
Leio ao texto de Eduardo Goldenberg que, muito precisamente, classifica o botequim como “o hospital das almas’’ e penso que, como qualquer outro recinto – especialmente aqueles ligados à saúde espiritual – o botequim precisa ter regras.
Antes, acredito, é preciso tentar fazer uma distinção que nem os mais experientes bebedores conseguem com tanta clareza: botequim é diferente de bar. Eu, humildemente, aponto algumas particularidades do primeiro: o botequim lida melhor com o aspecto da solidão; tem características comunitárias e é frequentado por um público habitual; é longevo e tem um dono que se confunde com o próprio estabelecimento. Portanto, frequentador de bares genéricos da Península e adjacências, o assunto aqui é outro.
A primeira dica é: respeito ao espaço alheio. Acredite, há quem saia de casa disposto a tomar uma cerveja sozinho para reordenar as ideias, lamentar algo, refletir…de modo que, antes de chegar e pedir um copo, é melhor reparar se a sua companhia é bem-vinda.
O segundo item é sobre como tratamos quem nos atende, principalmente garçonetes. Assovio foi feito para bicho e o vocativo gatinha para a moça com quem você se relaciona. Falar alto e reclamar constantemente também não vai te fazer parecer superior. E nem diga que isso é ser exigente, Noel Rosa já gastou as fichas em “Conversa de Botequim’’.
Outro cuidado necessário se refere a arte de “filar’’ um cigarro. Umzinho, tudo bem. Dois, paciência. Três? É melhor você comprar uma carteira.
Sobre pedidos de música, duas dicas: não destoe do que normalmente toca no ambiente e não peça em demasia. Quem está no comando do som conhece o bar há mais tempo e sabe o que tocar ou não. Seu pedido não foi atendido? Deve ter uma razão. Um exemplo: chegou no Bar do Léo e pediu um reggae? Sinto muito, local errado. Acertou o gênero que o dono do bar menos gosta.
O Bar do Léo, aliás, há 45 anos funciona praticamente sob o mesmo código de conduta. Curioso, já perguntei para o comandante Leonildo por qual motivo não se pode dançar ou beijar no seu bar. Impaciente, ele me disse:
-Paulo, botequim não é cabaré.
E saiu.
Claro, não me conformei. Esperei um dia em que seu humor estivesse mais propício para um papo e, novamente, perguntei: mestre, mas me diga, por favor, qual é a diferença do botequim pro cabaré?
-Paulo, é muito simples. Cabaré é onde você leva acompanhante e dança e beija; botequim é pra beber e conversar. E o Bar do Léo, pode apostar, é um botequim.
Confesso: sempre fui um fã das regras do Bar do Léo. Já ganhei até apelido de “fiscal’’. Dizem que é porque sou getulista e, consequentemente, simpatizante de ditador. Maldade.
Eu gosto mesmo é de ver o desconcerto de quem, acostumado a chegar nos lugares e achar que manda e desmanda, se vê obrigado a seguir as normas do bar. Conteste e ouça a pergunta: quem é o dono mesmo?
A dica final do manual de boas maneiras do botequim não pode ser outra: nunca, nunca mesmo, em hipótese alguma, trate a primeira pessoa preta que você vir no ambiente como alguém que trabalha no estabelecimento. Sim, acontece bem mais do que deveria. E, sim, quem o faz pode ser aquele seu amigo ou amiga mais cool.
Certifique-se da indumentária – geralmente padronizada – de quem trabalha no local. É simples e custa bem menos do que o constrangimento a ser causado para quem, igual a você, está no local a fim de se divertir. Desculpas não vão amenizar este “ato falho” tão imbecil quanto abominável.
Por: Paulo Vinícius Coelho e Juliano Amorim





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