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Mulher de fases


Theo e Lucas eram como carne e unha. Dono de bar, Theo conheceu Lucas por lá, como um dos clientes. Acabou se tornando um dos personagens típicos do local, assim como Maria, a viúva; Antônio, o veterano de guerra; Ju, a cozinheira; e Assis, o padre. Theo e Lucas falavam no começo de futebol, política,…


Foto: iStock

Theo e Lucas eram como carne e unha. Dono de bar, Theo conheceu Lucas por lá, como um dos clientes. Acabou se tornando um dos personagens típicos do local, assim como Maria, a viúva; Antônio, o veterano de guerra; Ju, a cozinheira; e Assis, o padre.

Theo e Lucas falavam no começo de futebol, política, música e depois um pouco mais de futebol. Alguns meses se passaram e com a intimidade vieram conversas mais profundas. Os deleites e desilusões amorosas não poderiam faltar, claro. Por último, Lucas dedicava seu tempo a tentar consolar Theo a respeito de Aline.

Aline não saía da cabeça de Theo. Se encontraram em uma noite no bar e pareceram viver ali um romance de eras. Acontece que, para a tristeza de Theo, Aline nunca mais aparecera e desde então sua dor era esperar pelo retorno da paixão fulminante.

Bon-vivant, Lucas era calejado com as sofrências. Curava cada decepção indo atrás de uma nova. As únicas vezes em que ia ao bar e não sentava junto ao balcão para conversar noite adentro com o amigo eram justamente quando se metia nos seus tantos encontrinhos. Por isso mesmo, Theo estranhou quando o amigo passou alguns dias sem dar as caras por lá e quando finalmente apareceu não cabia em si de tão animado. Tinha conhecido alguém.

– Tô dizendo, Theo. Nunca encontrei mulher igual essa. E dessa vez eu falo sério, senão diria isso só pra ela.

– Sei não, cara. Você não é desse jeito…

– Olha, vou fazer o seguinte: ela tá animada pra conhecer o bar. Vou trazer ela, apresentar a galera, o lugar e você, claro!

E assim foi. Nanda era como se chamava. A conversa encaixou demais entre ela e os dois amigos ao balcão. Theo logo ficou na torcida para se tornar uma presença constante. O que aconteceu, no entanto, foi algo estranho. Nanda passou a frequentar o bar, sim. Mas… qual Nanda?

Por cima do balcão, toda sexta-feira Theo observava Lucas acompanhado de uma mulher que, em tese, era Nanda. O problema é que, a cada semana, Nanda era uma pessoa absolutamente diferente. Não se tratava só das roupas, cabelo e acessórios. Tudo era sempre diferente. Fofoqueiro que era, a escuta de Theo também o fez perceber que até a personalidade variava.

Nessas idas e vindas, Theo viu Lucas apresentando uma Nanda gótica e de cara fechada para Maria, a viúva; uma crente convertida para Antônio, o veterano de guerra; uma loira patricinha para Ju, a cozinheira; e uma alcoolatra extravagante para Assis, o padre. Theo evitava questionar o amigo. Nas poucas e rápidas vezes em que o fazia, Lucas prontamente dizia que “não havia nada de errado”.

De repente, Theo se deu conte de que, uma vez por mês, Lucas e a suposta Nanda não apareciam no bar. Decidido, ele passou a questionar os clientes que conheceram a moça sempre que ela e seu amigo estavam ausentes. Queria saber o que achavam da figura.

Primeiro, consultou Maria, a viúva:

– Aquela toda fechadona, né? Me surprendeeu quando conversamos! Também já foi casada e disse que era capaz até de matar se fosse corna. Tanto que entendeu aquela minha prisão. Uma querida!

Depois, indagou Antônio, o veterano de guerra:

– Aquela garota é uma pessoa muito iluminada, Theo! Da igreja, sabe? Me disse que se Jesus perdoou Judas, também perdoaria minha delação contra a divisão de infantaria. Deus a guarde sempre!

Aí, partiu para falar com Ju, a cozinheira:

– Olha, não fui com a cara dela de primeira. Muito cheia de coisa, de não-me-toque. Mas depois vi que é honesta, não esconde as coisas. Falou logo de cara que não suportava lacticínio. Viu como é fácil falar do que gosta e do que não gosta? Aí quando aquele besta teve choque anafilático quiseram me culpar… adorei ela!

Por fim, apelou para Assis, o padre:

– Aquela ali bebe mais do que respira. Uma coisa assustadora, mesmo. Mas não se engane: é uma alma bondosa. Quis até se confessar comigo! Eu me emocionei, não fazia isso desde a excomunhão. Pessoa amável, a Nanda.

Mais perdido do que antes de perguntar aos clientes, Theo se contentou com a ignorância. “Se pelo menos Aline estivesse por perto pra me ouvir…”

Numa dessas sextas, Lucas apareceu sozinho, com semblante sério e sinais de nervosismo. Se direcionou ao balcão e fez um anúncio para o amigo. Não frequentaria mais o bar.

– Mas que história é essa, rapaz???

– Theo… assunto sério… você sabe que não é fácil pra mim…

– Sei de nada, não. Sei mais nada desde que apareceu essa Nanda. Ou essas Nandas, não sei. Toda semana você aparece com uma pessoa diferente e fica dizendo que é a mesma… que loucura é essa?

– Já te disse… é uma questão delicada…

– Não vem com negócio de história delicada! Cliente com amante, mulherengo, safado, canalha, mentiroso é o que eu mais vi na vida. Mas tem que saber assumir que é sacana!

– Já disse que não é por aí! A Nanda é a Nanda e acabou. Tô falando do fundo do coração, meu amigo. É tão sério que não posso mais vir justamente porque vamos nos mudar.

Ainda espantado com o cinismo do amigo, Theo foi direto:

– E por que ela tá sempre diferente?

– Ela gosta de se enfeitar.

– Mas é até a cara, altura e peso.

– Maquiagem, calçados diferentes e você não devia comentar do peso de uma mulher…

– Rafael, até a personalidade. E isso?

– Ela tem um transtorno aí. Já viu aquele filme…

Inconformado, Theo esbravejou:

– Chega. Cansei disso. Eu sei que tu tá mentindo e tu sabe que não tá me enganando. Fala a verdade agora se realmente tu me considera teu amigo.

Lucas recuou. Respirou fundo, colocou os braços nos ombros de Theo e disse olhando no fundo de seus olhos:

– Eu não achei que faria isso, mas vamos lá: a Nanda é metamorfa.

– Uma o quê?

– Metamorfa.

– Eu ouvi. Agora fale em português.

– Ela… se transforma completamente… e não tem controle sobre isso. Como se fosse uma mutação, sabe?

– Pensei que você tava sóbrio.

– Eu tô! E tô falando muito sério. E digo mais: percebeu que tem uma sexta no mês que a gente não vem? Então… é que em dia de lua cheia, se ela sair na rua vira… um cachorro.

Incrédulo, Theo começou a gargalhar. Sabia que Lucas era engraçado, mas nunca tinha ouvido besteira tão grande.

– Tudo bem, Lucas. Faz o seguinte então: não sei o que tanto deu na tua cabeça mas obrigado por esses meses frequentando aqui e muita felicidade pra você, viu? Valeu!

O dono do bar então dispensou o agora o ex-fiel companheiro e foi para os fundos continuar rindo da história toda. “Saudade que eu tava de ouvir uma mentira deslavada. Nem sei de qual eu gostei mais, dessa ou das de Aline”, pensou.

Naquela noite, Lucas foi para casa com o peito aliviado. Entrou no apartamento completamente escuro com janelas tapadas por cortinas com cuidado. Procurava por alguém.

– Amor? Cheguei

Apareceu na sala uma mulher de cabelos ruivos e óculos. Estava curiosa sobre o sucesso da missão que deu a Lucas.

– E aí? Conseguiu?

– Consegui, sim. Com dor no peito de fazer isso, mas consegui.

– Ufa! que bom, meu amor.

Entregou um RG na mão dela. Fez um pedido.

– Sem mais esquecimentos tipo esse, por favor. Pode ser?

– Claro, lindo! Agora é só ficar tranquilo. E a gente acha um outro lugar pra ir, como prometi.

– Tudo bem, agora deixa eu pegar um ar.

– Tá certo. Vou escolher algum filme aqui pra… NÃO! ESPER-

Com a cortina da janela parcialmente aberta, Lucas se tocou do erro. Mas era tarde. Virou para trás.

– Au au! au au au au! – latiu um cachorro que surgiu no lugar.

– Meu Deus?! O que eu fiz? ALINE!!!

POR: Leonardo Alves

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