
Fabiana Lima é advogada, mas encontrou no cinema uma rota profissional que lhe soava inesperada há pouquíssimo tempo. Aos 25 anos, a sua presença online como apreciadora e comentadora assídua da sétima arte possui cerca de meia década, ma somente há 2 anos que a jovem conseguiu superar aquilo que considerava um de seus maiores desafios: autodenominar-se crítica de cinema.
Desde então, Fabi – como é carinhosamente conhecida – tem coletado conquistas notáveis neste cenário. Sua página no Instagram, Cinemafilia, acumula quase 14 mil seguidores, enquanto seu perfil no X (ex-Twitter) figura com mais de 20 mil de pessoas que acompanham seu trabalho. É colunista de entretenimento no site Cinem(ação), além de ser a única mulher maranhense filiada à Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraacine) e membro da Critics Choice Association (CCA).
Em um fenômeno quase natural a quem alcança notoriedade no ambiente digital, o prestígio foi acompanhado por questionamentos crescentes a respeito da qualidade e legitimidade de seus trabalhos. Agora, a crítica de cinema busca pelo equilíbrio. Pensando nisso, a Sociedade do Copo conversou com Fabiana Lima em um de nossos Q.Gs não oficiais, o Bar do Léo.
Gabriel Jansen: Qual o melhor filme pra começar o dia?
Fabiana Lima: O filme que eu sempre vejo quando quero me sentir bem é “Antes do Pôr do Sol” do Richard Linklater. Ele já é minha marcada registrada até porque falo dele o tempo todo. É um filme que faz eu me sentir bem quando assisto, que eu assistiria para me trazer conforto.
Gabriel Jansen: Trabalhar com cinema abalou sua paixão pela sétima arte?
FL: Eu não sentia isso no começo, porque não era algo que eu pretendia fazer enquanto profissão. Comecei a sentir quando surgiu a cobrança de toda semana ter um filme para escrever sobre ou uma série nova que está saindo, e aquela ansiedade que essas coisas trazem pra gente. Ser crítico de cinema hoje e ser crítico de cinema há 20 anos são coisas bem diferentes. Eu acredito que temos uma pressão muito grande até mesmo para se destacar no trabalho que estamos fazendo, então temos que estar o tempo todo ali fazendo, sabendo o que está acontecendo de novo, sabendo da nova estreia que tem na semana que vem. Quando eu penso sobre isso, isso me estressa, tira um pouco a minha felicidade.
No geral, eu preciso falar sobre filmes porque é meu trabalho, mas às vezes eu preciso filtrar sobre quais eu falo. Eu não posso comentar sobre tudo, eu sou uma pessoa só, então eu não vou falar com a mesma qualidade ou paixão de todos os filmes. Uma das coisas que eu mais tenho medo é de perder essa vontade, perder essa paixão. Nos últimos dois anos, eu estou me encontrando e tentando buscar [essas coisas], então quando sinto que estou saindo um pouco [do amor pelo cinema], eu paro, passo duas semanas assistindo o que eu quiser e volto a fazer o conteúdo que tenho que fazer e falar sobre os filmes que tenho que falar, que é o ritmo de trabalho que eu tenho que ter.
GJ: Tornar-se crítico quase sempre nasce de uma necessidade de falar sobre o cinema e essa prática tem se ampliado até mesmo de maneira informal por conta do ambiente digital, via Letterboxd, Twitter, etc. Como é a sua leitura sobre essa popularização?
FL: Eu não posso ser hipócrita, porque eu surgi no Instagram. Então, se não fosse as democratização das redes sociais e do acesso ao cinema especificamente, [eu não teria reconhecimento], que é algo que eu bato na tecla bastante desde quando eu comecei a fazer conteúdo, principalmente pelo local em que estamos. A gente não tem cabine de imprensa aqui, a gente está longe de grandessíssimos veículos de comunicação que eu jamais tive a pretensão de sequer sonhar em escrever, primeiramente por eu não ser formada em jornalismo, e também porque é um local muito segmentado mesmo. Só quem está lá vai conseguir entrar nesses lugares e adquirir esse posto. Então, o Instagram abriu e derrubou todas essas barreiras pra mim, e não só barreiras geográficas, mas até mesmo barreiras de preconceito e de ter pessoas do Nordeste falando de cinema da maneira como eu falo nos espaços que já foram me dados, e que eu sei que são espaços que normalmente são renegados a pessoas desse eixo.
A tecnologia tem seu lado positivo, as redes sociais têm seu lado positivo, a “letterboxdização” [risadas] da crítica tem seu lado positivo no sentido de gerar algo que eu gosto muito que é criar comunidade. Eu acho que criar comunidades é muito importante, pessoas jovens criando comunidades é muito importante, pois é uma forma de você se encontrar, de certo modo. Você encontra o que você gosta, e a partir disso, você encontra sua tribo, você encontra as pessoas com quem você vai dividir sua experiência, que vão ao cinema contigo, que vão conversar sobre os filmes com você e que irão expandir o seu pensamento crítico, que pode até não ser o mesmo da crítica de cinema em si, mas todos possuem liberdade para exercê-lo. Então, eu acho que a “letterboxdização” da crítica é algo positivo.
A única coisa que vejo de ruim mesmo é que acaba se tornando algo similar a um dito podcast que eu entrei em uma discussão recentemente e que tomou proporções absurdas. Então, ao falar sobre cinema, eu sempre tive, ou ao menos quis ter, essa noção de que eu estava pisando em ovos por não ser minha área, aquele cuidado de até mesmo se escutar e a coragem e humildade para se desculpar depois, que é algo que às vezes a gente vai perdendo com o tempo. Eu acho que o crítico tem o ego muito grande, então é muito difícil pedir desculpas quando algo está errado, mas é super importante fazer isso quando algo não é da sua área. Existem muitos críticos que não são da área do cinema, não são do audiovisual, alguns até mesmo não possuem ensino superior, então é preciso ter cuidado ao falar sobre essa arte e sobre o trabalho alheio. As pessoas perdem esse cuidado na Internet, é muito fácil perder isso usando de escudo a frase “é só minha opinião”. Eu tenho medo disso, a internet faz as pessoas não terem responsabilidade sobre aquilo que elas falam.
Leonardo Alves: E você sente que existe uma descrença maior no seu trabalho por você não ter essa formação ou por você ser mais recente nessa área da crítica?
FL: Pra cacete! O que eu sofri em Cannes esse ano foi terrível na minha vida, porque eu não tinha o que falar. Algumas críticas eram válidas, mas outras extrapolavam bastante. Às vezes são críticas injustas justamente pelo local e posição em que estou, então surgem argumentos como “ela não cobriu festivais de cinema o suficiente”. Como eu vou cobrir festivais de cinema tanto quando você, que está em São Paulo com um festival a cada duas semanas? Como eu vou ter acesso às cópias dos filmes nacionais que você assiste na Cinemateca, e eu tenho que ficar aqui me matando de procurar na Internet uma versão que eu consiga assistir? Eu não vou ter o mesmo tipo e aprofundamento de conhecimento que você tem, porque você tem muito mais oportunidades do que eu.
Um outro recorte óbvio é que eu sou uma mulher de 25 anos. Eu acho, eu não sei, mas eu não vejo muitas pessoas abaixo de 25 anos entrando na Abraacine. A grande maioria tem mais de 30 anos, mais de 40, então eu não tenho as mesmas referência que essas pessoas têm, mas eu sou colocada no mesmo local de comparação de todas elas a partir do momento em que eu entro na internet e eu mostro meu rosto, que foi algo que eu evitei muito no começo. Quando comecei o Cinemafilia, eu passei dois ou três anos escondida atrás de uma logo, porque eu tinha medo de mostrar meu rosto. E tem muita gente na Internet, na “letterboxdização”, no “filmtt”, que se esconde atrás desses ícones, que não aparecem, e estão lá esculhambando, e não só eu, esculhambam o Phillipe Leão, esculhambam o [Arthur] Tuoto, esculhambam quem for. É muito fácil esculhambar a pessoa quem está lá mostrando o rosto, quem está falando e está sujeita a errar. É muito injusto às vezes, mas já aprendi que é o que vai acontecer, vai ter gente falando “ela não merece, ela quer passear”. Se eu quiser estar em Cannes, se eu quiser estar nesses locais, é esse o preço que tenho que pagar.
GJ: Os detratores se manifestam muito, mas também existe o fenômeno contrário.
Paulo Vinicius Coelho: Os fã-clubes!
GJ: Isso! O que você acha da “divapopzação” dos críticos de cinema?
Leonardo Alves: O fenômeno “o crítico X é quem valida minhas opiniões”.
FL: Pra quem é espectador de ocasião, o crítico só presta quando ele valida a opinião dele. O espectador de ocasião não é um cinéfilo. Ele vai ao cinema uma vez a cada duas semanas, ele quer ver a estreia do mês, ele gosta de ir ao cinema, e não tem nada de errado com isso. Mas ele vai procurar alguém que fale sobre cinema, que valide a opinião dele e que fale “esse filme vale o seu dinheiro”, então ele não quer um crítico, ele quer um guia de consumo. Nós não somos guias de consumo. Quando as pessoas que nos leem entendem isso, acaba soando como um absurdo na maioria das vezes. “Como assim ela gostou de tantos filmes que eu gosto e não gostou desse?!” Tem pessoas que vão levar na boa, e outras que vão se sentir confrontados, com a síndrome do “e eu?”. Também existem pessoas que se ligam pelo ódio ao certo filme, então eu ganhei muitos seguidores quando falei mal de “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo”, assim como perdi muitos também.
Porém, é muito perigoso quando você faz esse movimento de concordar com tudo que certa pessoa fala, mas esquece que existe toda uma história da crítica anterior a isso. Eu tenho visto muito isso com o Shyamalan recentemente por conta do Tuoto, que é um defensor de “A Dama na Água”. Aí a galera vai lá e fala “as pessoas gostam do Shyamalan agora por conta do Tuoto, é o tuotismo”, “você gosta de Falsa Loura porque o Phillipe Leão gosta”, “você é fã de O Poderoso Chefão por causa do Villaça”. Pelo amor de Deus, essas pessoas não inventaram esses filmes, essas pessoas não inventaram a tendência de enxergar o Shyamlan como autor, isso veio da crítica europeia. Então, já existiam críticos fazendo isso antes, você não é o Pedro Álvares do Cabral do Falsa Loura, e eu sei que o Phillipe Leão sabe que ele não é, mas o pessoal pega ele pra falar isso. Então, eu acho que isso diz muito mais sobre quem está consumindo do que sobre o próprio crítico. É claro que temos que reforçar para os leitores: “pessoal, essa é a minha opinião, não é a opinião de vocês, tenha sua opinião, eu odiei tal filme, assiste lá e depois me diz”. Eu já tive vários debates com seguidores que gostaram de um filme que odiei. Mudei minha opinião? Não, mas é legal saber que a pessoa enxerga o filme de outra forma. Esse é o exercício da crítica.
Leonardo: Mas você já mudou drasticamente de opinião sobre um filme depois de discutir a respeito dele?
FL: Já. Mudei de opinião sobre Titanic, mudei de opinião sobre Avatar, mudei de opinião sobre o James Cameron, basicamente [risadas]. Mas assim, eu nunca mudei de opinião radicalmente por conta de uma crítica. Eu sou muito advogada às vezes, então eu misturo a crítica com a advocacia. Às vezes eu olho uma crítica e faço uma contestação dela, como se fosse uma petição inicial, sabe? [risadas]. Em alguns momentos, eu até construí textos a partir de coisas que eu não concordava em textos de outras pessoas, ou que eu concordava, mas não tanto assim. Foi assim que aconteceu com o [Luiz Carlos] Merten, quando eu falei sobre o algoritmo do ódio, por conta de um texto um dele em que ele falava sobre essa tendência de alguns críticos tem de se tornarem personagens de si mesmo. Às vezes isso ocorre, a personalidade inteira do crítico passa a ser odiar o Nolan e você se torna um personagem de si mesmo só pra gerar engajamento. Eu falei sobre como as redes ajudam nisso, então são as armadilhas do Twitter, que às vezes eu caio e depois tenho que me corrigir. Elas são muito fáceis de cair.
GJ: Advogados e cinéfilos têm fama de chato. Como você se sente sobre isso sendo ambas as coisas?
FL: Às vezes eu tenho que me policiar [risadas]. Não é que eu me ache chata, mas eu gosto muito de debater. Isso pode ser uma característica de gente chata, as pessoas não estão acostumadas com isso. Eu sou muito de ir lá, defender, sustentar. Às vezes eu estou errada? Sim! Demoro pra aceitar? Também, mas eventualmente eu aceito. Mas eu acho que sim, é uma profissão de gente chata mesmo.
Eu sou um pouco fora da curva, às vezes eu tento trazer um lado um pouco mais pessoal pro meu conteúdo. Claro que isso não define se eu sou chata ou legal, mas eu sinto que tentar levar com descontração algo que as pessoas levam com muita seriedade, que é a critica de cinema. Eu sou muito jovem, meu público é muito jovem, a minha forma de falar também é muito jovem. Eu uso muito cultura pop pra falar sobre cinema, eu fiz uma lista de filmes Brat, que é algo que você não vai ver muitos críticos fazendo. Eu faço isso, então eu acho que sou chata até certo ponto, até a segunda página. Há controvérsias!
GJ: Agora vamos para um round de perguntas mais diretas. Nós somos a Sociedade do Copo, então bebemos bastante. Qual é um bom filme ou diretor para acompanhar uma ressaca?
FL: Eu tô com um [diretor] na cabeça que eu assiste mais recentemente, todo filme dele tem uma pessoa bebendo, que é o Hong Sang-soo. Nos filmes dele sempre tem pessoas bêbadas, então eu penso logo. Antigamente, no começo do Cinefamilia, eu fazia quadros toda sexta-feira sobre filmes para assistir com X bebida. Então, já teve sobre uísque, que tinha Django Livre; sobre cachaça, que tinha “Ai Que Vida” no meio; sobre cerveja, que tinha “American Pie”; sobre vinho branco, que tinha “Blue Jasmine” do Woody Allen.
Paulo Vinicius: Acho que ela bebe mais que a gente [risadas].
FL: Já fiz até sobre filmes japoneses pra falar sobre saquê. Coloquei “Era Uma Vez em Tóquio”. Então eu tenho um filme diferente pra cada bebida, mas da ressaca eu nunca pensei. Pode ser o Hong Sang-soo mesmo.
GJ: De Palma ou Hitchock?
FL: Eu ainda fico com o clássico Hitchcock. Não vou desenvolver muito, mas gosto dos dois.
GJ: Agnés Varda ou Claire Denis?
FL: Hoje em dia, Claire Denis.
GJ: Agora uma disputa brasileira clássica: Glauber ou Sganzerla?
FL: Posso responder Reichenbach? [risadas]
GJ: Algo que você contraindica?
FL: Um filme que assisti recentemente, “Deadpool e Wolverine”.
GJ: E algo que você indica?
FL: Eduardo Coutinho. Mudou minha vida.
Por: Gabriel Jansen (com intervenções da Sociedade do Copo)





Deixe um comentário