
Sou um apreciador do cotidiano, justamente por sabê-lo à prova de todas as previsões. É claro que estas miudezas, tão prosaicas, como o papo furado, a viagem de ônibus e o olhar desavisado de alguém atraente são, de costume, mais possíveis de serem convertidos em eventuais histórias de amor quando se passam à noite. Volto a dizer: em geral; não é regra. Neste caso, contrariou-se a probabilidade
Estávamos no fim de um 2022 movimentado, não só pela missão estafante do período eleitoral. Era, também, a retomada de uma vida nos seus moldes habituais, após a pausa forçada pelo vírus nos dois anos imediatamente anteriores. Voltou-se à rua, ao chamego, ao uso relaxado das máscaras.
A copa daquele ano, atipicamente em dezembro, serviu como a “hora do recreio” geral. Lula eleito, gente na rua, Brasil jogando e – como coincidência feliz – marco inicial da minha amizade com Leozinho e Paulo, dois destes sócios que aqui escrevem. Não fosse um namoro de quatro anos que, por razões de distância, se rompia ali, teríamos a conjunção perfeita. Ah, o primeiro porre no bar do Léo foi nessa época, com os supramencionados sócios desta confraria etílico-jornalística.
Mas eu falava de olhares e cotidiano. Justo assim, despretensiosamente, andando pelos corredores da universidade, eu a vi. Não me esqueço: ver-lhe os olhos, imoderados e belos, foi ser atirado ao desvario; à impressão de que a vida só poderia continuar se, dela, eu soubesse o nome.
Horas depois, antes de voltar para casa, ela reapareceu. Eu tremia imaginando qualquer coisa que pudesse ao menos disfarçar o inconveniente de puxar um assunto em uma parada de ônibus, às 19h. Certo é que me furtei da decisão. E seu nome só pude saber meses depois.
Queria contar aos leitores uma história alucinante, de um amor desmesurado, desses dignos de perder a cabeça, com direito ao uso desabusado de todas as canções apaixonadas. Eu até gostaria que tivéssemos sido assim. Que, mais do que os seus belos olhos, pudesse vir à tona uma descrição minha do fremir dos seus lábios em desejo, da senda de todos os seus mistérios nus.
Sou cafona, até, mas, neste caso, proporcionalmente ao meu desejo, fazer este relato com menos poesia e mais sacanagem seria de melhor tom. Esse expediente, ça va sans dire, deixarei para conversas casuais.
O que importa: dela eu soube o nome, os gostos e, propriamente – não sem muito esforço e alguns anos –, o beijo. Achei tudo o máximo. Ela é o máximo; a figura espectral dos meus sonhos íntimos; a beleza total; um anjo lunar de voz áspera; a reinvenção conceitual de Schoenberg; o canto acre de Stevie Nicks; a flagrante beleza de Malu Mader em O Dono do Mundo.
Coincidem com ela todas as referências, vulgares ou não, de beleza expostas aqui por mim. As utilizo como atestado do meu frenesi; da minha paixão concentrada e contemplativa.
Só uma confissão: gostaria de saber terminar melhor os meus textos.
POR: Juliano Amorim





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