
Há dois anos eu convivo de maneira muito próxima com Juliano Amorim. Durante esse período, conversamos sobre praticamente tudo, mas de maneira especialmente entusiasmada sobre o jornalismo, a música e a política, temas definidores de nossas personalidades e responsáveis por alicerçar a nossa relação. Ele é brilhante no expediente dessas três funções. Tem o melhor texto que já conheci pessoalmente, é um compositor sublime (e eu lamento seu afastamento desse ofício) e um enorme conhecedor das relações políticas e culturais que atravessam o Brasil.
É fácil compreender de onde vem tanto talento. No Cohatrac, na casa de sua família, quadros e CD’s compreendem um cenário que revela o repertório e a intelectualidade dos seus pais. A mãe, minha querida Mariazinha, é uma figura agitada, boêmia, contadora de causos. O pai é inibido, grave, responsável. A soma resulta no Juliano que conhecemos: tímido e espalhafatoso, como bem disse Caetano Veloso, um dos compositores favoritos do meu amigo, em Vaca Profana.
Essas duas características integram Juliano de sobremaneira, formando um conceito quase bipolar. É possível identificá-lo calado e retraído e, no momento seguinte, eufórico. Imagino que para terceiros seja difícil desvendá-lo. Para mim, essa nunca foi uma questão. Desde o primeiro contato, sempre enxerguei com muita naturalidade o que poderia ser julgado como esquisitice. Há, em nossa amizade, um profundo e recíproco respeito pelo outro, o que resulta em muita compreensão.
Entre a Copa do Mundo de 2022 e o São João de 2024, nossa vida foi um carnaval. O fim da graduação em Jornalismo, a descoberta de nossa amizade e a condição financeira um pouquinho melhor do que a atual nos motivaram a conhecer e enfrentar a cidade, a estabelecer uma relação quase antropofágica com a velha São Luís. Nessa época, o lema era “flanar’’. Não conseguiamos lidar com o tédio. Bastava um curto período de tempo sem que nada acontecesse para que mudássemos de bar. Nos apropriamos tão intimamente de alguns lugares que batizamos alguns deles, vide o “Beco da Antártica’’.
Contudo, o que realmente constituiu morada foi o Bar do Léo. Ali, entre uma e outra Original, eu percebia o Juliano beatlemaníaco e fã de tudo que remete ao Fab Four, a exemplo de Tavito e a sua Rua Ramalhete e o Clube da Esquina. Vi, também, um Juliano afeiçoado e perito em música brasileira, de modo que até hoje ele me serve como uma espécie de guru a quem consulto diante da dúvida sobre a autoria de uma composição ou sobre o ano de gravação de determinada música.
Me resta dizer que vejo o convívio com Juliano Amorim como um privilégio, por dois motivos: tenho a sorte de aprender com a sua inteligência e a imensa honra de tê-lo como amigo. Aliás, quando perguntado a respeito, eu teimo em dizer que não somos amigos, mas irmãos. Geneticamente, não, mas ainda busco outra maneira de classificar essa amizade superior.
Por: Paulo Vinícius Coelho





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