
Ainda Estou Aqui é uma ótima notícia para o cinema brasileiro. E isso não se deve só ao brilhantismo de Fernanda Torres e Selton Mello ou a boa adaptação feita pelo diretor Walter Salles do livro de Marcelo Rubens Paiva sobre a sua mãe, a advogada Eunice Paiva. Além do potencial estético e da importância histórica, merece comemoração o fato de que o público tem ido em peso ao cinema assistir ao filme. A previsão é de que o longa distribuído pela Sony seja exibido em 189 cidades e 610 salas. Até então, mais de 350 mil pessoas assistiram a obra.
Quando um filme nacional da envergadura de Ainda Estou Aqui tem bom desempenho, todos ganhamos. O realizador, os diversos profissionais envolvidos na produção e os exibidores, que enfrentam custos absurdos para manter suas salas. E se é verdade que o mercado tem sido muito modificado pela ascensão do streaming e de outras formas de exibição, também é incontestável que o “cinemão’’ continua protagonista. É a janela principal; o sonho da maioria dos realizadores e, também, a principal fonte de observação e análise dos órgãos governamentais.
Aliás, tem crescido a cobrança para que a ANCINE e outras instituições apreciem com mais atenção o movimento realizado por festivais, mostras, canais de televisão, plataformas e outras janelas. Por enquanto, é a análise das salas comerciais, feita pelo Observatório do Cinema e Audiovisual, o OCA, vinculado à ANCINE, que nos permite enxergar o panorama do nosso cinema. E os dados são desalentadores.
Em 2019, último ano antes da pandemia, mais de 175 milhões de pessoas foram ao cinema no Brasil. No entanto, pouco mais de 24 milhões de espectadores assistiram a filmes brasileiros, o que corresponde a apenas 13,6% do público total. Esse número é considerado ínfimo quando comparado a mercados como a França, onde a participação de mercado dos filmes nacionais ultrapassa 30%, e Japão ou China, onde mais da metade do público consome produções locais.
O que já era ruim em 2019, se tornou ainda pior com a pandemia, o fechamento das salas e as dificuldades enfrentadas pelo setor para a retomada. Em 2023, dos pouco mais de 114 milhões de pessoas que foram aos cinemas, somente 3 milhões e 700 mil assistiram a obras nacionais. Ou seja, 3,2% do total.
Os dados supracitados levantam uma série de questionamentos feitos há muito tempo por estudiosos do audiovisual. Talvez o principal deles seja: o que fazer com a imensidão de obras que não conseguem acessar às salas de cinema ou não conseguem proeminência diante da competição injusta com franquias estrangeiras bilionárias?
Outras fontes de escoamento, como os festivais e as mostras de cinema, historicamente cumprem o papel de garantir o mínimo de espaço para produções independentes. Contudo, já é possível observar que esses eventos, assim como outros ambientes de circulação, não conseguem atender a procura. Há poucos dias, o Festival de Brasília, o mais antigo do país, informou que exibirá 80 filmes na sua programação. É pouco diante dos mais de mil inscritos.
Tenho acompanhado nos últimos anos, como parte da equipe organizadora do Festival Guarnicê de Cinema, a preocupação das curadorias deste e outros festivais para abranger a maior quantidade de obras possíveis nos eventos, mas, falta espaço. E vai faltar cada vez mais.
As leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc – poderosos mecanismos de fomento estabelecidos para mitigar os impactos da pandemia no audiovisual – têm destinado a maior parte dos recursos para a produção, enquanto os editais de distribuição e circulação são moderados. Esse descompasso não se limita a essas duas leis. É histórico: o Estado brasileiro destina pouca atenção – e dinheiro – para a distribuição e a circulação de obras. Isso sem falar na formação e na preservação, outros dois pilares do setor. E o que fazer para corrigir essa deficiência?
É preciso considerar que o Ministério da Cultura está se reestruturando após o desmonte promovido pelo governo Bolsonaro. Há boas iniciativas sendo realizadas pela equipe de Margareth Menezes, a exemplo do retorno da cota de tela e da criação de uma plataforma de streaming nacional, empreendimento que poderia ser replicado pelos governos estaduais, com cada estado dando atenção especial às produções realizadas no seu território.
No entanto, o MINC e o Congresso ainda são morosos nas resoluções que envolvem o que, hoje, talvez seja a principal preocupação do setor: a regulação das plataformas de streaming. Elas lucram muito com o mercado brasileiro, pagam pouco ou nada de Condecine (Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional) e não possuem a menor preocupação em ofertar um catálogo consistente de produções brasileiras.
Há quem argumente que o público não deseja consumir o filme nacional. Não é bem verdade. Qualquer rápido estudo sobre o nosso mercado atesta que nossas salas são invadidas pelo cinema estrangeiro, num processo violento tocado pela força da grana e pela vontade norte-americana de nos dominar pela imagem. Afinal, cinema é, sobretudo, identidade, pertencimento. Por isso, a bandeira da formação de plateia para o audiovisual nacional, defendida com tanto afinco, há muito tempo, é crucial. É uma questão de soberania.
Embora o sucesso de “Ainda Estou Aqui” seja um caso inspirador, demonstrando o potencial do público brasileiro para abraçar produções nacionais de qualidade, a realidade é que filmes como este ainda são exceção. A indústria cinematográfica norte-americana, com seus grandes blockbusters e campanhas de marketing milionárias, continua dominando as bilheterias. De maneira emergencial, precisamos incentivar o surgimento e o fortalecimento de distribuidoras nacionais, tornar a abertura e a manutenção de espaços de exibição mais viáveis, apoiar a rede de cineclubes, retomar a linha de investimento para festivais e mostras. No plano ideológico, é preciso lutar contra o que Paulo Emilio Sales Gomes já denunciava: “a impregnação do filme americano ocupa tanto espaço na imaginação coletiva que adquiriu uma qualidade de coisa nossa na linha de que nada nos é estrangeiro pois tudo o é’’.





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