
Entre um afazer e outro, fui fisgado por uma frase do guitarrista e compositor Roberto de Carvalho, viúvo da Rita Lee, em uma entrevista. Perguntado sobre uma amizade de longa data, Carvalho admitiu não se recordar com precisão do encontro, já que “uma longa amizade prescinde de um momento exato, porque deve ser de outras vidas.” Penso a mesma coisa quando tento imaginar a primeira vez que travei contato com Paulo.
Tivemos não uma, mas várias primeiras conversas. Se a minha vida dependesse de estabelecer uma data exata, eu diria 2019. Não éramos amigos; sequer vislumbrávamos esta possibilidade. Sei que Paulo, naquela momento, era a sensação do curso de Comunicação Social: inteligente, arguto, politicamente mais sofisticado que os seus pares e repleto de boas referências.
Os anos que precederam a universidade, no IFMA, o preparam para ambientes gregários, socialmente acalorados. Não só a questão da educação pública lhe foi determinante, durante esta fase.
A ruptura que é sair de casa para tomar a vida pelas mãos – experiência que nos acontece, se acontece, comumente após a idade adulta – lhe foi antecipada, já na adolescência. Nunca cheguei a perguntá-lo sobre isso, mas tenho pistas de que boa parte do que caracteriza a sua personalidade, hoje, se deve à radicalidade deste primeiro passo, em uma fase tão delicada.
Voltemos a 2019. Paulo, como eu disse, era a novidade do curso. Com alguns quilos a menos, cabeleira volumosa e, quase que exclusivamente, trajado de preto, entre uma ou outra camisa alusiva às bandas de rock do seu interesse. Um perfeito exemplar de um pós-adolescente, em estética.
Se me esforço para lembrar, ele nunca estava só. Garotos e garotas se empolgavam com aquele viço juvenil, despojado, meio rebelde, por ele possuído. Faço outro exercício: imagino que estar na UFMA, para o Paulo, além de uma satisfatória conquista, tenha sido a oportunidade de, enfim, dar vazão a todas as expectativas; ao sabor do impremeditável. Ou melhor, do quase impremeditável.
Vindo do interior do estado, entre Buriticupu e Bom Jesus das Selvas, imagino um Paulo em sua hora resplandecente, desejoso em fazer valer as velhas histórias da tradição inconformada, poética, jornalística e boêmia de uma São Luís que – eu e ele sabemos muito bem – foi, por gerações, implacável em fornecer à sociedade figuras de notório espírito crítico.
De suposição em suposição, tenho de concreto um dia marcante: em um trabalho trivial de faculdade, vejam só, escolhemos um mesmo tema, ao selecionarmos Chico Buarque para uma análise requerida durante a disciplina. Uma pequena centelha entre as mil e uma afinidades que nos saberíamos compartilhando.
Sua apresentação, anterior a minha, foi um sucesso, Fiquei particularmente comovido com sua retórica escorreita em tão pouca idade, apesar de algum desapontamento, pois, para além da sutil coincidência, tudo o que eu diria a seguir já estava posto, com uma qualidade superior àquela que eu viria exibir ao resto da turma.
Os anos se passaram e não nos encontramos mais desde ali. Pude revê-lo tempos depois, com alguns quilos a mais, roupas mais sóbrias e um penteado contido. Naquele clima que só os fins de ano costumam ter, a propensão à sociabilidade era intensa. Paulo, o Paulo Vinícius Coelho, é uma pessoa de prosa fácil, inclusive. Ter a sua atenção durante uma conversa requer apenas que você seja um bom ouvinte e não entregue – não de cara, pelo menos – que é um grande idiota.
Tivemos a oportunidade de, enfim, nos falarmos de forma direta. Comentando a Copa do Mundo em curso, naquela ocasião, e o alívio pós-volta do Lula à presidência. O salto maior viria quando, após ouvir, por inúmeras vezes, Paulo se referir ao Bar do Léo – que eu já conhecia, claro, de muitos anos, mas cuja curiosidade em frequentá-lo nunca havia me ocorrido – fiquei tentando a pagar para ver e acompanhá-lo. Marcamos. Daquele porre em diante, vi a minha vida mudando para sempre.
Posso adiantar a quem lê que foram muitas noites, muitas cantorias, muitas descobertas, alguns perrengues. Tudo isso, com uma trilha sonora particularmente sensacional. Paulo é um aficionado por música. Música brasileira, por favor, embora não de forma exclusiva. Seus conhecimentos rendem vez ou outra um mal-entendido, quando lhe obliteram suas predileções, em nome de uma vazia e inconclusiva pecha de esquerdomacho. Coisa menor.
Poderia me demorar mais citando as qualidades do Paulo, mas algo sobre ele é primacial: a transparência. Ele é o que é. Não há grandes distinções ou grandes descobertas para serem dele extraídas.
Está tudo aí, fácil, sem rodeios. Em tempos onde a subjetividade, ou, melhor dizendo, o infinito particular tende a se escorar em performances e generalidades, gosto de pensar na maneira autêntica com a qual Paulo toca o seu destino.
De um jeito muito particular, desenvolvemos uma forma de nos relacionarmos, amortecendo diferenças que são até maiores do que supõem muitos dos que nos conhecem. Paulo é savoir faire, o carisma, a agregação. Sou o completo oposto. Em contrapartida, falo muito, com opiniões sobre quase tudo. Paulo é a ponderação, neste caso.
Somos, no entanto, curiosos pela vida; em especial, por uma ideia de vida romântica, um tanto ligada às antigas tradições brasileiras. Fora o pedetismo, o brizolismo, o ódio aos entreguistas, à burrice, à esterilidade de ideias, a falsidade e a desonestidade. E o amor à música, a Woddy Allen e Aldir Blanc. E as ébrias ligações no meio da noite.
Paulo já não é mais o pós-adolescente de ímpeto rebelde. Dito isso, continua buliçoso com o que há de descaso e prostração. Não há nada que resista ao seu interesse em fazer o que lhe parece necessário. Quer seja uma declaração de amor, um movimento de orientação política ou este blog pelo qual nos leem agora.
Sua coragem é o atributo de que mais gosto. Sempre pagando para ver, custe o que custar, se tiver consciência do que deseja. Venho aprendendo com isso, cada vez mais.
Não sei a quais deuses saudar por tê-lo conhecido.
POR: Juliano Amorim





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