O garçom


Depois de muitos anos frequentando constantemente o Bar do Léo, eu nunca havia imaginado a possibilidade de ser atendido por um garçom. No masculino. Por um homem.Tradição ou preconceito, a verdade é que, durante 46 anos, somente garçonetes trabalharam no recinto. Nunca outro homem, com exceção de Leonildo, dono do bar, havia recebido algum cliente.…


Depois de muitos anos frequentando constantemente o Bar do Léo, eu nunca havia imaginado a possibilidade de ser atendido por um garçom. No masculino. Por um homem.
Tradição ou preconceito, a verdade é que, durante 46 anos, somente garçonetes trabalharam no recinto. Nunca outro homem, com exceção de Leonildo, dono do bar, havia recebido algum cliente.

Imagine, portanto, a minha surpresa quando, ao sentar no meu assento predileto do balcão, sou consultado por um rapaz esguio que questiona: o senhor vai querer o cardápio?

Cardápio? Todos sabem que o menu é circunscrito aos que vão ao Bar do Léo com pouca regularidade. Para convivas habituais – quase sócios – como eu, a primeira interação com a garçonete se limita a um “boa noite’’ seguido da entrega da cerveja favorita.

Ligeiramente contrafeito, eu me dispus a desconcertar o garçom. Sem muitas pretensões para a noite, sempre preenchidas por música e cerveja, pensei que provocar o mancebo me traria, quem sabe, uma boa história ou pelo menos alguma risada.

Logo apelei para o gênio masculino. Para cada moça atrativa que entrava pela porta, eu questionava, com astúcia: e aí, o que achou? A resposta era sempre a mesma. Uma leve inclinação do pescoço, um cerrar de olhos e um vagaroso “ô…’’.

Entendi que o incitamento não daria certo e, nos dias subsequentes, hasteei bandeira branca. Superado o estranhamento, me recordei: a pior escolha possível é a inimizade com o garçom. Apostemos, então, na boa convivência.

Não foi difícil. Nosso garçom era um acanhado esperto. Calado, mas, quando instigado, tinha a resposta na ponta da língua. Essas credenciais logo o tornaram compatível com o ambiente. E os outros sócios depressa adotaram a figura. A clientela feminina também não tardou a atacar com bilhetes, olhares, pedidos de telefone e outras técnicas.

As garçonetes diziam: ele agora é o sucesso do bar! Pega todas! Desbancou a turma!

E o eu perguntava: verdade?

O resultado, sempre o mesmo, um moroso, quase sofrido ‘’ô…’’.

Questão de tempo até o elenco feminino do bar, digo, as clientes mais triviais, também começarem a se engraçar pelo garoto. Aí já é demais. Pintou ciúme, vertigem, ameaça …mas tudo na legalidade. No fundo, ninguém ia querer o mal do camarada que já tinha entendido o segredo da boa vizinhança: atendimento rápido e cerveja gelada.

Contudo, restava a dúvida: por que o nosso amigo não fazia nada? Falta de oportunidade não é! Será que…? Pois bem, a turma toda reunida no fim da tarde de sexta, resolve chamar o sujeito na chincha. Sentado no centro da mesa, ele começa a ser interrogado.

-Você não teve a oportunidade de pegar a fulana?

-Ô…

-E aquela outra?

-Ô…

Percebendo que a conversa não seria proveitosa, resolvi intervir de maneira rude e disse “conta logo qual é a tua!’’. Foi a primeira vez que, interpelado, nosso garçom não respondeu com uma onomatopeia. Ainda com o mesmo tom desgostoso, mas agora com alguma dose de desfaçatez, ele nos diz:

– É que eu tenho medo de aumentar a concorrência….

Por: Paulo Vinicius Coelho

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