José Chagas é imprescindível


Acabo de receber uma mensagem de Juliano Amorim com a máxima: nunca é tarde para ler o fundamental. A frase parece ter vindo de modo a me consolar, dado que eu começaria este texto me lamuriando por ter demorado a conhecer a obra imprescindível do poeta José Chagas. Foi em 2020. Eu acabara de iniciar…


Acabo de receber uma mensagem de Juliano Amorim com a máxima: nunca é tarde para ler o fundamental. A frase parece ter vindo de modo a me consolar, dado que eu começaria este texto me lamuriando por ter demorado a conhecer a obra imprescindível do poeta José Chagas. Foi em 2020. Eu acabara de iniciar o meu estágio na Diretoria de Assuntos Culturais, o célebre DAC, da UFMA, local onde trabalho até hoje, agora como funcionário efetivo.

Entre os tantos causos relatados diariamente no Palacete Gentil Braga, casarão com mais de dois séculos de existência e sede do departamento de cultura da Universidade, o nome do escritor é frequentemente mencionado, especialmente por Marlene Barros, uma das mais talentosas figuras da história das artes maranhenses. Ela nos fala da delicadeza de Chagas e, com muito carinho, cita o poema que o escritor lhe dedicou. “Ele fez em segundos e me entregou num papelzinho!’’ declara, sempre com entusiasmo.

As estórias sobre o poeta contadas pelos meus colegas do DAC, onde ele trabalhou entre 1981 e 1994, e os poemas avulsos que eu lia pela internet, me fizeram um admirador – tardio, eu sempre achei – da obra de um dos mais frutíferos escritores maranhenses. Além de poeta, Chagas foi cronista por mais de sessenta anos em veículos como o Estado do Maranhão e o Jornal do Dia.

Contudo, a minha afinidade com Chagas só se estabeleceu definitivamente por meio da música. Ainda no início de 2020, eu observava, do balcão do Bar do Léo, espaço diminuto em tamanho e enorme em matéria de valor cultural, o CD amarelado cuja capa continha, em destaque, uma figura da Ponte do São Francisco. Demorei algum tempo, algumas idas ao bar, até pedir para que Leonildo me desse a oportunidade de conferir o disco. Era A Palavra Acesa de José Chagas, produzido por Zeca Baleiro.

Capa de A Palavra Acesa de José Chagas

“Já ouviu?’’ Leo me me perguntou. E depois se mostrou um pouco desapontado quando eu disse “não’’. Ouvimos nesse dia. E nesse dia – por intermédio das vozes de Nosly, Alê Muniz, Chico César, Tássia Campos, Fagner, Lula Queiroga e outros grandes nomes da música brasileira – eu tive a certeza de que José Chagas é, como eu disse no começo, imprescindível. Que pena eu ter perdido tanto tempo até reconhecer que precisava – é questão de necessidade mesmo – da obra de José Chagas.

Chagas tocando saxofone. Foto do acervo da família do poeta.

Neste 29 de outubro, Chagas completa (no presente, porque os poetas vivem eternamente) 100 anos. Em homenagem, o mesmo DAC, localizado no mesmo Palacete Gentil Braga onde o escritor trabalhou, promove uma exposição na Galeria Antônio Almeida que apresenta todos os livros publicados por Chagas, além de alguns objetos pessoais de imenso valor, como o seu saxofone, sua máquina de escrever, seu Título de Cidadão Maranhense e seus cordões da Academia Maranhense de Letras. 

Nauro Machado, Antônio Almeida e José Chagas. Foto do acervo da família de Chagas.

A mostra será aberta amanhã (30), às 18h30, com apresentações musicais de Cecília Leite e Talyta Luzo. Também serão exibidos os filmes “José Chagas – O Lavrador de Palavras’’, de Euclides Moreira e Geovani Guterres, e “Jardins Suspensos’’, de Euclides Moreira. Ocasiões como essa novamente me consolam e reafirmam: nunca é tarde para conhecer o fundamental, nunca é tarde para celebrar José Chagas.

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