mas eu diria que essas são as duas bandas da minha vida. E eu completaria a resposta com mais bandas britânicas, tipo Joy Division, The Smiths…
Smiths é uma banda que eu gostava muito, mas hoje eu não tenho muito saco porque o Morrissey anda falando umas besteiras aí, né? E aí fica difícil defender…Mas eu cheguei a ir em shows dele também. Parei nos últimos anos, meio que não consigo mais.
E aqui no Brasil, apesar do povo criticar, eu gosto muito de Legião Urbana, voltei a ouvir muito recentemente.
Leonardo Alves:
Legião Urbana é sempre exaltado pela Sociedade do Copo. A gente também tá indo contra essa onda. Ainda sobre música: tem alguma história marcante na sua vida que reúna os elementos música e futebol?
Andrey Raychtock:
Olha, eu trabalhei durante algum tempo na comunicação do Manchester City, que é uma coisa bem aleatória na minha vida. E era um trabalho meio distante, eu não tinha contato com os jogadores. Eu ficava aqui no Brasil sendo um faz-tudo deles. Sempre que precisavam de alguma coisa, eles me ligavam.
Mas, eu tenho um vídeo icônico – e impublicável – na festa de fim de ano do Manchester City, Sou eu abraçado com o Bernardo Silva cantando Wonderwall [Oasis] juntos. É incrível. Eu trabalhando no clube que, na época, era o mais vitorioso do mundo, ouvindo a música da minha banda favorita e acompanhado de um jogador que eu sou muito fã. Foi um momento lendário.
Leonardo Alves:
Legal isso. Foi em Manchester?
Andrey Raychtock:
Isso. Eu trabalhava pra eles aqui. Eles tem uma política meio estranha – estranha porque ninguém faz isso – de entender que é importante ter pessoas de vários países do mundo em locais que eles consideram prioritários do ponto de vista de marketing, da expansão da marca. Tem clubes que fazem isso via agência, né? Você pega, por exemplo, o Twitter do Liverpool em Português. Quem tá lá atualizando é um brasileiro. Só que geralmente é uma agência que faz isso para vários clubes. E o City decidiu contratar pessoas nos seus países. Eu fui o primeiro nessa vaga, hoje eu sei que tem outro cara lá. No fim do ano, a gente ia pra lá pra festa de fim de ano.
Leonardo Alves?
Ah, entendi. Cara, falando sobre vídeos constrangedores: tem um vídeo seu padecendo com torcedores eufóricos da França [a seleção havia conquistado a Copa do Mundo de 2018 e Andrey Raychtock tentava gravar uma passagem para uma matéria, enquanto torcedores, eufóricos, o interrompiam constantemente] que viralizou muito. Eu gostaria de saber se esse episódio te deu mais projeção, te prejudicou de alguma forma ou não fez tanta diferença?
Andrey Raychtock:
Não, pra mim foi ótimo. Na época eu fiquei com medo, porque quando o vídeo viralizou, eu fui dormir com oitocentos seguidores e acordei com oito mil.
Foi a primeira vez que eu apareci pra mais gente; não era uma coisa normal na minha vida. Eu ficava lá, tweetando groselha no meu Twitter e…no dia seguinte, tava o Bruno Gagliasso dando RT no meu vídeo, rindo pra caralho. Foi o meu primeiro susto com a internet.
Eu achava que o pessoal da Globo ia ficar chateado, porque aquilo, na verdade, não foi pro ar. Se as pessoas repararem naquela imagem, não tem logo, não tem sujeira de crédito de programa. Ele é uma imagem bruta da minha câmera que eu subi [para as redes sociais] porque achei engraçado. Eu não tinha muitos seguidores, mas o negócio ganhou uma dimensão assustadora. Eu podia ter previsto, né? Era uma Copa do Mundo e o vídeo era muito engraçado.
Óbvio que na época veio muita gente me xingar, muita gente na minha DM do Facebook falando “pô, tem que ter mais jogo de cintura’’, “pô, se fosse o Márcio Canuto ali teria bebido junto’’.
As pessoas não tem muito o contexto da coisa. E eu entendo completamente. Eu entendo que quando você vira um meme, a realidade que as pessoas têm de você é uma realidade extremamente fragmentada. E se você for ficar chateado com isso, cara, você não vai conseguir viver na internet. É melhor você nem fazer nada na internet. Na época eu só fiquei assustado em relação a como a Globo lidaria com isso.
Mas aí, no dia seguinte, o cara do site falou ‘’pô, posso botar na home do portal?”. Cara, se você é o chefe do site e colocar no portal vai validar de alguma forma que eu não fiz besteira, pode botar. E no fim das contas acabou sendo legal. Eu não fiquei na Globo depois, meu contrato era temporário, mas eu acho que esse caso não foi definidor.
Pelo contrário, eu acho que hoje serve meio que como um cartão de visita do tipo: -ah, você é aquele cara?
E na verdade, ninguém tem raiva de um meme. Na internet as pessoas te xingam, mas na vida real é muito engraçado encontrar uma pessoa que você conhece de um meme. Então, no fim das contas, você não fica chateado e não dá nada. E profissionalmente foi bom, né? Eu ganhei um monte de seguidor.
Leonardo Alves:
Certo. Uma outra pergunta, assim, mais ou menos nessa linha que tu falas de ficar marcado por uma coisa, e nesse momento, nesse caso, um meme, uma coisa mais irreverente: a gente tem visto um crescimento de formas de comunicação esportivas mais leves. Dá pra citar como exemplo a CazéTV, onde você já até fez participações.
Na tua opinião, esses formatos mais leves vieram pra ficar ou são uma alternativa, mas não a única forma de fazer sucesso?
Andrey Raychtock:
Eu sou otimista, tá? Eu não acho que o jornalismo esportivo tá acabando. Eu entendo que muita gente, principalmente a gente que debate comunicação e gosta de pensar futebol numa discussão um pouco mais complexa, tem opiniões um pouco rabugentas.
Mas eu acho que tudo isso começou quando o Thiago Leifert revolucionou o Globo Esporte de São Paulo. E aí ele começou a receber críticas sobre a leifertização do futebol. Eu acho que essa é uma crítica muito válida para aquela época, numa época de televisão e de espaços limitados, em que o Globo Esporte era o único momento em que boa parte do Brasil tinha contato com conteúdo esportivo.
Eu acho que numa realidade de redes sociais, você abre um leque pra um milhão de possibilidades. E aí você pode escolher a sua, né? Hoje, é isso, você faz um vídeo no seu quarto, você viraliza e chega a milhões de pessoas e aí você fica famoso entre milhões de pessoas, sendo que ninguém te conhece de verdade.
Vira e mexe eu encontro algum influenciador, algum criador até da minha área que o cara tem 500 mil seguidores e eu nunca ouvi falar. Isso significa que esse cara tá chegando onde ele tem que chegar e onde ele não tem que chegar ele não tá chegando, porque talvez eu não seja o público dele, entendeu? Então eu acho que pra aquela época em que a gente só tinha TV e o Tiago Leifert tava ocupando um espaço que só poderia ser ocupado por uma pessoa, talvez a gente pudesse achar problemático que o único noticiário de futebol da Globo, da maior TV do Brasil, fosse um noticiário que perdesse tempo de gol pra fazer piada. Hoje em dia eu acho que o cara que faz piada chega em quem quer ouvir piada.
Só que você tem perfis incríveis, como o Copa Além da Copa, que é uma referência que eu sempre uso. É um perfil do Twitter que faz um trabalho, agora vai ser expandido pro Youtube, que não chega em tanta gente quanto a Globo, mas chega em quem procura por isso.
E aí eu defendo também, aliado a esse otimismo, o uso ativo da internet de quem sente falta de alguma coisa. Porque se eu sinto falta de um conteúdo hoje, em 2024, eu vou achar. Não existe nada que não está sendo feito na internet nesse momento. E se alguém sabe de alguma coisa que não está sendo feita, procurou e não achou, faz você, cara. Porque se ninguém fez, você achou um vácuo.
-Pô, eu quero assistir hoje um vídeo que fale sobre a política do Turcomenistão.
Cara, eu vou achar um cara, no quarto dele, com uma edição maneira, fazendo um vídeo que vai me explicar, por A mais B, o que está acontecendo no Turcomenistão.
Talvez esse cara não tenha espaço na Globo, mas tem o público dele. Então, eu acho que eu sou um otimista em relação a essas novas formas de fazer esporte. A Cazé TV, por exemplo, eu participei da primeira geração de produtores, eu fazia participações, mas o meu grande trabalho era por trás das câmeras, tocando ali a produção. Fiquei um ano e pouco, saí de lá em maio.
Muitas vezes eu não era o público do que eu estava fazendo ali; acho que era pra uma galera mais nova do que eu. Mas a Cazé TV dificilmente tira o espaço de uma abordagem mais séria, porque ela não tem exclusividade. Tem poucas coisas que são exclusivas da Cazé TV, que você não tem opção de ver na Globo se não gostar da Cazé TV. O que mata é você ser obrigado a consumir algo que você não gosta. -Pô, hoje eu tô de mau humor, vou ver um jogo na Globo. Ou, -hoje eu tô de bom humor, vou ver um jogo na Cazé TV. E aí tudo bem.
Leonardo Alves:
Ainda falando sobre formatos: acredito que algo que tenha consolidado teu estilo nas redes sociais tenha sido o vídeo do Vagner Mancini [técnico de futebol] como editor da própria página na Wikipedia.
Eu tava conferindo e percebi que ele foi realmente um grande boom nas tuas redes. Depois disso, os teus vídeos assumiram um formato muito naquela linha, né? Queria saber como surgiu a ideia do vídeo, como foi o processo de criação e se o vídeo chegou no Vagner Mancini?
Andrey Raychtock:
Chegou, cara. Essa minha vida de criação na internet…eu trabalho com isso há muito tempo, né? Acho que meu primeiro estágio em Jornalismo Esportivo completou 11 anos. Foi no Esporte Interativo lá em 2013. E desde então eu sempre trabalhei com isso em vários lugares. E sempre orientado pra internet, porque eu acho que sempre foi onde eu me criei. E aí esse ano foi quando eu decidi fazer uma coisa mais autoral, botar a minha cara. Eu tava meio de saco cheio da carreira, né? Eu estava há mais de 10 anos trabalhando com isso.
A gente começa a cansar um pouco. O ritmo de agência e dos veículos mais novos também é um ritmo muito acelerado e eu já tô um pouco mais velho. Aí eu falei –pô, vou fazer um negócio meu. E essa história do Vagner Mancini tava guardada comigo há muitos e muitos anos.
Eu criei todo um roteiro ali pra dizer que eu estava obcecado com a história, mas no fim das contas é um storytelling, né? Era só uma coisa muito engraçada que eu sabia desde 2015, quando, ainda trabalhando no Esporte Interativo, eu fiz uma pesquisa para escrever uma reportagem sobre o Vagner Mancini no Vitória e dei uma lida na wikipedia dele rapidinho só para confirmar os clubes onde ele havia trabalhado. E eu vi essa parada e printei. E aí eu mandei pra galera, mandei pro pessoal da redação. “Pô, muito engraçado essa parada aqui” , todo mundo morreu de rir.
Quando virou o ano de 2023 pra 2024, eu fiquei com esse negócio na cabeça de fazer dois projetos diferentes: um pro instagram, com vídeos curtos e assuntos aleatórios, porque tem potencial de Reels, e outro pro Youtube, pra histórias mais longas de pesquisas que eu faço. São duas editorias, né? Tem a aleatoriedade e a pesquisa pra quem gosta muito de futebol.
E aí, eu tinha visto um filme que se chamava Medianeras, um filme argentino muito bom. Eu vi esse filme, sei lá, em março, e comecei a refletir sobre a estrutura narrativa dele, que é muito comum em vários filmes. É um filme sobre solidão, geralmente, ou que quer mostrar um cara solitário, às vezes obcecado com alguma coisa, às vezes só um cara muito sozinho, e cuja construção é uma voz monótona de um cara narrando o filme.
Tem o Medianeras e outro exemplo é O Homem que Copiava, que o Lázaro Ramos faz. Também é isso: um cara solitário em casa, que tem certas obsessões, e ele fica falando daquele jeito [narrando]. Aí eu falei: cara, vou fazer um vídeo de maluco aqui, experimental, e vou ver se a galera gosta.
E aí eu lembrei dessa parada que eu achei [caso do Mancini]. Foram dez anos sendo uma piada interna minha comigo mesmo. Eu falei: pô, vou ver se ainda está no ar. Aí pesquisei e tava no histórico. O vídeo eu fiz rapidinho, subi e realmente estourou.
Furou uma bolha absurda e me deu um número suficiente de seguidores pra começar a transformar isso num trabalho. E foi aí que eu saí e comecei a trabalhar por conta própria. Foi uma virada. E me mostrou o formato que eu preciso usar.
A dificuldade de produzir para as redes sociais é achar um formato que tenha a ver com você, que as pessoas associem a você e que, ao mesmo tempo, não seja uma coisa que só você goste. Então, se você acerta uma galera que gostou e se sente confortável pra fazer, talvez seja o momento de manter esse caminho.
Seria muito estranho depois desse vídeo, com o fluxo de seguidores que eu ganhei, eu voltar a fazer uma coisa de um cara falando com a câmera. E aí eu aboli isso totalmente e agora eu tô nesse ritmo aí.
Leonardo Alves:
Legal, cara. E aí o Vagner Mancini entrou em contato contigo ou não rolou isso?
Andrey Raychtock:
A assessoria do Ceará entrou em contato comigo. Rindo pra caramba. Falando “pô, que vídeo maneiro, muito engraçado. Mostrei aqui pro Mancini, ele riu muito.” Aí eu fiquei com vergonha pra caramba, né? Porque, tipo, quando a gente vê nossas piadas na internet ganhando forma na vida real, é meio constrangedor, né?
Você fica “pô, mas isso era só uma bobagem que eu fiz”. Eu não sabia se ele ia entender, mas ele entendeu. E aí, em paralelo, um jornalista que cobre o São Paulo [clube] tinha o contato do Mancini. E tinha uma boa relação com o Mancini. E aí entrou em contato comigo, mandou o print da conversa e falou “cara, acabei de ter essa conversa com o Mancini agora’’. Ele mandou o link e perguntou “pô, tu editou mesmo tua Wikipedia?’’. Aí o mancini falou: “cara, eu tentei editar duas vezes, mas nunca consegui’’. E rindo pra caramba. E aí eu lembro que, no dia seguinte, em algum outro veículo do Sul, subiram a matéria e foram falar com o cara [o Mancini].
Então eu imagino que tenha sido um dia que todo mundo ficou ligando pra ele. E era um fim de semana que tinha Clássico Rei [Fortaleza x Ceará], se eu não me engano. Ele estava treinando o Ceará e ia jogar contra o Fortaleza pela final do Campeonato Cearense. E o pessoal ficou perguntando sobre a Wikipedia pra ele. Eu fiquei um pouco chateado de atrapalhá-lo, porque no final das contas era só uma brincadeira, mas acho que ele gostou.
Aí eu lembro que eu cheguei a sugerir pra assessoria do Ceará, Falei “cara, se o Ceará ganhar, se o marketing de vocês fizer um vídeo dele sentar editando a Wikipédia e botando campeão cearense, eu acho que esse vídeo vai estourar” mas eu fiz puxando o saco pra mim. Aí ele falou “pô, boa ideia, a molecada do marketing pensou nisso também’’. Acabou que o Ceará foi campeão e o vídeo nunca saiu, mas fica a ideia aí.
Leonardo Alves:
Andrey, trazendo aqui pro nosso lado: você é maranhense de Imperatriz, mas acompanhando um pouco da sua carreira, você ja trabalhou em vários lugares do mundo. Levando em conta que o nosso estado está mais afastado dos grandes centros da mídia e até do esporte também, como foi sua trajetória profissional e quais caminhos você acha que são indicados para quem é daqui e quer trabalhar com comunicação?
Andrey Raychtock:
Eu sou de Imperatriz, nasci lá, assim como todos os meus irmãos. Era uma família de pai e mãe do Rio de Janeiro. Eles foram pra Imperatriz nos anos 80 por conta de uma história que não é historiograficamente verificada, mas é a história que meus pais contam.
Nos anos 80 Imperatriz teve um boom populacional, porque encontraram ouro em Serra Pelada, ali perto. E aí precisavam de uma cidade que fornecesse serviços pras pessoas que migraram pra Serra Pelada, se assentaram por lá e não tinham uma capital perto, né?
Serra Pelada é longe de Belém e longe de São Luís. Então a cidade teve um fluxo muito grande de gente, de profissionais liberais, tipo médicos, pedagogos, professores, indo meio que pra criar uma rede de serviços que atendesse as pessoas que estavam precisando de coisa lá.
E aí meu pai foi ser médico em Imperatriz, junto com muita gente, que foi nessa época. Então tinha várias famílias ali que foram junto com meu pai e eram as famílias que frequentavam a nossa casa. Foi nesse contexto que eu nasci, nos anos 90. Minha mãe voltou com os filhos em 99 pro Rio.
Então eu morei até uns seis anos lá e o meu pai permaneceu. Então a minha relação com Imperatriz continuou sendo de ir nas férias. Eu ia lá, ficava com meu pai. Meu pai até chegou a me levar no CT do Cavalo de Aço uma vez, porque eu fiquei enchendo o saco dele pra ir. E aí o Imperatriz era um time que na época tava até disputando o título maranhense, hoje em dia…Ainda estamos voltando aos tempos áureos, mas estamos enfrentando alguns problemas.
A última vez que eu fui, que eu frequentei o CT do Cavalo de Aço, foi na época do primeiro título maranhense, foi em 2005. Eu fui lá com o meu pai, ele me levou no CT, aí eu peguei uma camisa. Eu lembro que o Rodrigo Ramos, que era o goleiro, que jogou no Sampaio depois, assinou uma camisa e me deu.
E foi um dia muito marcante da minha relação com o meu pai, com a cidade e com o time. Foi o momento que eu olhei e falei “cara, que legal. Ter uma camisa de goleiro, do Rodrigo Ramos autografada”. O Lindoval, que é um dos maiores ídolos do Imperatriz, assinou também. E aí foi um momento de conexão com o Cavalo de Aço.
Foi assim que eu comecei a desenvolver minha relação com o time, mesmo morando distante.
E é isso, Imperatriz sempre foi um destino de férias pra mim, de passar fim de ano e tal. Tem muitos anos que eu não vou lá, porque meu pai faleceu em 2020. E aí, desde então, os meus laços com a cidade diminuíram. Ele era a minha única família lá.
Mas assim, falando de Brasil e de mercado de comunicação, ser maranhense me ajudou, cara. Eu lembro muito que quando eu fui procurar esse estágio, tava na faculdade, já tinha estagiado em outras áreas, tipo em produção de livros e tal, mas jornalismo esportivo foi o primeiro. Foi quando eu cheguei no Esporte Interativo, o cara pegou meu currículo e falou “pô, tu é do Maranhão?”
Aí eu falei: sou. E eu, por acaso, acompanhava muito o campeonato maranhense nessa época. Era 2013, 2014. Eu assistia os jogos, dava um jeito de assistir. Lembro que o Imperatriz fazia umas transmissões no site, umas coisas horrorosas. Eu sempre acompanhava. E aí ele falou “pô, porque a gente tá precisando de nordestinos que morem no Rio.”
“Eu falei, pô, então você acertou na loteria, né?” É porque o Esporte Interativo tava criando, na época, um canal chamado Esporte Interativo Nordeste, que foi um canal que durou alguns anos e eles precisavam de produtores que acompanhassem e gostassem de futebol nordestino pra trabalhar exclusivamente com isso, só que a produção da empresa era no Rio.
Então era muito específico, né? E aí foi sendo imperatrizense que eu consegui minha primeira vaga e acho que minha vida seria radicalmente diferente se eu não tivesse conseguido. Eu acho que nem todo mundo precisa emigrar, nem todo mundo precisa vir pro Rio pra conseguir um emprego. Eu acho que em 2013 talvez isso fosse verdade.
Porque, de fato, a geografia limitava muito as oportunidades. E eu refletia sobre isso na Globo também. Eu ficava pensando “cara, eu comecei minha carreira como repórter no Rio de Janeiro, cobrindo Flamengo, Botafogo, Fluminense e Vasco na primeira divisão. Só porque eu sou do Rio.”
Porque se eu tivesse nascido em Resende, que é uma cidade a duas horas daqui, eu teria começado a minha carreira cobrindo o Resende na Série D do futebol brasileiro. E aí, o meu caminho, talvez, com seis anos de carreira, eu conseguisse ser realocado pro Rio pra chegar no ponto em que eu comecei a minha carreira.
Então eu acho que a geografia limitava muito, e limita muito várias oportunidades. Mas, de novo, eu sou um otimista em relação às possibilidades da internet. Assim, não a talvez viralizar e virar o Fred Desimpedidos e ser a pessoa mais famosa do Brasil, mas eu acredito muito num jornalismo de nicho, bem feito, bonito e, se possível, com um cordão em volta de pessoas que consomem o seu conteúdo e gostam tanto dele a ponto de te pagar, por exemplo.
Porque o mercado de criadores norte-americano, por exemplo, ele funciona muito numa espécie de venda direta. O cara gosta tanto do teu conteúdo que ele te paga pra você fazer essa parada. E aí você não precisa de veículos, você não precisa viralizar completamente, ser a pessoa mais famosa do Brasil pra se viabilizar financeiramente.
E você não precisa depender só de publicidade, alcançando pessoas muito grandes. Você consegue criar uma comunidade forte que vai te manter na tua carreira. E eu acho que, sobretudo, entre aspas, criadores locais, né? Eu acho que o fortalecimento dessa comunidade é mais importante do que o viral.
Eu acho que o nosso mercado tá caminhando pra isso. Hoje já tem vários criadores que sobrevivem disso. Então eu acho que é o caminho que eu tô interessado nesse momento. O que eu faço, no fim das contas, é meio que pra isso. Eu acho que essa é uma possibilidade pra quem mora longe dos grandes centros. Não acho que você precisa se mudar pra São Paulo pra conseguir viabilizar sua carreira de jornalista ou condená-la a só fazer coisas menores, sabe? Acho que a internet tá aí e existem milhões de possibilidades.
Leonardo Alves:
Na tua visão, tanto de torcedor quanto de profissional da comunicação esportiva, o que falta hoje na Seleção Brasileira para alavancar resultados melhores, desempenho melhor?
Andrey Raychtock:
Cara, eu acho que a Seleção Brasileira encontrou a realidade. Não só na Seleção Brasileira, os times brasileiros todos. Eu acho que o futebol se desenvolve cada vez mais em todos os cantos do mundo, de forma até globalizada. Todo mundo vê. Esses dias eu estava vendo os melhores momentos de Rússia e Brunei para fazer um vídeo. Então assim, você consegue ver todo o futebol do mundo inteiro e desenvolver o futebol no mundo inteiro. Então eu acho que no fim das contas a gente está num mundo em que o futebol de seleções perdeu espaço e a formação de jogadores orientada para a Seleção Brasileira já não é mais uma realidade.
Os nossos jogadores, eles hoje são formados para que virem peças muito boas de clubes específicos que jogam em modelos específicos. E aí talvez você perca esse sonho de jogar na seleção brasileira, que era uma coisa nos anos 90 e hoje em dia é uma coisa muito menor, porque esses moleques já estão realizando o sonho deles jogando uma liga dos campeões, sabe?
Então eu acho que todo o ecossistema do futebol foi para um lado, porque o futebol de seleções é menos importante, tanto na cabeça das pessoas, quanto como negócio. Isso se reflete no nível dos jogos, porque não é só a Seleção Brasileira que é ruim. Você assiste muitos jogos, amistosos principalmente, de seleções europeias e o jogo é intragável.
E você assiste um jogo do Manchester City, do Barcelona, do Real Madrid, o jogo é maravilhoso. Por quê? Porque o esporte se desenvolveu do ponto de vista físico e tático de uma forma que as pessoas precisam treinar muito, dentro de modelos muito específicos e muito fechados. E, cara, quando você reúne vários jogadores a cada três meses e fala “joguem desse jeito” pra jogadores que jogam em outros modelos, é muito mais difícil do que era antigamente.
Então eu acho que o ecossistema mudou, o futebol globalizou, o talento já não significa tanto quanto significava antes, porque você tem um futebol mais baseado em esquemas que prendem jogadores muito mais do que soltam. Então, eu acho que é uma conjunção de fatores.
Andrey Raychtock:
E aí tem, lógico, pra mim, o fato que afasta as pessoas mais do que o futebol ruim, é que o jogo é chato. Cara, assistir a Seleção Brasileira é um saco; Tem que ser muito “cracudo” de futebol pra conseguir assistir um jogo que não seja a Copa do Mundo, Copa América.
A gente é maluco, tudo bem. A gente vai ver Brasil e Bolívia, um a um, jogo horroroso, na altitude. Mas as pessoas normais não conseguem e não vão conseguir, porque o futebol não é visualmente mais tão atrativo quanto era o futebol do Brasil, especificamente. E eu acho que não tem solução pra isso, tá?
Eu não acho que a gente vai voltar a ter um momento em que a gente tenha cinco craques jogando um futebol bailarino, driblando todo mundo, porque eu acho que o futebol não permite mais esse tipo de coisa. E quando permite, é porque os esquemas táticos montados no time permitem que os jogadores joguem daquela forma. É só ver City tocando bola, é só ver o Real Madrid do Ancelotti.
E eu não acho que seja possível replicar isso em uma seleção. Pelo menos nenhum treinador provou que é. A gente viu o Fernando Diniz tentando fazer o futebol dele no Brasil, a gente viu a desgraça que foi. Eu gostaria muito de ver, por exemplo, o Guardiola numa seleção. Porque se alguém consegue fazer isso, é ele.
Só que eu não acho que é a realidade de hoje. É muito difícil, cara. Como é que você vai treinar?
Leonardo Alves:
Qual é o teu modo favorito de assistir aos jogos? É em casa, é no estádio, é no bar? Como você prefere acompanhar as partidas?
Andrey Raychtock:
Cara, assim, eu não sou muito de estádio. Até porque o meu time joga no estádio Frei Epifânio D’Abadia, muito distante de mim. Então eu não posso dizer que eu sou um frequentador do estádio. Eu fui muito na vida, a trabalho principalmente. Eu sempre trabalhei com isso, né? Então eu acho que o meu lado torcedor foi um pouco eclipsado pelo trabalho.
Mas assim, pra assistir um jogo de futebol, eu prefiro em casa. Não gosto de ir ao bar. Eu acho que se perde muito o que tá acontecendo ali. Se for um jogo que eu não me importo, aí, pô, encontrar os amigos, tomar uma cerveja, beleza. Mas, em geral, eu prefiro ficar sentadinho aqui, ver o jogo, entender o que está acontecendo, entender as histórias.
O que me interessa nos jogos hoje, depois de muito tempo, são as histórias que estão sendo contadas ali no campo. Quais são os elementos, e eu acho que é um pensamento muito de jornalista, porque o nosso trabalho, no fim das contas, é passar a semana contando histórias para o jogo que vai acontecer no fim de semana, e quando o jogo passa, a gente passa a semana contando as histórias do jogo que aconteceu. Então acho que minha cabeça tá muito orientada pra isso.
Se eu não me importar com o jogo, beleza, vamos pro bar, vamos beber, e o jogo é um acessório pra que você encontre seus amigos. Mas em geral eu prefiro ficar nerdzinho assim.
Leonardo Alves:
Cara, nisso de contar histórias também, a gente deu uma olhada em alguns textos do teu médium, né? E lá a gente se deparou com alguns textos bem sentimentais e tudo mais. A gente queria saber se você ainda escreve sobre esse tipo de tema.
Andrey Raychtock:
Não, não. Cara, isso aí era adolescência. Adolescência é um período pesado da vida. E eu era um adolescente muito chato, assim. Porque eu acho que a adolescência é o período da vida em que você tem tempo pra mergulhar culturalmente em muitas coisas que a vida adulta não te permite. Então eu acho que o momento de ler livros profundos e tentar insistir em bandas que você não gosta de primeira, mas você fala “não, eu vou gostar desse rock progressivo aqui, nem que eu tenha que ouvir 25 vezes até gostar” . Eu acho que a adolescência é esse período. A gente tem na nossa cabeça quem a gente quer ser. Eu quero ser um cara que lê livros difíceis. E aí você insiste.
Hoje, cara, não dá tempo. A vida corre, a vida te atropela. E eu acho que eu era esse moleque na adolescência. Eu era uma pessoa que tentava muito. Eu pegava livros que claramente não eram pra pessoas da minha idade e ficava tentando entender o que o cara queria dizer. E eu acho que aqueles textos são reflexos disso, né?
Eles eram de um blogzinho que nem existe mais, eu resgatei alguns que não eram tão terríveis e coloquei no medium. Mas assim, acho que adolescência é o período pra você fazer esse tipo de coisa, né? Quem persiste nisso acaba virando artista. Mas eu acho que eu não tinha muito brilho pra fazer esse tipo de coisa não, pra ficar bom.
Leonardo Alves:
Ainda sobre textos: Hoje certamente teu conteúdo é muito mais voltado pro audiovisual, mas a gente vê também que na tua carreira, teus textos, teus roteiros mostram muito respeito pela escrita. Na tua visão, o jornalismo continua mais vinculado às letras, às palavras ou dá pra dizer que hoje o áudio e o vídeo se sobressaem?
Andrey Raychtock:
Cara, eu acho que assim, do ponto de vista de viabilizar um trabalho e transformar o seu trabalho em um negócio e alcançar muita gente, eu acho que não é um grande momento pra texto. Mas assim, existem pessoas que escrevem na internet e estouram e contradizem completamente o que eu tô falando.
Existem até pessoas em 2024 que publicam livros e conseguem fazer sucesso, contra todas as probabilidades. Mas assim, eu acho que não é um grande momento. Se o seu pensamento ao criar um projeto é viver disso e ganhar dinheiro, tentar uma via do texto é tentar uma via mais difícil.
Se é a forma que você se expressa e você vai ser feliz assim, pô, aí, meu amigo, faça o que você quiser. Se você quiser fazer origami, faça origami. Mas eu acho difícil. Eu acho que não é um grande momento pro texto, não. Assim, por várias razões, né? É muito fácil a gente culpar a nova geração que não lê. Mas, cara, eu leio muito menos também do que eu lia antigamente. Então não é culpa só da nova… a minha cabeça também tá frita no TikTok, sabe? Eu com 31 anos de idade… Eu não consigo ler livro, eu leio a duras penas, eu preciso me esforçar ativamente, parar meu dia e falar: vou ler um livro.
Porque na vida adulta é um grandíssimo luxo, né? Então eu acho que a nossa cabeça também, como consumidor, tá um pouco viciada. Eu acho que o livro virou, ou talvez sempre tenha sido, e a gente não percebeu, uma coisa meio de nicho de quem tem esse hobby, né?
E aí se isso sustenta um mercado? acho que sustenta, mas tem que ser muito bom. Eu acho difícil pra caramba. A gente tá vendo nos Estados Unidos, por exemplo, um movimento de newsletter, que é muito interessante, que aqui no Brasil tá chegando devagar, em que a galera assina pra receber textos de um autor toda semana e paga esse cara, e esse cara vive disso.
Os americanos tão mais avançados que a gente porque o mercado deles é um pouco mais desenvolvido, mas já tem gente no Brasil fazendo isso, sabe? Eu acho, por exemplo, o Copa Além da Copa, que eu citei anteriormente, é um que tem uma newsletter, e aí… o pessoal antigo da Trivela, que criou a Trivela, também tá com uma newsletter nova. Eu acho que o caminho pro texto é esse. É texto por assinatura. De novo dentro dessa lógica de gosto tanto do que esse cara faz, que eu quero pagar pra ele fazer. É publicidade.
Leonardo Alves:
Qual foi o momento mais emocionante da tua vida envolvendo futebol?
Andrey Raychtock:
É difícil, porque geralmente vai ser trabalho, né? Vai ter trabalho no meio. Eu acho que, pra mim, as grandes emoções estão ligadas a fazer coisas incríveis no esporte. Eu acho que um dia que me marcou muito na minha vida, que é de trabalho, infelizmente, mas que me marcou muito, foi quando eu fui pro Egito assistir a final da Liga dos Campeões na aldeia do Salah [jogador do Liverpool nascido no Egito].
Era o sonho da minha vida fazer essa pauta. E aí, quando eu fui designado para ser correspondente no Marrocos, eu fui com isso na cabeça. Falei “cara, eu preciso dar um jeito de fazer a Globo me mandar pro Egito”. Eu só queria ir pra aldeia, eu queria conhecer. Porque eu nunca fui muito de acompanhar o Liverpool, mas eu acho que a figura do Salah sempre me emocionou, por ser um cara de um país que sofreu muito com o futebol, e o cara, de repente, vira ídolo maior de um país.
E tem o fato de ter vindo de uma aldeia muito pequena e tal. Eu sempre tive esse interesse em visitar lugares meio ermos. E aí eu consegui e cheguei lá e assisti a final da Liga dos Campeões, Liverpool vs Real Madrid, na vila dele. O pessoal montou uma festa pra assistir. Foi um dia muito marcante. Infelizmente, o resultado foi negativo porque foi a Liga dos Campeões que o Liverpool perdeu. Não foi a que o Liverpool ganhou. Eu fui, eu dei azar. E o Salah se machucou no primeiro tempo e saiu do jogo. Mas eu acho que aquele dia foi um dia que marcou muito a minha vida. Significou bastante coisa do futebol pra mim.
Leonardo Alves:
Andrey, a gente sempre finaliza as entrevistas com uma espécie de quadro nosso, uma brincadeira, que é basicamente o indica e contraindica, que é o entrevistado, entre qualquer coisa do mundo, pode ser uma obra, um hábito, um lugar, um prato, qualquer coisa, fazer uma indicação e uma contraindicação. Qual é a tua indicação? E qual é a tua contraindicação, Andrey?
Andrey Raychtock:
Cara, já que o tema é Maranhão, eu gostaria de indicar a todos que nunca fizeram isso, que façam a travessia a pé dos Lençóis Maranhenses. Não sei se vocês já tiveram a oportunidade. Porque tem o ir aos lençóis, que é o ir aos lençóis, ficar de bonito tirando foto no Instagram.
E tem o ir aos lençóis! e fazer a travessia a pé de cinco dias. Pode fazer de menos dias, mas eu fiz a de cinco, esse ano, inclusive. E é uma experiência realmente transcendental. Parece que você tá em Marte, não parece uma paisagem da Terra. E eu acho que é um parque que todo mundo lá, os moradores e tal, falam até com medo, com receio de que aquilo acabe por causa de mudanças climáticas, aquecimento global e do mar entrando pros lençóis.
Porque parece que, eu não sei exatamente os dados, mas parece que a área total do parque natural tá diminuindo. Mas é um contato com a natureza que eu não sei se existe em outro lugar do planeta. Então, uma experiência que eu tive esse ano, eu indico pra todo mundo que tiver a oportunidade, é que vá aos lençóis, mas façam uma travessia.
Não sei se vocês vão andar durante cinco dias no deserto, parar ali nos pontos de apoio, que são casas de moradores adaptadas pra receber gente. É uma experiência muito maneira.
Leonardo Alves:
E a contraindicação qual é?
Andrey Raychtock:
Bom, cara, a minha contra indicação é, que você que toma café, não tome café com açúcar, nem com adoçante, amigo. É uma experiência difícil. É uma transição complexa, mas quando você terminar esse processo, que dura alguns dias, você vai perceber o prazer de tomar um café de verdade.
É papo de merda, né? Papo de esbobe. Mas, cara, se você tiver uma oportunidade, pare de tomar café sem açúcar, que você vai ver que um mundo novo vai se abrir pra você.
Leonardo Alves:
Eu cheguei a tentar uma vez e ainda não foi dessa vez que eu consegui, cara.
Andrey Raychtock:
É diferente pra cada pessoa, mas uma hora você chega lá.
Leonardo Alves:
Tá certo. Todo mundo costuma dizer isso mesmo, que depois de acostumar sem açúcar, nem entra, nem desce mais o café adoçado, né?
Andrey Raychtock:
E aí você vira uma pessoa insuportável, porque aí você vai falar, não, Pilão eu não tomo. Esse Melita aqui eu não vou tomar. Eu preciso do meu café artesanal. Mas é uma trilha que nem sempre vale a pena percorrer, mas eu contraindico você não fazê-la.
Paulo Vinícius Coelho:
Eu tava acompanhando a entrevista e realizando outras atividades aqui. Mas foi ótimo acompanhar o papo. Andrey Raychtock, obrigado. Foi ótimo saber que tu és maranhense e és de Imperatriz. Eu nasci em Imperatriz também. Somos conterrâneos.
E, na verdade, eu queria fazer uma última pergunta. Não estava no script, mas no jornalismo cultural dos anos 90 se fazia muito. E eu achei que caberia, porque eu percebi vocês dois muito à vontade no papo. Então, eu acho que vale perguntar o seguinte: Andrey Raychtock, tem alguma coisa que você gostaria de dizer e não teve oportunidade, alguma pergunta que não foi feita e que você gostaria de responder?
Andrey Raychtock:
Cara, eu acho que a única coisa que eu tenho a dizer é: quem viver verá o gigantesco Cavalo de Aço, o terror do Maranhão do Sul, ganhar a Série D esse ano.





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