
Meus amigos bem que me alertaram, durante dias, sobre a importância de escrever algo em consonância à efeméride dos 30 anos de passamento do Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, o Maestro Soberano; tom maior das nossas glórias.
Falhei. Não fui tão pontual quanto o desejado e, por infelicidade dolosa, deixei escapar o 8 de dezembro. Um 8 de dezembro qual aquele em que, na mesma Nova York onde Tom Jobim não resistira às complicações pós-operatórias da remoção de um tumor aparentemente inofensivo, John Lennon fora atingindo com cinco tiros.
Mas John é John e Tom é Tom – com o perdão do trocadilho. Sobre Tom, nunca será tardio mencioná-lo, tampouco lembrar a força de suas canções. A obra de Tom Jobim é um testemunho da riqueza e da diversidade da música brasileira, com o impressionismo francês, a marcha-rancho, o choro, toda a tradição de gêneros populares nacionais – e isto, pois, sintetizado na vitalidade artística de Villa-Lobos para a gênesis do Tom Jobim que conheceríamos – e, mais especialmente, o samba, imiscuidos, resultando na abrangência de seu cancioneiro.
É muito mais do que a bossa nova. A filiação é justificada – Tom foi um dos seus próceres, ao lado de Vinícius de Moraes e João Gilberto – mas a coisa é além: a obra jobiniana aventura-se por peças orquestrais, afora as reentrâncias brasileiras, de aspecto rural, evidentes em uma fase posterior do seu trabalho.
A carreira de Tom Jobim pode ser definida em cinco fases: na primeira, há predominância dos sambas-canção, populares no fim dos anos 1940 e início dos anos 1950. A figura de Newton Mendonça, um dos primeiros parceiros do compositor, é central. Músicas um pouco obscuras, como Incerteza e Luar e batucada fazem parte deste primeiro repertório. Newton, vale dizer, letraria anos mais tarde trabalhos como Meditação e Desafinado.
Mendonça ainda acompanharia Jobim em sua segunda fase, quando do surgimento das canções que prefiguraram a bossa nova nas rádios e na vida nacional. A parceria com Vinícius de Moraes surge assim, logo na metade dos anos 1950, quando os dois trabalharam na confecção da trilha sonora da peça Orfeu Negro.
A bossa nova, dali por diante, seria alçada ao patamar internacional. Tom não ficou de fora. Virou star. A combinação de sua música com o cool jazz americano é um dos mais belos momentos da canção no século XX. Menos por uma validação do centro fonográfico do ocidente, os EUA, e muito mais pelo fulgor da arte brasileira em seu âmago extramundo.
A aproximação com o cool jazz resultaria na terceira fase da obra de Antônio Carlos Jobim, com discos produzidos e lançados no mercado internacional. Nascem, já na segunda metade dos anos 1960, trabalhos como Tide, Wave e Stone Flower. Nesta mesma época, o celebrado álbum ao lado de Frank Sinatra cristalizou Tom no alto quilate de músicos do planeta, posição da qual sempre se esgueirou. Satisfar-lhe-ia muito mais – e isto o próprio afirmou em entrevistas – que apenas os brasileiros reconhecessem esta grandeza.
Os últimos dois momentos artísticos de Tom apostam em seu lugar de origem. Matita Perê e Urubu têm, nas harmonias estilizadas das canções e no oculto do mistério de cada arranjo, o Brasil das flores, da mata fechada, do folclore e do passaredo. O país do barro, das chuvas e de Guimarães Rosa. A mim me interesse sobremaneira a canção desta época, já nos anos 1970. A era de Lígia, Ana Luiza, Correnteza e Nuvens Douradas.
A partir da metade dos anos 1970, Jobim chegaria ao seu derradeiro ato, de teor mais celebrativo, com discos em colaboração com antigos e novos parceiros, como Miúcha, Vinícius, Edu Lobo e Gal Costa. No fim dos anos 1980, uma compilação de canções esparsas compostas para diversos projetos veio a ser o seu álbum mais vendido, Passarim. No repertório, além da faixa-título, clássicos como Anos Dourados e Luiza.
Em sua última década de vida, veio, por fim, a quadra de ovações, no Brasil. Jobim viveu, por anos, em contendas com a crítica musical, que, de modo maledicente, insistiu em considerá-lo um braço do imperialismo americano; espoliador da cultura nacional. Grave equívoco.
Me estendi mais do que o desejado, em um texto, que, em princípio, era destinado a ser breve. Mas não me contive. Nada me fez mais feliz que Tom. É encantador ver a flama de sua arte aqui, ainda. A comoção que Elis e Tom, o álbum – e, posteriormente, o documentário –, foram capazes de causar. Mesmo o frisson da pasteurizada, embora graciosa, Girl from Rio, de Anitta.
Há algumas horas, uma moça jovem e muito linda cantou em um bar, verso a verso, Eu te Amo. Jansen, também muito jovem, exulta com Dindi, e não posso esquecer Maricilde cantando Fotografia. Antônio Brasileiro é o céu além do céu.





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