Cinema, solidão e elo


O cinema é, por via de regra, uma experiência coletiva. Os que estão diante das câmeras sabem bem das dificuldades que um processo criativo isolacionista imputa em quaisquer produções, enquanto os que estão somente diante das telas, ou melhor, os ditos “espectadores casuais”, optam majoritariamente pela partilha de sensações que as salas de cinema propiciam,…


Certo Agora, Errado Antes (Hong Sang-soo, 2016)

O cinema é, por via de regra, uma experiência coletiva. Os que estão diante das câmeras sabem bem das dificuldades que um processo criativo isolacionista imputa em quaisquer produções, enquanto os que estão somente diante das telas, ou melhor, os ditos “espectadores casuais”, optam majoritariamente pela partilha de sensações que as salas de cinema propiciam, sejam elas divididas com amigos, familiares, romances ou simplesmente geradas pela egrégora das multidões.

Posso dizer que, sendo o que alguns classificam como “cinéfilo”, não me distancio muito dessas preferências. Gosto muito de estar acompanhado, sobretudo nos momentos que sucedem as sessões, e conversar sobre as impressões imediatas causadas pelo filme, além de ouvir os murmúrios apaixonados, enraivecidos ou até mesmo indiferentes dos grupos que testemunharam a mesma obra. Com o passar dos anos e o alvorecer da maturidade, passei a reparar nos momentos de intimidade que a solidão é capaz de engendrar quando entro em contato com a sétima arte, e o que essas ocasiões dizem sobre mim mesmo.

O isolamento social durante o processo pandêmico intensificou bastante meu relacionamento com o cinema, tanto em nível de espectador quanto nos níveis de estudioso e comentarista. A impossibilidade de deslocamento e a reclusão (quase) forçada fez com que eu buscasse alternativas que replicassem as vivências das quais eu acreditava estar sendo privado. Imagine eu, com dezoito anos recém completos e calouro na universidade federal, com uma ânsia de viver que provavelmente jamais adquirirei outra vez, observando as ruínas de um mundo que eu estava prestes a descobrir. Parte por egoísmo, parte por repúdio ao horror, a opção que me soou mais inteligente foi buscar pelo alento em cenários imagéticos, quase imaginários.

Janelas trancadas, rótulas fechadas e o volume no máximo; era essa a receita ideal. No ambiente externo aos filmes, eu criava uma duplicata falha, quase chula, das salas de cinema que me abrigavam anteriormente nas tardes de ócio; na diegese das produções, tentativas, quase sempre bem sucedidas, de alcançar por alguns instantes o que o resto da vida me guardava. Destaco sempre a primeira vez que assisti ‘Jovens, Loucos e Rebeldes’ de Richard Linklater, em uma madrugada de 2021, completamente sozinho. Estava me recuperando de uma cirurgia e fui consumido por uma energia que me é incomum até em momentos de saúde extrema, algo que, até então, jamais me permitiria sentir e expressar com integridade caso estivesse acompanhado.

Mesmo que algumas delas venham sendo quebradas inadequadamente, especialmente nas salas de cinema, as etiquetas sociais são limitantes. A alegria fervorosa é patética aos que a avistam, assim como o choro descontrolado parece histérico a quem o presencia. Ao meu ver, não há espaço para vergonha na relação entre espectador e a obra, e por conta disso, passei a acreditar que a solidão era essencial caso eu buscasse obter a “experiência cinematográfica plena”. Hoje, vejo isso como uma bobagem. Sim, boa parte de minhas sessões mais memoráveis estavam amplamente vazias e, sim, sigo acreditando que atingimos níveis emocionais mais enérgicos e permissivos quando desacompanhados, mas, com o tempo, passei a valorar o cinema como elo.

Existem vivências predecessoras que caracterizam cada filme que assistimos, assim como sempre há o que vem após o contato com a obra. Mesmo que a cadeira ao lado esteja vazia, jamais estamos plenamente sozinhos. O bem estar, a indignação e as outras inúmeras emoções em algum momento serão propulsoras dos diálogos ou das demonstrações que as produções causarão. Volto a falar sobre ‘Jovens, Loucos e Rebeldes’, mas de quando o reassisti cerca de um ano depois, dessa vez em conjunto, com alguns amigos da época. Observar pessoas do meu convívio entrando em sintonia com aquele filme que tanto se comunicou comigo em minha solidão fortificou não somente minha relação com o longa-metragem, mas também, e principalmente, meus elos com aqueles indivíduos.

Pensar sobre isso traz à tona diversas situações que as relações humanas agiram em concomitância com os fotogramas durante minha vida. Com esse mesmo grupo de pessoas, lembro de ver ‘Pânico’ de Wes Craven e me sentir bastante emocionado com a empolgação dos demais, que chegava a quase emular a minha empolgação quando assisti o filme pela primeira vez. Recordo também de todas as vezes que frequentei locadoras ou banquinhas de DVDs piratas com meu pai e pude observar, mesmo sem entender muito do que era dito, os debates com os atendentes dos locais sobre quais filmes ele deveria alugar ou comprar, o que me faz notar o poder que o cinema possui de pautar até mesmo as relações mais mundanas. Quando adolescente, as complicações e conflitos dessa fase eram suspensos com facilidade ao assistir filmes de terror com minha mãe e irmãs.

Das mulheres que amei, todas se conectaram comigo, mais cedo ou mais tarde, por meio do cinema. Me apaixonei por algumas que estavam nesse mesmo espectro da “cinefilia” que costumo participar, assim como me relacionei com outras que me apresentarem jóias que eu era incapaz de enxergar no que há de mais popular na sétima arte. A capacidade de compreender por quais as razões as lágrimas descem ao testemunhar de certas imagens só me foi concebida pelo elo, assim como a habilidade de saber quais as cenas as fariam gargalhar. Os filmes que vi completamente sozinho, comentei com todas elas, pois sempre me senti impelido a partilhar minhas paixões com meus amores. Senti o vazio de algumas delas conforme elas partiam e novas estreias surgiam. “Ela adoraria esse” ou “esse ela eu odiaria”, pensava.

Fato é que, por ser um fluxo de pensamento, não sei bem como terminar este texto, então encerro citando “Guardar”, poema de Antônio Cícero, falecido hoje, que acredito que se comunica bem com o quero dizer aqui: “Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la. Em cofre não se guarda coisa alguma. Em cofre perde-se a coisa à vista. Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado”.

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