Como uma máquina!


O fim da graduação é sempre um momento muito especial, a não ser que você tenha feito Jornalismo. Nesse caso, o término do curso geralmente significa uma transição entre a academia e o desemprego. Aconteceu com Hugo, estudante talentoso, bom texto e melhor ainda na arte da boêmia. Passou a faculdade inteira entre a caneta…


O fim da graduação é sempre um momento muito especial, a não ser que você tenha feito Jornalismo. Nesse caso, o término do curso geralmente significa uma transição entre a academia e o desemprego. Aconteceu com Hugo, estudante talentoso, bom texto e melhor ainda na arte da boêmia. Passou a faculdade inteira entre a caneta e o copo. Findado os quatro anos de experimento etílico-intelectual, teve que encarar a dura realidade do mercado de trabalho e pôs-se a procurar um emprego, um trabalho, pelo menos um freela, costumava dizer. 

Ocorre que o tal mundo profissional é pequeno e as notícias, ou as tragédias, especialmente no jornalismo, se proliferam rapidamente. A carta de recomendações de Hugo dizia sempre o mesmo: é bom rapaz, mas bebe muito. Ele, no fundo, sabia. Mas, justificava. Entre uma e outra garrafa, batia na mesa, erguia o dedo e dizia: jornalista tem que ser bom de copo! faz parte da profissão! tem que encarnar o João do Rio! Os diretores de redação é que não se contaminavam muito pela alma encantadora das ruas. Importava mesmo era fechar a conta no fim do mês. Tudo muito menos romântico.

Fato é que não houve um jornal sequer disposto a dar uma oportunidade para Hugo em São Luís. A alternativa foi se mudar para o Rio de Janeiro, inspirado no verso de Ednardo que ele não parava de cantarolar: as coisas vem de lá e eu mesmo vou buscar. Ele acreditava – e tinha razões para isso, dado o ótimo histórico na faculdade, a despeito da bebedeira – que merecia uma boa oportunidade e que, se a coisa não deu certo em São Luís, a culpa era do provincianismo da cidade. Nosso protagonista se inspirava na trajetória do ídolo Nelson Rodrigues, recifense que ganhou a vida no Rio de Janeiro, provando para os pernambucanos o seu atraso e para os cariocas a sua presunção.

A ida para o Sudeste foi viabilizada sem muitas complicações. Os pais de Hugo, médicos, não se preocupavam muito com a ideia de financiar os sonhos do garoto. “É bom menino, tem que ir para onde o dinheiro corre mesmo’’, afirmava seu Roberto.

Seis meses após o término da faculdade, Hugo embarcava para o Rio de Janeiro disposto a iniciar a sua carreira profissional. Evitava a todo custo pensar nas moças de Copacabana, nos bares da Lapa, nos sambas do Centro…ai! tinha mesmo era que arrumar um emprego. E os cariocas, cosmopolitas, não tardariam a reconhecer o seu talento. 

O primeiro dia na nova cidade foi dedicado a organizar o mobiliário do apartamento alugado pela família em um bairro nobre da capital carioca. O segundo, a iniciar a busca pelo trabalho. Táxi até o Centro da cidade e muita confiança. Na primeira redação onde bateu a porta, só conseguiu conversar com um robô de atendimento que, após ouvi-lo por cinco minutos, respondeu: “Agradecemos seu interesse. Por favor, envie seu currículo para o e-mail [estagiarios@.com] e aguarde nosso retorno em até 45 dias úteis.” No segundo jornal, depois de passar por três portarias e responder a um questionário de 15 perguntas sobre sua vida pessoal, teve sorte. Mandaram chamar Neto, da editoria de Cidades, que, ao vê-lo, exclamou: “Finalmente! Alguém pra me fazer um café!”

Hugo, contrariado, mas ainda assertivo, entregou um papel e disse: leia! Ele leu…e adorou! Era um artigo sobre o perfil dos novos migrantes nordestinos no Rio de Janeiro, os novos sonhos e o contraste com os nômades de outrora. 

O repórter pediu um tempo pra que subisse à redação e avisou que em breve voltaria. Depois de 10 minutos, avisou Hugo que ele teria uma reunião com Márcio, editor-chefe, no dia seguinte, às 8 horas, sem atraso.

Nosso herói saiu do prédio com a pose de um general vitorioso, peito estufado e queixo erguido. “Ah, se soubessem quem eu sou!”, pensava ele, enquanto a brisa carioca bagunçava seus cabelos levemente úmidos de suor frio. Afinal, dois dias no Rio já haviam sido suficientes para conquistar o mundo da comunicação. E para celebrar essa grande conquista, nada mais justo do que uma pequena pausa para um gole de felicidade líquida no bar da esquina.

No dia seguinte, chegou para a reunião 15 minutos atrasado – havia esticado um pouquinho a conta no dia anterior – mas colocou a culpa na mobilidade urbana do Rio de Janeiro e ainda por cima disse à Neto: esse é um outro assunto que eu quero discutir num artigo! Os dois riram e Hugo foi encaminhado para a sala de Márcio, responsável por definir o seu destino. 

O perfil do editor-chefe era agradável. A postura indicava um bonachão policiado, um tipo que se forçava a acreditar na própria seriedade. Hugo percebeu que se daria bem com o possível patrão. 

-E então, você veio do Maranhão em busca de oportunidade…

-Sim, Márcio, acontece que lá nós somos meio obsoletos, acho que as pessoas não entendem muito bem o meu estilo.

Durante 20 minutos, Hugo se apresentou como um profissional indispensável e por pouco não convenceu Márcio a contratá-lo no ato. O editor, contudo, se conteve e pediu para que Hugo lhe trouxesse um artigo, sobre qualquer tema, no dia seguinte. O texto serviria para avaliá-lo.

– E onde está o computador?

-O computador? Mas o seu prazo é amanhã.

-Lhe entrego em dez minutos.

Antes do tempo estimado, Hugo levantou da cadeira e entregou o texto. Márcio ficou impressionado. O garoto unia o essencial: agilidade, repertório, conhecimento técnico. Não havia dúvidas: Hugo merecia uma oportunidade.

-Hugo, o texto é realmente muito bom.

-Sim, eu sei.

-Mas, eu quero que você saiba que, aqui, todos nós funcionamos como uma máquina. Somos pontuais, disciplinados. Talento não basta. É preciso ter profissionalismo. O que você me diz?

-Márcio, não se preocupe, garanto que não teremos problemas.

-Sendo assim, você começa amanhã. Seja bem-vindo.

Alegria, alegria! Hugo, enfim, teria uma oportunidade. Sentia no corpo um misto de felicidade e ressentimento com os conterrâneos que não haviam reconhecido o seu potencial. Teve que vir para o Rio de Janeiro! Saiu da redação com um sorriso de orelha a orelha e mentalmente exclamando: chupa, São Luís!

A euforia era tanta que a comemoração começou ainda pela manhã, logo após a reunião, por volta das 9 horas. Hugo partiu para o Gafieira e iniciou os trabalhos. Depois da terceira cerveja, se vendo apertado financeiramente, se lembrou de ligar para os pais e anunciar as boas novas, festejadas pela família. Terminou a ligação dizendo ao pai que precisava de mais alguma grana para comprar roupas novas para o emprego. Sabe como é…jornalista de veículo grande…

Roberto lhe transferiu uma quantia suficiente para comprar todos os ternos e cigarros possíveis, além de outros adereços cruciais para um bom profissional. A festa no Gafieira continuou, adentrou a noite e se tornou ainda mais agradável por conta da companhia de algumas profissionais da arte de amar.

A algazarra foi do Centro à Zona Sul do Rio, onde Hugo morava. O cenário, no dia seguinte, era estarrecedor – ou encantador, a depender do seu ponto de vista. Hugo no chão do seu apartamento, rodeado de garrafas, cigarros e mulheres. Ainda sonolento, conferiu o celular. Cinco ligações de Márcio! Havia faltado ao primeiro dia de trabalho!

Tentou se levantar, mas não conseguiu. Ainda deitado, ligou para o chefe, que atendeu o telefone lhe questionando veementemente: mas o que aconteceu? Eu não disse que nós somos como máquinas por aqui?

Olhou novamente ao redor e fechou os olhos. Dez segundos depois, novamente conferiu o estado de sua casa. Aos poucos se erguendo, Hugo se pôs de joelhos e sorridente, orgulhoso, respondeu: acontece, chefe, que a única máquina com a qual eu me pareço é o carro, só funciono se tiver combustível.

Deixe um comentário

últimas

"Senta, se acomoda, à vontade, tá em casa...''

Assine a Sociedade do Copo e receba as nossas publicações em primeira mão!

Continue lendo