
Wesley Sousa é músico, professor e ativista social. Mas, antes disso, ele é filho de Dona Suely. O laço com a mãe é sempre destacado por ele em qualquer apresentação. E o motivo é simples: Wesley só entende quem é por entender de onde vem.
Nessa mesma sintonia, ele encontrou na música respostas para diversas dúvidas. De Stevie Wonder a Banda Calypso, tudo que já passou pelos ouvidos do – acredite se quiser – paulistano de 37 anos, possibilita uma vastidão de histórias contadas e cantadas.
Entre aulas ministradas no Instituto Federal do Maranhão (IFMA), noites de pagode com o grupo Argumento e ousadas iniciativas na vida política, ele encontrou um tempo para nos falar de tudo um pouco em uma tarde ensolarada no Butiquim do Carlos, mesmo sem beber uma gota de álcool (o que foi compensado pelos membros da Sociedade do Copo)
Leonardo Alves Ferreira: Antes de se apresentar como professor, ativista ou músico, você sempre diz que é filho da Dona Suely. O que torna essa apresentação tão definidora de quem tu és?
Wesley Sousa: Caramba, eu vou começar chorando (risos). Olha, apesar de imaginar que nós somos esse hall de experiências desde o momento que a gente nasce até agora, na verdade, nós somos mais do que isso: nós somos os processos vividos pelas pessoas que vieram antes.
Minha mãe, por exemplo, é uma bacabalense (maranhense de Bacabal) que saiu para São Paulo na década de 80, fazendo esse fluxo do êxodo rural.
Primeiro saiu a minha tia, com 17 anos, e depois a minha mãe. Eu, originalmente, sou paulista, filho de uma maranhense e de um baiano. Depois minha mãe adoeceu e nós tivemos que voltar para cá e eu cresci sendo cuidado por ela e por minhas tias. Então, acho que isso explica muito do que eu sou. Quando eu tive ciência, eu disse “eu sou fruto disso aqui, fruto dessa raíz’’.
Para mim, inclusive, é um demarcador importante; uma forma de não esquecer: eu sou filho de uma mulher que criou os filhos sozinha, que fez esse processo de êxodo em busca de oportunidades…imagina Bacabal na década de 80?! Ter ensino médio já era muita coisa e minha mãe, inclusive, não teve.
E aí quando eu vou estudar outras coisas, tipo João do Vale, eu vejo relação com o meu avô, com minha mãe..eu tento usar isso como uma lembrança pra eu não vacilar na vida.
Leonardo: Como se desenvolveu essa relação com a música na tua vida?
WS: A minha família é muito musical, mas ninguém tocava ou cantava. E era uma família evangélica. Nessa cultura, tem uma coisa muito forte da música. A minha tia, apesar de ter um laço muito forte com a Igreja, ouvia de Stevie Wonder a Companhia do Calypso. Então eu sei tudo de Stevie Wonder, mas também de Calypso e do Hinário Cristão, que minha mãe e o meu avô ouviam o dia inteiro.
Só que eu era um ser meio a-musical, no sentido de que eu não tinha talento para esse negócio. Mas eu era apaixonado por isso. Já minha irmã era muito talentosa, cantava afinado, fazia segunda, terceira voz…
E aí na oitava série, nas férias, eu ganhei revistinhas que ensinavam teoria e como tocar teclado. Aí, moleque, de férias, eu lia as revistinhas e achei que tinha entendido. Comecei com um teclado de brinquedo…fazia tudo errado (risos), fazia uns acordes que a galera chama de “pé de galinha’’, mas eu era muito apaixonado por aquilo.
A vida acabou transcorrendo e algumas relações eu fui fazendo depois. Por exemplo, essa história do João do Vale e do êxodo que ele procede, a questão racial, a questão econômica, o cara que é analfabeto mas que é quem melhor canta o êxodo rural na história do Brasil…
A própria política veio por intermédio disso, por intermédio da música.
Paulo Vinícius Coelho: Quando você percebeu que a música era uma boa oportunidade profissional?
WS: Foi bem cedo. Eu começo a aprender teclado no final do oitavo. No ensino médio eu estudava no CEFET [Centro Federal de Educação Tecnológica], no curso de Eletrotécnica. Difícil pra cacete…um cálculo infernal de três páginas, se errasse um sinal não acertava mais nada…e aí eu me dividia entre esse estudo no CEFET e a música. No final do segundo ou terceiro ano, surgiu a chance de começar a tocar em uma igreja de maneira remunerada. Eu tocava até então voluntariamente. E depois no final do ensino médio surgiu essa chance de tocar na Igreja Internacional ganhando uma graninha.
Leonardo: Desde sempre tu olhou para a música com esse olhar transformador, né? Como tu enxerga esse potencial de transformação social na música?
WS: A arte, em geral, é um instrumento para falar de coisas que a gente não consegue dizer por melhor que o nosso texto seja. Cito novamente o João do Vale quando ele conta em “Minha História’’ a impossibilidade de estudar, a pobreza, vender mungunzá etc. São coisas muito singelas e fáceis de entender.
Todo mundo ouve e entende, mesmo que a pessoa não tenha tido acesso a educação formal. E a pessoa acaba sendo tocada por essas críticas em algum nível.
Outro exemplo: Luiz Gonzaga quando fala “quando olhei a terra ardendo qual fogueira de São João’’. Bicho, ele ta falando de um aspecto climático (a seca), falou da fogueira de São João (manifestação mais representativa do Nordeste), falou do aspecto da religiosidade, porque menciona Deus…ou seja, o cara falou de um monte de coisa em duas frases.
Então, eu uso muito isso no instrumento da educação. Eu sento com os alunos e percebo que todo mundo já ouviu Asa Branca. Então eu provoco: vamos elencar cada item desse. Vamos falar do êxodo rural, da falta de chuva, da dependência das pessoas da chuva…
Eu acho que a arte foi quem melhor contou a história e quem melhor criticou. Acho que ela é o instrumento mais poderoso de comunicação e de educação.
Leonardo: Pensando nesse aspecto da arte e da cultura enquanto ferramenta educacional, a minha pergunta é como tu enxerga a tecnocratização do ensino, vide o Novo Ensino Médio?
WS: O debate sobre possíveis reformas na nossa educação é super necessário, mas a linha que está vencendo, hoje, empurra o filho do pobre para a manutenção da pobreza. Ele aprende uma profissão cuja inserção no mercado vai ser em determinado ponto e, no máximo, ele vai ascender um tiquinho financeiramente. Mas os debates mais profundos de sociedade ele não vai ter acesso, porque isso está na História, na Sociologia, na Arte…o debate sobre como a estrutura social pode ser reconstruída está nas humanidades. São justamente essas disciplinas as que vão sendo afastadas com as discussões que estão vencendo.
Em algum nível a gente pode e precisa fazer esse debate. Acho que os Institutos Federais participam muito bem dessa discussão e entendem as humanidades como a possibilidade que os moleques têm de pensar o mundo fora da caixinha.
Leonardo: Uma percepção geral é que as pessoas estão desanimadas com a política. Quero te perguntar o que te leva a embarcar nessa terceira candidatura? [Wesley concorreu ao legislativo municipal em 2020 e ao cargo de deputado federal em 2022]
WS: Eu dou umas disfarçadas, mas eu também desanimo às vezes (risos). Há muitos dias em que eu repenso essa decisão, porque é uma disputa contra estruturas muito poderosas, e às vezes, mesmo nós progressistas, usamos essas estruturas. Não são poucos os relatos de amigos que não conseguem levantar a bandeira ou defender uma candidatura porque a estrutura pública os condiciona. Quem está no domínio da estrutura pública diz “você tem que votar nesse’’, ‘’não pode dizer isso’’. É a coisa do patrimonialismo que está contaminado na vida pública há muito tempo.
Então, observando a minha trajetória familiar, a ida do meu avô para Serra Pelada em busca de ouro, o fato de que minha mãe teve que migrar para São Paulo muito cedo…tudo isso me faz achar que eu tenho que lutar para devolver algo para a sociedade. E o start é no Batucando, um projeto de ensino de música que tem sete anos e meio.
Apesar de ter crescido em bairros de periferia, eu não tive contato com facções. Hoje eu tenho três alunos , um já adulto, os outros dois adolescentes, que viram o irmão morrer com 12 tiros. O moleque tinha 14 anos…
Eu tenho aluno que viu o padrasto morrer com dois tiros na cabeça no domingo de manhã. Ele teve aula de música sábado de amanhã, no domingo de manhã entraram na palafita em que ele mora, deram dois tiros na cabeça do padrasto dele, a primeira pessoa que chegou foi uma amiga minha que encontrou ele em estado de choque dizendo “e agora, quem vai me levar pro colégio?’’
Uma coisa é você ouvir essa história, outra coisa é você ser amigo daquela família, saber o apelido do menino…
Quando chove, esses garotos seguram o colchão pra cima até a maré descer, nas margens do Rio Anil. Essa foi uma provocação para que eu falasse “eu acho que eu posso entrar nesse negócio [a política] para tentar ser uma centelha’’. E eu também sou realista pra perceber que, por mais que eu tenha entusiasmo, esse enfrentamento é muito difícil.
Leonardo: As redes sociais favorecem o debate ou o torna ainda mais perigoso?
WS: A dinâmica do mundo me parece ter mudado. Por exemplo, antes eram muito comuns manifestações de rua, que ainda acontecem, mas, hoje, com uma dificuldade maior, por conta de ônibus, do fato de que as pessoas começam a trabalhar muito cedo e terminam muito tarde, de compromissos familiares…
Essa dinâmica parece impedir que as pessoas, cada vez mais, se encontrem presencialmente. Diante disso, a rede acaba sendo um instrumento de dispersar os problemas, de falar sobre a vida e de entrar nesses debates.
Pelas redes a gente já conseguiu muita coisa. Nesses trinta dias que eu tive de mandato, a pressão nas redes foi fundamental para que as coisas andassem, seja na Câmara ou na Prefeitura.
Mas talvez a gente ainda não tenha distância histórica para olhar para esse fenômeno [as redes sociais] e compreender melhor, porque, se de um lado, a gente conseguiu mobilizar pessoas que talvez não pudessem estar reunidas presencialmente, por outro, a rede é muito volátil. O que entra em pauta hoje daqui a três dias foi esquecido. Esse é um lado ruim porque não há aprofundamento de debate, o que só acontece se tiver tempo.
Leonardo: Quais críticas tu recebeu relacionadas a tua condição de músico? Foi diminuído no meio político por ser artista?
WS: Já rolou de me chamarem de tecladista de modo pejorativo (risos). Também já me chamaram de Caçulinha, na tentativa de caçoar de um cara que na verdade foi sensacional, e eu pensei “poxa, quem dera’’.
Parece que o artista é o boêmio, o irresponsável…tem uma coisinha na nossa cultura que trata o artista como “menor’’. Pelo contrário. Acho que a arte é instrumento fundamental para fazer a leitura da sociedade.
E dá muito trabalho fazer arte. Não é só sentar e tocar.
Acho até que eu tenho uma possibilidade de defender, de colocar esse debate em torno disso, até porque pra mim tudo está intimamente conectado. Um exemplo: um grupo qualquer de bumba meu boi foi construído por pessoas que passaram a vida inteira no trabalho braçal. Muitas vezes é um homem de 60, 70 anos que ainda trabalha de maneira precarizada e sem proteção social. Então, quem construiu esse negócio belíssimo que é o nosso São João, são homens e mulheres negros, que geralmente trabalharam e trabalham sem nenhuma proteção, esquecidos pelo Estado. É preciso olhar para arte e enxergar isso. E essa relação política-arte-educação está muito conectada.
Gabriel Jansen: uma coisa que me marcou foi tu chegar na Câmara e dizer no primeiro discurso “eu não vim aqui para fazer amigos’’.
WS: Eles todos cresceram juntos, estudaram no mesmo colégio…e isso não só na política, no judiciário também. Tem um professor que fala isso: eles são todos amigos. Eles se alocam em pontos diferentes dos partidos ou dos grupos políticos ao sabor do vento. Esse núcleo duro é muito pequeno.
Esse meu “não vim fazer amigos’’ foi um demarcador, que inclusive parte dessa história que eu contei no início…do meu avô, da minha mãe e de que meu plano na verdade não era estar ali, era ser pianista. Mas a história de Dona Suely e do meu avô me fazem decidir por isso aqui [a política].
E isso tudo também está muito relacionado às oportunidades que eu tive e que outras crianças não tiveram. Eu, inclusive, fui escorraçado de lá por não ter topado esse corporativismo que congrega todo mundo: novos, velhos, direita, esquerda…é todo mundo brother.
Paulo Vinícius Coelho: as pessoas te olhavam meio torto?
WS: Eu ouvia comentários, mas, eu acho que por conta do exercício da exposição pública, todo mundo me abraçava…mas por fora os comentários chegavam, “olha, tal pessoa mandou dizer isso..’’
Gabriel Jansen: tal pessoa mandava dizer “eu assinei a lista de frequência, viu?’’
WS: É, isso mesmo (risos). Na segunda sessão da qual eu participei, eu percebi que eles se comportavam igual alunos. Um dizia “vou no banheiro, depois tu vai’’. Aí um ficava lá fora, esperava o outro e depois iam dar um rolê. Um sai, o outro sai também…E eu como professor ficava olhando e lembrando dos alunos…quando chegou no número limite de quórum, 16, eu pedi a palavra e disse “isso aqui custa muito caro para a cidade. Se a gente pega o orçamento anual e divide pelos dias, dá 400 mil reais por dia. Se a gente divide só pelas sessões, dá mais de um milhão por sessão. Se mais alguém sair da sala, acabou a sessão.’’ E aí ninguém mais saiu e a sessão ocorreu, mas quando eu saí, um dos meninos que trabalha comigo ouviu de um vereador ‘’olha, avisa pra ele que isso não vai dar muito certo não, viu?’’
Então essa minha saída precipitada [da Câmara] foi um choque, mas eu já estava com o espírito meio preparado.
Leonardo: não existe um receio teu de ter que abandonar a música por conta da política?
WS: Esse enveredar pela política traz muitos prejuízos, de muitas ordens diferentes. Eu já fui vetado de alguns trabalhos musicais porque eu faço o que eu faço. Às vezes até grupos que eu ajudei a fundar foram vetados de eventos por conta da minha atuação política. Então, há muitos prejuízos, além do pessoal. Eu adorava acordar muito cedo pra ficar estudando piano, que é uma coisa que eu não consigo mais.
Leonardo: além das acusações de “tecladista’’, tu também é chamado de “esquerdomacho’’ no twitter. Queria saber mais disso…
WS: Eu acho uma crítica importante (risos). Sempre que alguém tuita algo sobre esquerdomacho eu boto um “eita’’. Quando falam eu já me pronuncio, porque eu acho que existe essa coisa do estereótipo…e mesmo a satirização é uma forma importante de colocar o debate no ar.
Eu lembro que há algum tempo, eu estava tocando em um lugar com o Argumento e acho que a estética me entregou. A pessoa colocou no Twitter “vem cá, esse tecladista do Argumento é esquerdomacho?’’
Eu não sei bem o que o conceito quer dizer, mas eu sei que tem uma conotação pejorativa, mas eu não me importo. O conceito tem que ser debatido mesmo.
Leonardo: na visão de um músico, qual seria a música ideal para acompanhar um bom café da manhã?
Gabriel Jansen: o que ouve pra começar o dia?
WS: Cara…eu gosto de ouvir Futuros Amantes e Oração ao Tempo. Na verdade, eu não gosto muito de falar de manhã. Fico igual um computador velho que demora a iniciar…eu gosto de ouvir uma música mais sossegada…
Leonardo: músicas boas para ouvir sofrendo por amor?
WS: Éguas, eu sou muito sofrido. Eu sou muito apaixonado por Djavan. Vou mencionar “Outono’’, “OM’’ e ‘’Meu’’.
Gabriel Jansen: e qual é o melhor pagode já escrito?
WS: Existe uma briga para diferenciar samba e pagode, né? Para mim é tudo a mesma coisa. Então eu vou citar o meu samba predileto, que é “Mutirão de Amor’’.
É aquele que fala: cantar sempre que for possível/ não ligar pros malvados/ perdoar os pecados.
Leonardo: pra fechar Wesley, uma coisa que tu contraindica.
WS: Política (risos).
Brincadeira, eu recomendo não ser candidato.
Paulo Vinícius Coelho: e uma coisa que tu indica.
WS: Política .

Por: Leonardo Alves (com intervenções da Sociedade do Copo)





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