A segunda abolição


As aflições e venturas referentes à discussão sobre a escala 6×1, em curso, hoje, no Brasil, são minhas. São do interesse de todos os trabalhadores. Mais: de uma sociedade civil que se queira respeitável e solidária quanto ao julgo do próprio destino. A amplitude do debate me parece dar sinais de um país que, entre…


As aflições e venturas referentes à discussão sobre a escala 6×1, em curso, hoje, no Brasil, são minhas. São do interesse de todos os trabalhadores. Mais: de uma sociedade civil que se queira respeitável e solidária quanto ao julgo do próprio destino.

A amplitude do debate me parece dar sinais de um país que, entre espoliações e ruídos, permanece capaz de não esmorecer seu elã crítico. O tema tem avançado sobremaneira nas últimas semanas, o que nos é boa nova. Ganha volume e densidade.

Em sentido técnico, a reforma da jornada de trabalho está prestes a se robustecer na fase de definição de agenda das políticas públicas, a partir de diálogos entre a classe trabalhadora, especialistas e legisladores.

O que se verá como resultado, não sabemos. São muitas as forças operantes na manutenção do atraso brasileiro. Envergadura tamanha, identificável em nossas elites agrárias e econômicas; bem como na tecnocracia racionalizante e na retórica das classes médias sideradas por pânico moral.

À luz destes setores, que outrora nos legaram o mal-estar político da última década – com os governos Temer e Bolsonaro –, o udenismo ressentido desaguado na Ditadura Militar e, sob as proporções históricas devidas, o rechaço à abolição negra, mantém-se o cenho de nossos males. A justa forma de nossas misérias. O contratempo de uma segunda abolição.

Por segunda abolição, quero me referir a um projeto de Brasil que suplante o desencanto. Desencanto mais que observável na rotina de explorações de brasileiros e brasileiras legados à naus sob o vento errante da desigualdade. Dessituados de uma agenda cidadã, em um ambiente de desaparecimento do mundo do trabalho, nas franjas de um capitalismo adoecido, apartados da promessa de qualquer bem-estar social.

Quem poderá subverter as aspirações de uma parcela considerável de brasileiros que têm pressa por uma outra vida? A extrema-direita avança, insidiosa, em sua retórica da efetividade, pormenorizando olhos distraídos e rostos cansados; mentes sob exaustão emocional, pressionadas pelas lacunas de uma realização subjetiva diariamente mais vã.

Medito internamente sobre o tema e faço votos de que, como sociedade, não encaremos as incompetências nacionais como sina.

Contra todas as energias em movimento no coração das trevas, o fim da escala 6×1, nas propostas da deputada federal Erika Hilton – preta e trans, eleita pelo PSOL – e na defesa da mesma pelo vereador eleito este ano, no Rio de Janeiro, Rick Azevedo – também do PSOL – se desvela uma visão madura e mais abrangente de cidadania, libérrima em ambições, distante do ressentimento e do passadismo de grupos cuja ambição é fazer a esquerda ter vergonha de si.

A todos esses, faço eco às palavras de um soldado apeado pelo remorso diante da brutalidade do regime militar brasileiro, durante o interrogatório e a prisão de Eunice Paiva, magistralmente interpretada por Fernanda Torres no filme Ainda Estou Aqui:

Eu não concordo.

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