
Sempre que converso com amigos vindos do interior e me deparo com certos relatos que me soam quase estrangeiros, brinco com a ideia de ser “o mais ludovicense dos ludovicenses”. Como um bom pisciano, costumo aderir às hipérboles com certa frequência, e assumo desavergonhadamente que essa figura entre as mais mentirosas. Existem algumas razões para isso, claro. Por mais que eu seja um rapaz com costumes muito próprios de minha capital, São Luís segue me proporcionando a vista de cenários pitorescos e extensos ainda inexplorados por minha pessoa, permitindo com que eu sempre adquira um atributo novo do meu próprio berço. Ao mesmo tempo, observo que a Ilha do Amor magnetiza ao seu redor uma vastidão de memórias perdidas, consagrando seu apelido de Atenas Brasileira não por seu patrimônio cultural, mas pelo acúmulo excessivo de ruínas.
Seja o mais cético dos homens e ouse contrariar o que tenho a dizer: habitamos entre fantasmas. Dispensando lençóis brancos, a levitação e até mesmo o metafísico, as assombrações são sólidas e fincam seus pés, e principalmente seus escombros, no solo. Eu, nascido, criado e ainda morador no São Francisco, atravesso pelo menos uma vez por semana por uma dessas abantesmas, muito próxima à cabeceira da ponte que vai rumo a um outro cemitério de recordações. Os mais antigos do bairro logo sabem de quem falo. Ele mesmo, o Cine Colossal.
Hoje loja de móveis, outrora estacionamento (dos mais fuleiros), as lembranças do espaço são nebulosas, ao contrário dos blocos de concreto que vedam sua existência tão opaca quanto as imagens pouco preservadas de lá. É difícil até mesmo definir, sem ajuda de fontes extraoficiais, quando ocorreu sua abertura e seu fechamento. Sabe-se por meio de relatos que o cinema arrastou multidões com o clássico “Ghost”, estrelado pelo finado Patrick Swayze ao lado da belíssima Demi Moore, o que garante uma existência predecessora à 1990. Pesquisando mais a fundo, encontro uma publicação de novembro de 2009 que fala à respeito do destino das poltronas do Colossal após o encerramento de suas exibições: foram enviadas ao auditório da Federação Maranhense de Futebol. Certo, agora sei em qual período dos anos 2000 ocorreu o fechamento. Mas veja só, na publicação, o autor afirma ter assistido “Tubarão” do Steven Spielberg no local, um filme lançado em 1975. Isso garantiria vivências ainda maiores ao espaço se considerarmos que o longa chegou a São Luís neste mesmo ano. Curiosamente, os sites dos jornais destacam “o Cine Colossal fez a cabeça dos moradores de São Luis entre os anos 80, 90 e 2000”. Eita, calma lá! Uma postagem do Instagram com imagens raríssimas parece revelar a derradeira verdade e uma imensa ironia: o Colossal, que nasceu como Cine Alpha, foi inaugurado em 1976 e era um… cinema de shopping?!
É como dizem naquele filme, “ou você morre herói ou vive o bastante para ver você mesmo se tornar vilão”. Neste caso, talvez seja o contrário. Deixando maniqueísmos óbvios de lado, o cinema foi criado como produto de um dos inúmeros processos de modernização da cidade, catapultado pela feitura da ponte Governador José Sarney, que acabou culminando no primeiro shopping center de São Luís, o Junior Center. Racionais MC’s rimavam sobre a capital maranhense sem sequer saber, “o mundo é diferente da ponte pra cá”. O Cine Alpha era inicialmente promovido como um espaço tecnológico, chique e moderno, características que eram reforçadas pelo maquinário que apresentava e que o diferenciava dos já tradicionais Cine Roxy e Cine Passeio. Anos depois, já rebatizado e como cinema de rua, o local observou à sua própria extinção pelos elementos que tanto o destacaram em seus primeiros anos de vida. Aquele que possuía ares de segregação passou a ser, talvez, um cenário, ainda que mofado e repleto de ratos, de resistência das salas de cinema distante dos grandes conglomerados, até seu eventual sucumbimento. É o que costumo dizer – ou ao menos pensar -, São Luis é uma cidade cheia de contradições.
Falando por um viés mais pessoal, o Cine Colossal foi o palco da minha primeira experiência cinematográfica, já em seus últimos anos de funcionamento. Eu e minha família morávamos nos arredores do local, mas não éramos os frequentadores mais contumazes. Na verdade, meu pai sempre foi um adepto muito mais ferrenho das locadoras, sobretudo da antiga Cine Magia, localizada na Rua das Paparaúbas, também no São Francisco. Em um dia qualquer, em um ano que nem sei dizer, eu e minha mãe fomos assistir “Didi Quer Ser Criança”. Lembro pouquíssimo do filme, mas recordo perfeitamente da sensação de estar no cinema pela primeira vez. Manter-se escondido do resto do mundo em uma sala escura por duas horas, diante de uma tela gigante que exibe situações hiper distantes da sua realidade, mas que parecem cada vez mais palpáveis conforme você as observa, talvez seja a experiência mais transformadora que um menininho com menos de cinco anos pode passar. Conversando com uma amiga, mostrei o primeiro rascunho deste texto, o que a fez lembrar de ter assistido o primeiro filme da longeva franquia “A Era do Gelo” no Colossal. Lembrei que eu também. Acho, pelo menos.
Hoje em dia, esta memória se ressignifica e enxergo a mim mesmo fora do corpo. É como se passeasse entre as poltronas, quase todas vazias, e avistasse aquela criança que fui com os olhos vidrados no clarão residente na película. Na imagem, um pouco de “Cinema Paradiso”, um pouco de “Onde Fica a Casa do Meu Amigo?” e um pouco de “Adeus, Dragon Inn”. Filmes sobre infância, filmes sobre cinema, filmes.
Calma, garoto, esses você só vai assistir depois.
SOBRE A COLUNA
A coluna “Na Bilheteria” da Sociedade do Copo tem por objetivo falar sobre o cinema em todas as suas formas, seja como arte propriamente dita, como espaço físico ou meramente como memória. Os textos postos sob essa categoria serão majoritariamente focados no que chamamos de experiência cinematográfica. Vale destacar: não é crítica, longe disso.
Confira abaixo álbum com imagens dos Cine Colossal e Cine Alpha:
Por: Gabriel Jansen









Deixe um comentário