Ensaio sobre o esquerdomacho ludovicense


Lembro do susto e da sensação de ter sido acusado de algo grave quando fui, pela primeira vez, chamado de “esquerdomacho’’. Imagino que a palavra tenha se popularizado durante esse período, em meados de 2019. Desde então, o termo entrou de vez no léxico nacional, e, por mais que ninguém saiba ao certo explicar o…


Lembro do susto e da sensação de ter sido acusado de algo grave quando fui, pela primeira vez, chamado de “esquerdomacho’’. Imagino que a palavra tenha se popularizado durante esse período, em meados de 2019. Desde então, o termo entrou de vez no léxico nacional, e, por mais que ninguém saiba ao certo explicar o que significa ser um esquerdomacho, muita gente acredita que a identificação de um é imediata.

Fato é que o esquerdomacho, a despeito de características universais, como o apreço por Belchior e o simbólico boné do MST, possui certas distinções a depender do seu nível de atuação geográfica. Digo: é provável que essa figura tenha sido germinada na Lapa, em Santa Teresa ou em qualquer outro bairro boêmio do Rio de Janeiro, mas, em São Luís, a nossa versão importada adquire aspectos…peculiares. Divisamos assim o esquerdomacho ludovicense! (apud Mário Faustino!):

De modo geral, o perfil desta criatura é objeto de fascínio, algo digno de programa em um Animal Planet da vida. Seus hábitos, gostos e trejeitos dariam boa pauta para grandes documentaristas do inútil. Não à toa, cá estamos nós, em uma terça-feira banal, nos debruçando sobre os pormenores do esquerdomacho, aquele que é ao mesmo tempo tão distinguível quanto impalpável, tão material quanto metafísico, tão esquerdo quanto macho.

Desta forma, coube a esta sociedade se aventurar na jornada de aprofundamento sobre o que é, o que faz, onde vive e como se comporta o esquerdomacho. Há de se destacar: qualquer semelhança com algum (ou alguns) de nossos membros é mera ironia do destino (ou não). Jornalistas que somos, estamos cientes do interesse público neste tópico, bem como da absoluta inutilidade de passar mais de 5 minutos pensando sobre isso. Felizmente, sabemos não nos levar tão a sério, diferente daquele seu amigo que não tira o Kafka da ecobag.

Esquerdomacho foclórico vs esquerdomacho performático

Adianto ao leitor que não é fácil situar o esquerdomacho ludovicense em uma única matiz: isto porque há uma diferença, sobretudo em termos de classe, que divide a especificação: de um lado, temos o esquerdomacho folclórico, arquetipicamente oriundo da universidade pública, cujos espaços de atuação costumam ser o Solar Cultural Maria Firmina dos Reis – onde ele, muito provavelmente, tende a marcar os seus primeiros dates – e o Bar do Porto, também sempre no leque de opções para um eventual encontro.

O esquerdomacho performático, por sua vez, traz um ensorcellement com um pé no alternativo. Menos samba, mais Phoebe Bridgers; menos Psica, mais Lollapalooza; menos Godofredo Viana, mais Trivia. Variando entre conversas entusiasmadas sobre as atualizações na Letterboxd, num ponto equidistante entre as cadeiras de praia da Lagoa e algum bar com ar refrigerado, são indispensáveis a este arcano o bigode e a camisa vintage de algum time de futebol. Mas não falaremos dele hoje.

Estamos pressupondo que o nosso esquerdomacho hipotético gosta de papear com pretendentes enquanto bebe alguma coisa. Não se preocupe, caso o álcool não esteja na ordem do dia, há o Chico Discos, ou qualquer cafeteria no Centro – sim, o Centro é muito importante nesta descrição; é basicamente o habitat do nosso herói de nobres causas à esquerda do espectro político.

O esquerdomacho folclórico não costuma surpreender em seus gostos. Sim, ele assistiu Aftersun no Cine Lume, gostou de Bacurau à época do hype, tem apreço indiscutível pelo cinema nacional; “cinema nacional, gostoso demais”, disse ele, sem sombra de dúvidas, em algum dos seus mais de 500 tuítes, que dificilmente variam entre temas como os problemas políticos e estruturais de São Luís, aforismos quaisquer sobre música e sociologia freestyle, num misto de Luiz Antônio Simas e linguagem pós-irônica.

A filmografia de Sganzerla e Glauber Rocha não lhes são um problema; a crônica é, provavelmente o seu gênero favorito, muito embora, nos últimos anos, ele esteja começando a se aventurar nos romances da nossa querida Conceição Evaristo.

A vida literária deste herói dos fracos e oprimidos passeia entre Jeferson Tenório, Itamar Vieira Jr – e seu onipresente Torto Arado –, algo da Bell Hooks, que ele leu para não fazer feio em um date com a mutual estudante do CCH, xavecada na DM com uma mensagem dele dizendo adorar o trecho do livro da escritora americana, quando, na verdade, nunca o havia visto até ela publicar no story, entre outras artimanhas. Não nos esqueçamos: ele também tentou ler, ou melhor, deu uma olhada em Um Defeito de Cor, depois do desfile da Portela.

Você nunca conhecerá um esquerdomacho, folclórico ou não, que não goste de música. Talvez ela não saiba muita coisa além do Transa, A Tábua de Esmeralda, Acabou Chorare e Clube da Esquina. Ok, ninguém precisa ser expert mesmo no tema. E os discos mencionados já cumprem o papel de situá-lo dentro da categoria, sem maiores problemas.

Considerando que o sujeito conheça um pouco mais do riscado, não será difícil que Tom Zé e Sérgio Sampaio lhes sejam muito especiais. Anda um pouco óbvio gostar de Caetano e Chico, sabemos disso. Seu repertório será costumeiramente publicizado em stories musicais, à espera de um like que o justifique. Como alguém supostamente dentro das características, posso afirmar: geralmente, tem método.

O esquerdomacho folclórico e o Grande Instagram: veredas

O like no story é, no ambiente virtual, o principal sistema de validação no flerte. Há, claro, controvérsias, likes despretensiosos, apenas pelo conteúdo. Em todo caso, vamos desconsiderar esta possibilidade. A vida virtual do esquerdomacho folclórico é, por regra, low profile. Os seus conteúdos tendem a ser excertos de livros, paisagens tais como o pôr do Sol na Praia Grande, ou alguma frase de ordem escrita pelos muros do Reviver.

Fotos de mensagens com teor popular, em bares também populares, auxiliam-no em direção ao aesthetic boêmio. Biscoitos, ainda que raros, caem bem; stories com gatinhos de estimação são quase infalíveis. Buscando uma ousadia que o torne, aparentemente, um esquerdomacho não tão esquerdomacho assim, pululam, vez ou outra, canções de divas pop entre as suas audições no Spotify.

Esquerdomacho folclórico: um artista (ou quase isso)

Um bom detalhe a ser destacado é a perspicácia do esquerdomacho. Sua sensibilidade, mesmo quando forjada, permitiu que certos dotes artísticos fossem desenvolvidos logo nas primeiras rotas de sua juventude. Não é incomum que você o veja com uma câmera na mão – seja uma DSLR, uma analógica ou uma cybershot -, uma guitarra de modelo telecaster (possivelmente amarela), recitando poesias nas redes sociais mais próximas ou dedilhando algum clássico da MPB que ele acredita ser unanimidade desde sempre.

Antes que me entendam mal: isso não é um ataque! Na verdade, alguns desses gostos e dotes são partes que nos integram como indivíduos, mas é difícil negar que dados elementos são formadores naturais deste arquétipo de homem (ou estereótipo, chame como quiser), que nós, inclusive, já fomos encaixados – cabe aos leitores dizer se corretamente ou não.

O imbróglio que orbita o sistema esquerdomacho folclórico está pouquíssimo ligado ao gostar propriamente dito, mas, sim, à operação destes supostos gostos, ou, melhor ainda, à perfomance de tais atributos.

A perspicácia mora justamente na instrumentalização dos elementos aqui elencados. Prepare-se, as investidas deles serão baseadas em fotografar você, te escrever uma canção ou outra e, quem sabe, plagiar alguma poesia do Neruda que ele leu no site “Pensador”.

Fulcral relevar que as questões citadas nestes últimos parágrafos se apresentam em linhas gerais e são vistas em quaisquer locais da nação, mas em São Luis é possível observar uma ocupação notável da espécie pelos corredores do Centro de Ciências Humanas da UFMA, com algumas variantes e subespécies também encontradas pelos becos e rampas do Centro de Ciências Sociais da mesma instituição. No mais, vale dizer que depois que você conhece e se traumatiza com o primeiro, os outros passam a ser mais inofensivos.

Amor, noite e o esquerdomacho folclórico

Sabemos bem: a vida de um esquerdomacho folclórico, em certas circunstâncias, pode tornar o caos a ordem. Os relatos são muitos, até previsíveis: falta de responsabilidade afetiva, traições e vida dupla, nos casos mais leves. Em seu grau máximo de atuação, o esquerdomacho folclórico – sob as inseguranças patognomônicas do homem médio, afinal – tende a incorrer em situações graves, que variam entre ideias na DM de novinhas muito novinhas, ou, pior, em relacionamentos de afetação doentia. Você entra esperando Rita Lee e Roberto de Carvalho e sai com uma medida protetiva.

Tudo isso porque a vida afetiva do esquerdomacho folclórico dificilmente não será movimentada. Em São Luís, ele atua em todas: apps de relacionamento, Instagram e, vale destacar, nas noites afora. Ele não tem medo do papo, da declaração. Em bom português, de chegar junto e comunicar interesse. Nas rodas de samba – um dos seus ambientes prediletos – o ato de se aproximar e dizer o que quer é praxe. No Lampiões e no Tebas, lá estará ele. Com ou sem Copo Stanley. Com ou sem camisa de linho. Com ou sem cigarro. Mas estará lá.

Reservo um parágrafo específico ao Bar do Léo por ser ali, digamos, a sinagoga dos esquerdomachos de todas as categorias. No caso do esquerdomacho folclórico, sua presença tende a ser genuína e quase fixa, demonstrada em stories semanais e um savoir faire irrestrito na intimidade com funcionários do local e frequentadores também assíduos. Você pode ir lá em qualquer dia. Haverá pelo menos um exemplar. Ele porá inúmeras músicas. Caso esteja solteiro – e, caso não esteja, ele também pode fazê-lo –, não estranhe um bilhetinho bem pensado, enviado pelo garçom, avisando que você é tão linda quanto uma música do Caetano.

No decorrer de um envolvimento com um esquerdomacho folclórico de São Luís, duas coisas chegam a ser imperativas. Interpelado se é ou não um esquerdomacho, é claro que este negará. Dará um sem-número de boas razões para isso. E, no fundo, é possível que não o seja. Não em termos de estratégia.

A segunda situação não chega a ser bem uma surpresa, mas pode causar desavenças. Caso você esteja apaixonada por um esquerdomacho folclórico ludovicense e queira se certificar se vale a pena ou não seguir adiante, nem precisa pensar muito: ele já ficou com alguma amiga sua. Duas, talvez. É.. três, de repente.

Fica por sua conta e risco.

POR: Paulo Vinícius Coelho, Gabriel Jansen, Leonardo Alves e Juliano Amorim

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