
Em 1899, o cordão da Rosa de Ouro exclamava pela primeira vez: ó abre alas que eu quero passar! Daí em diante, o nome de Chiquinha Gonzaga (1847-1935), compositora da marcha-rancho, entrava definitivamente no céu de estrelas da música brasileira. Antes, a artista já havia sido a primeira mulher a reger uma orquestra popular no país, na ocasião em que a peça A Filha do Guedes, musicada por ela, foi realizada. Estima-se, aliás, que a carioca tenha feito duas mil composições (77 dessas para apresentações teatrais) em formatos como a valsa, o tango e, principalmente, o choro, gênero no qual atuava sobretudo como pianista no conjunto do flautista Joaquim Callado. Pois é em homenagem ao legado de Chiquinha Gonzaga que nós comemoramos hoje, 17 de outubro, data de seu nascimento, o dia da música popular brasileira.
Minha ignorância não permite supor que outro povo no mundo tenha uma relação tão familiar com a música como o brasileiro. O que seriam das novelas, dos bares, filmes, estádios de futebol e tantas outras aficções e lugares habituais sem a música? Teríamos, sem ela, o desbunde do carnaval, a profundidade das festas juninas, a alegria das danças e o choro comovido da despedida? Poderíamos imaginar a inexistência de Eu te Amo, de Chico Buarque, e a inexistência da possibilidade de dedicar Eu te Amo para a mulher amada?
Insisto em citar Chico, agora com Choro Bandido, do icônico Paratodos (1993), para dizer que quando Hermes fez das tripas a primeira lira e animou todos os sons, este Deus, sonso e ladrão, permitiu a constituição do Brasil e de seu povo. E desde que Chiquinha Gonzaga pediu passagem em Ó Abre Alas, outros luzeiros vieram. E veio Pixinguinha, veio Tom Jobim, veio Cartola, Adoniran Barbosa, Hermínio Bello de Carvalho, Aldir Blanc, Eduardo Gudin, Elizeth Cardoso, Nelson Gonçalves, Villa Lobos, Caetano Veloso, Gilberto Gil e outros incontáveis nomes.
Todos eles, distintos por imposição do tempo e pela diversidade de suas produções, estão unidos pelo fato de serem brasileiros, de só poderem ter feito o que fizeram porque nasceram no Brasil, nas entranhas do nosso povo mestiço, caboclo, maltratado, alegre, andarilho em busca de seu destino. E este mesmo povo, orgulhoso de si mesmo a despeito das chagas do financismo, do imperialismo e de uma elite nacional que todo dia joga contra seu próprio país, pode afirmar honrado que não há nada no mundo mais bonito do que a música brasileira. Comemoremos.





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