
Futebol, a minha paixão mais íntima. Sou um torcedor displicente, é fato, e são duas as razões para sê-lo: só gostar das vitórias e ser vascaíno. Ambas as coisas, se se não me orgulho do escrete cruzmaltino potente de outrora, jamais haveriam de combinar.
Que futebol feio joga o time mais cult do país, o alvinegro luso-tropical. Nem a mansidão da atual fase, em São Januário, me desperta, por um momento sequer, o desejo de acompanhar, ao longo de 90 minutos, um futebolzinho mixa, aos solavancos.
Creio apenas na catarse e no espetáculo. Perpétuas, tribunas cativas a todo vapor, em transe; o canto estrépito, as jornadas míticas. A função imponderável do futebol, fazendo-se e desfazendo-se, de paladinos e algozes; gênios e estúpidos.
Futebol é à flor da pele.
Por essa razão, prescindo de acompanhar o Vasco da Gama, e garanto devoção, de fato, às Copas do Mundo. O esporte, em seu estado da arte, desautoriza a razão e manda às favas os tecnocratas do resultado, de entusiasmo alucinado com esquemas táticos e armazenagens de scores. Copa é a hora das cinosuras, onde a frígida aritmética do jogo deixa os seus sapatos na porta.
Vi de perto o teor impremeditável do torneio, ainda na infância, em 2006. A emoção da primeira Copa, no ocaso de sua fase romântica. Meu coração gelava, a cada nova vinheta na TV. Entre os meses de maio e junho, só me havia suspense e alumbramento. Em junho, meu coração era festa. Sob os meus pés, o asfalto em verde e amarelo. Meus olhos enleados com as fitas que cobriam o céu do meu horizonte estreito de menino.
Nada, no entanto, me cativou tão profundamente, àquela época, quanto pensar no meu pai. Dei por mim existindo com um divórcio já em curso, de modo que as suas aparições, apenas aos fins de semana, não me eram suficientes para conhecê-lo. Sua presença era mistério. Sabia-lhe o respeito, seu gestos serenos. A amabilidade, também, em horas exatas.
Eram incertezas demais à altura em que a Copa do Mundo estava prestes a ocorrer. Se defenderíamos o título, se aquele “quadrado mágico” – formado por um Ronaldinho Gaúcho em relativa boa fase, um Kaká seguro e mais experiente, um Adriano iluminado, após as boas copas América e Confederações, e um Ronaldo fora de forma, embora com o tino de gênio – seria capaz de manter a seleção coesa até o fim.
Edits e outros recursos, besuntados de nostalgia, desacreditam a desconfiança geral – da torcida e da imprensa – naqueles idos. Elas estavam no ar, sim.
Até que o Brasil estreasse, apreensões com a escalação, a fase pré-viagem e concentração dos jogadores naquele país-sede, a Alemanha. Meu temor pessoal era saber, porém, como lidar com meu pai durante uma partida de futebol. Aos sete anos, desconhecia boa parte dos seus interesses.
Até que veio 13 de junho. Dia de Santo Antônio. Aniversário de uma tia. Brasil x Croácia. A casa cheia. O éter do São João por sobre nós. O clima de Copa também. No fim de tarde, enfim, o jogo: feio, truncado, sem bossa. A poucos metros da pequena área, Kaká, numa de suas especialidades, converteu um dos poucos lances ofensivos da partida.
A euforia deu lugar à impaciência, para se tornar tédio, até ser derrogada pelo êxtase. Vibramos todos. Ninguém mais eufórico que aquele sujeito sisudo a quem eu chamava de pai. Se até aquele momento eu lhe duvidava mesmo o riso, a hora do gol me pôs, para sempre, em contato com outras coisas do seu ser. Nossas alegrias nunca haviam sido, a um só tempo, as mesmas.
Copa, então, passou a ser sinônimo de ver, dentre outros detalhes, meu pai feliz. Curioso é aturá-lo, a cada eliminação do Brasil, dizer que vai deixar de assistir aos jogos. Ouço a queixa sem reclamar, só para apanhá-lo em contradição assim que uma outra edição do torneio se aproxima. E ainda bem. Inexiste emoção comparável à assisti-lo trocar seu ar tenso pela emoção tresloucada, sincera
Dezesseis anos depois daquele dia de Santo Antônio, vimo-nos novamente assim. Noutro Brasil x Croácia. Sem a casa cheia. Seus cabelos, mais ralos e brancos. Os meus – ainda que precocemente – também. O jogo era feio, truncado, sem bossa, até que um problemático Neymar, com a categoria de um as, nos arrasou com um gol.
À eliminação, azar. Meu estado de graça era outro. Por instantes, aquele tento me devolveu à infância. Milissegundos bastaram para que os dois homens nervosos, na sala, desaparecessem. Ficaram apenas o garoto e seu pai, renovando o mesmo pacto de felicidade de quase duas décadas antes.
Futebol é à flor da pele.
POR: Juliano Amorim





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