Aldir, 78


Por ocasião do aniversário do bardo tijucano.


Ninguém na história deste país levou tão a sério o ofício de compositor. É a impressão primordial que eu tenho a respeito de Aldir Blanc (1946-2020), aniversariante do dia e autor de uma das mais deslumbrantes e extensas obras da música brasileira. Foram cerca de 600 composições, se a pesca feita na internet não me trai. Cada uma, segundo o próprio Aldir em entrevista para O Globo, em 2016, pensada verso a verso. “É que a caneta não corre na mesma velocidade que a cabeça’’ dizia o autor.

Essencialmente cronista – pois radicalmente atento e perspicaz – Aldir soube traduzir como poucos as contradições do Brasil e de sua gente. Com vocabulário eloquente, tratou dos peões, das prostitutas, dos traídos, dos bêbados. Citou Sandoval, Bernardo e o indócil personagem histórico brasileiro, João Cândido. Mencionou Chaplin e Brizola; teceu honras ao subúrbio e ao Vasco da Gama, seu clube do coração. 

Fartou-se, Blanc, também ao destrinchar minúcias das desventuras e moralismos das classes médias do Rio de Janeiro. Vila Isabel, o bairro primeiro de sua infância, e a Tijuca, logradouro de sua já consagrada vida de médico-artista, seguiram-no como matérias-primas das histórias de amores pujantes, traições, bofetadas, encruzilhadas, despachos e pileques.

A descrição de um cenário tão comumente carioca, claro, não se enclausura nos termos geográficos da capital fluminense. Por isso, mesmo a milhares de quilômetros da Tijuca, não me nego a cantar, fervoroso, a Valsa do Maracanã. Às segundas, no recluso bar que me recebe, no centro da cidade, Pra que Pedir Perdão? interpretada por Moacyr Luz, é imprescindível, afinal, eu não resisto aos botequins mais vagabundos.

Há, ainda, espaço para citar, aqui, belezas très discret, naturais em um repertório tão extenso: Entre o Torresmo e a Moela, Valquíria e Querelas do Brasil – todas em parceira com Maurício Tapajós –, Homem de Bem, eternizada por Maysa, Dois Bombons e uma Rosa, composta exclusivamente por Aldir, e um sem-número de obras luminosas, assinadas com parceiros tais como Ivan Lins, Ed Motta, Cristóvão Bastos, Guinga, afora os contumazes Moacyr Luz e João Bosco.

Os casos amorosos, nas canções de Aldir Blanc, têm aspecto tão singular que os menciono destacadamente. Não se tratam de histórias usuais, de tristezas rimadas com verbo no infinitivo, nem das alegrias besuntadas em juras de “eu te amo”, “só você”, “te respiro”. Ao ouvinte de primeira viagem, adianto: não espere encontrá-las. Aldir é caso de paixão descarada, sem-vergonha, sem titubeios. 

Há o paciente que, internado, apaixona-se pela enfermeira; as desditas de um romance organicamente errático, impossível nos termos da moral, mas consumado sob as transversais do tempo. Os boleros, os trambiques, as rusgas, o cotidiano dos casados, os bofetes, o colarinho marcado pelo batom da secretária. Sobra, portanto, o desmascaro da vida conjugal in natura – talvez em sua face mais bela e, curiosamente, incapaz de durar para sempre. 

Se o amor, no universo ficcional de Aldir, é mais à la Mia Farrow e Woody Allen do que um romance cerzido de boas intenções do início ao fim, vale dizer que o mesmo Woody Allen diz algo que, no fundo, traduz parte do ímpeto criador deste boêmio carioca. 

Allen menciona certa despreocupação quanto ao seus escritos, prescindindo de afetações beletristas ou demasiada erudição. Blanc, à sua maneira, seguiu a mesma toada: a despeito da farta literatura que consumiu e cultivou, sua poesia contém o mais chulo coloquialismo das ruas, de mãos postas com palavras refinadas e impremeditáveis. 

Com essa bossa, chegamos a crer que uma canção de Aldir Blanc é como o papo furado do amigo mais próximo, entre um trago e um tira-gosto. Mas é aí que está a desfaçatez dos gênios: transmitem facilidade ao que só se consuma com muito talento. Qual uma finta desconcertante na hora mais cruel do jogo, já nos instantes finais.

Ah, quantos dribles nos deu Aldir.

Por: Paulo Vinícius Coelho e Juliano Amorim

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