
Dia desses, estava caminhando sem olhar para a frente. A vida estava meio parada e acabei tropeçando numa memória. Quando me dei conta, parei diante de portões enormes, trancados. Consegui enxergar pelas frestas: era o jardim que semeamos!
Já faz um bom tempo que não piso naquele lugar. Você ainda o frequenta? Eu queria saber…
Logo tentei entrar, escancarar as portas, correr para dentro. Sem êxito. Pensei até em arrombar o portal, ou escalar pelas grades, talvez. Alguns passarinhos apareceram. Me aconselharam a ficar onde estava, mesmo. Percebi que os conhecia, da época em que eu e você andávamos juntos por ali. Se lembra de quando deitávamos para conversar sobre cada um deles?
Sempre estiveram ali, os passarinhos. Nos orbitando, nos saudando, nos celebrando. Vários pararam de voar por perto de mim desde que nos separamos. Eles ainda batem asas junto a ti? Fiquei sabendo que alguns sim. Fico feliz. Eles sempre tiveram belos cantos, cantos que você merece ouvir.
Barrado, então, passei a imaginar como andava aquele nosso jardim. Ainda se recorda de como tudo começou? Eu, afoito, a vi por uma janela e quis saltar por ela. Um convite estúpido, raso, com pouca razão de ser. Incrivelmente, você aceitou. Foi a primeira das tantas surpresas que tu me trouxeste.
De mãos dadas, andamos pelo mundo prestando atenção. A cada sol que nascia para nós, o brilho da juventude queimava ainda mais ardente. Fomos aliados, cúmplices, até, naquele nosso amor rebelde que tinha pressa de colher os frutos de sementes ainda recém-plantadas.
Como era bom aquele tempo. Mais tarde, preparei aquele baú que te dei de presente. Deixei ele bem cheio das nossas memórias. Da mesma madeira, depois, construímos nossa casa na árvore, de onde enxergávamos tudo. A cada dia, o jardim ficava mais verde, mas também ficava rosa, azul, amarelo, vermelho… todas as tantas cores das nossas aventuras.
Enquanto lembrava de tudo isso, aumentava a tristeza pela negação da minha entrada. O agridoce da nostalgia não parecia completo se eu não saltitasse uma vez mais por aquele jardim. De repente, lembrei que carregava um papel no bolso. Amassado, desajeitado como eu, mas era simples como nosso amor, então pensei que serviria para algo. Queria fazer um desenho, ainda que eu não soubesse desenhar. Mas… ainda conseguiria retratar tudo aquilo?
Tudo bem, vez ou outra tenho vislumbres daquele solo. A memória me trai, como costuma acontecer com quase tudo. Mas o coração lembra bem de como era. Havia altos e baixos, como uma bela melodia. Descobríamos dia após dia um pouquinho mais sobre essa loucura chamada viver, essa outra loucura chamada amor, e aprendíamos que, na verdade, eram a mesma coisa e fazia tanto sentido. Você ainda escuta aquele bailar das nossas almas de vez em quando?
A minha mão trêmula comprometia qualquer tentativa de desenho. Pensei em escrever algo. Mas o quê? Talvez te atualizar da minha vida? Parecia indelicado, mas eu queria que você soubesse de minhas recentes andanças.
Percebi que meu tempo estava acabando. Quando se mergulha em uma memória, é preciso saber que a força do presente te puxa com veemência. Tratei de me apressar. Muitos momentos passaram por meus olhos e buscava escolher o que seria perfeito para te escrever. Sem sucesso…
Agonizei quando percebi que era tarde. Algo maior me distanciava e comecei a subir. Não queria aceitar aquela fuga, mas foi então que ali, de bem longe, pude finalmente perceber. Não era um jardim, era um mundo.
Nesta breve epifania, algumas coisas ficaram claras para mim. Criamos um mundo nosso. Só nosso. Ele não é habitado há um bom tempo, mas estou certo de que não importa que outros planetas eu percorra, conheça, habite, floresça e deixe para trás: há algo do que germinamos no passado comigo.
Dos frutos que colhi, quantos não foram inestimáveis para poder nutrir novas raízes. É impensável que minhas histórias desde que seguimos rumos diferentes não tenham um pouco de você. Imagino que para ti também venha sendo assim.
Estou ciente de que errei, de que faltou a mim convicção, de que você merecia algo muito melhor. Bom, talvez agora seja tarde para dizer qualquer coisa. Notei que naquele nosso mundo existe toda uma parte que desconheço. Imagino que seja aquilo que você leva de nós, mas também aquilo que eu não posso mais alcançar. Me resta pensar que sejam boas coisas, assim como desejo que, do seu lado, imagines que para mim ficaram mais risadas do que choros, porque realmente foi assim.
Fico cada vez mais distante e não tenho tanta certeza de praticamente nada. Mas realmente me alegra ver os pássaros voando, sumindo no horizonte, saindo de meu controle e, espero eu, sendo vistos por você do outro lado, ou de onde mais você estiver.
Em um último esforço, dou uma boa olhada no nosso pequeno grande mundo e consigo finalmente rabiscar algo. É uma pergunta, que sequer consegui pontuar direito. Faltou aquela bolinha na parte de baixo da interrogação. Espero que a solitária lágrima que caiu no papel tenha marcado bem ali. Jogo para longe, esperando que caia em algum canto onde você possa encontrar. O que me resta agora é torcer pra que um dia eu saiba a resposta dessa que certamente é minha maior angústia:
Ainda posso te chamar por aquele apelido?





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