
Regidos pela crueldade do marasmo, atravessávamos mais um domingo. As linhas ofuscantes e esbranquiçadas do sol que ocupavam o quarto, somadas à melancolia ensaiada que alastra-se pelos canais de TV e os paredões de som dos vizinhos, eram plenamente capazes de impedir nosso sono. Naquele momento, nossos olhos eram como retrovisores de uma estrela. Deitados estávamos, deitados seguíamos.
– O que fazer hoje? – perguntei, sem obter resposta.
Matar-me a sede com uma cerveja soava ineficaz para reverter a apatia, mesmo que bastante tentador, justamente por ela, constantemente ao meu lado, não gostar de cerveja. Não faria sentido ser feliz sozinho. Não no domingo. Domingo era nosso dia, nossa reserva oficial para momentos únicos ou puramente triviais. Pensando nisso, perguntei mais uma vez:
– O que fazer hoje?
O silêncio reinou soberano por alguns segundos, até que foi deposto por um suspiro enraivado e recheado de insatisfação. Fiquei sem graça, mas hoje entendo-a perfeitamente. Sim, eu era um pouco chato. E além disso, sem ser um dia nosso, o que é o domingo se não o receptáculo perfeito para o ócio? Subitamente, como quase todas as genialidades, minha companheira surgiu com uma ideia:
– Vamos fazer uma faxina.
Eu, muito sábio, apenas acatei. O desajeitamento era o motor dos meus passos, então, nessas ocasiões, a regra sempre foi fazer o que me era exigido. Me envergonho um pouco, mas era o que ocorria. De qualquer forma, chegava a hora de remover a poeira dos móveis, revirar os painéis de vidro e me esgueirar pelos quartos inexplorados. Lembro-me bem, fui enviado à uma ala que contia poucas coisas além de uma espessa névoa de poeira sufragada pela escuridão. Logo abri as janelas, pois o cômodo precisava respirar urgentemente. Olhei ao redor e foi magnético: imediatamente me aproximei do charmoso álbum de fotografias posto sobre um sutil amontoado de velharias. Ao abrir, a vida virou-me do avesso, e assim descobri que o avesso era meu lado certo.
Meus olhos murchos desabrocharam ao encarar aquelas eternidades estáticas. Ali estavam pedaços de uma vida inteira que jamais conseguiria explorar, moravam naquelas páginas os retratos da infância de meu amor. Era como realizar nostalgias de algo que sequer vivi. As fotografias me diziam mais sobre ela que a réplica do Portinari pendurada na parede, os discos do Nirvana ou as centenas de livros que enfeitavam sua estante. De repente, não haviam mais instantes obtusos em nossa narrativa. O sentido era farto, e o sentido se propagava vorazmente através de meus próprios sentidos. Quantas perguntas surgiram à medida que o sorriso se curvava? Quantas respostas nasciam ao passo em que a lágrima brotava? Como assim ela já foi ao Chile? Aquele foi seu primeiro machucado? Essa aqui foi no interior. Caramba, a família inteira reunida.
Tomado por um sentimento incapaz de ser nomeado, percebi pela primeira vez a dor que reside na beleza. Abracei as contradições, pois meu fascínio era puro, mas observar o álbum sem autorização era quase como profanar solo sagrado. Era permitido a mim conhecer aquele fragmento da história? Até hoje não sei. Continuei a revirar as páginas, adicionando camadas cada vez mais sólidas ao abstratos elementos de sua alma. Cheguei à última. A derradeira imagem era singela, mas significativa: um tobogã vermelho, seus cabelos ainda loirinhos, os óculos remendados e um sorriso pueril jamais reproduzido.
Sinto que a conheci de vez, o que não a impediu de reclamar. O cômodo ainda estava sujo.
Por: Gabriel Jansen





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