
Atenções voltadas, nesta semana, para um dos melhores lançamentos musicais brasileiros deste ano: Caju, segundo álbum solo da cantora e compositora Liniker. Em pouco mais de uma hora de duração, as quatorze faixas do trabalho se espraiam sob diversos gêneros, do jazz ao pagode romântico; da disco music ao já característico R&B com sonoridade vintage.
Os predicados do novo trabalho são inúmeros, valem todo o destaque. Me fixar aos termos exclusivamente musicais, ou, pior, ao rigor de uma avaliação estética, no entanto, não me parece o mais adequado.
Fato é que, ao ouvir o disco, curiosamente não pensei em música. E não, não é porque as canções padecem de brilho, pelo contrário. Trata-se de um trabalho deliciosamente sensível.
E esta sensibilidade, expressa nas letras, é o que me pôs conectado às canções. O texto do disco tem frescor, é espontâneo. As frases são límpidas, genuínas, sem afetações, o que me pareceu em absoluta sintonia com o ser e estar de um jovem brasileiro nos anos 2020.
Adianto ao leitor: este texto não é uma resenha. Portanto Caju, para mim, volto a dizer, não é apenas música. O conteúdo, a textura, os tons, tudo se apresenta como um statement; uma posição afirmada, por meio da arte, para se declarar ao mundo. Um manifesto, neste caso, cuja reivindicação é o desejo.
O desejo é potência. Acostumamo-nos, em contrapartida, a ocultá-lo, especialmente quando da descoberta da paixão. O medo de ser rejeitado, de ter o acalento de um bem-querer negado a quem conferimos tanta afeição repele, irrita, machuca. Daí uma das razões de segredarmos tanto, ou disfarçarmos, sob o véu da indiferença, o que o coração, no fundo, não quer – e nem pode – represar.
Caju chegou negando a tudo isso. Aos truques e pequenas artimanhas da paixão, o desprezo. Porque ser amado é fundamental. Mais: dizê-lo, falar de amor não é piegas, antiquado, déclassé. Alguns axiomas como “aprenda a amar a sua companhia, antes de amar alguém” nada dizem senão o equívoco de depositar em um individualismo tacanho as possibilidades de troca, aprendizagem e formação da qual o outro nos é imprescindível. Sobretudo para descobrirmos em nós coisas nunca antes notadas, ou – por razões de força maior – propositalmente encobertas.
Penso, por certo, que estar seguro diante da afirmação do desejo, da febre do desejo, das vontades que o desejo nos impõe é sinal da madureza. Com destaque, também, ao sentimento de fazer as pazes com a própria autoestima. Vencer o medo, nestes termos, sejamos francos, só é possível quando reconhecemo-nos dignos e capazes do ato de amar. E isto só é possível se, além de conhecermos mais a nós próprios, estimarmo-nos bem, zelosos por quem somos.
Do lado de cá, de modo estritamente pessoal, afirmo que a autopercepção de uma pessoa preta é marcada por opressões e estigmas – bem-sucedidos, lamentavelmente – em atraiçoar a forma como nos enxergamos. Em uma trajetória na qual pesa, como mácula, ser o que se é, ter as características que se tem e tudo o mais delicado à própria natureza, o amor soa distante; uma regalia que não nos é direito.
Ver-se dele merecedor é ultrapassar os estigmas, os fetiches, a autossabotagem. Eu me vejo em todo este processo, por isso recebi as canções, em Caju, de um jeito diferente, como grata surpresa. Mais velho e mais apaixonado.
Sua gustação – como o peso de viver– agora é também mais doce.
Por: Redação.





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