
Não sou dos mais contumazes ouvintes do rádio. Admito com certa vergonha pois me cobro a ser, muito por conta de minha condição profissional, mas os esforços para manter o hábito sempre se mostram falhos. Ouço com maior frequência aos sábados e domingos, nos dias de folga, graças à minha mãe e quase passivamente.
Há um certo tempo, justamente num sábado, acometido por mais uma de minhas ocasionais crises de insônia e domado pela força do tédio, resolvi conferir a programação das madrugadas.
Entre reprises e canções que passeavam entre o samba tradicional e o pop contemporâneo, além de algumas outras reprises, o que entoava a frequência das emissoras era o ruído esganiçado da repetição. Vez ou outra, um “bom dia” mutilado das entrevistas conduzidas durante a semana somado à curadoria das músicas me transferiam a um espaço fora do tempo, uma espécie de não lugar envolto pelo meu desencaixe. Ao ouvir Papete, lembrei que estávamos em junho.
As locuções e os cânticos surgiam entre as modulações à medida em que o sono permanecia ausente. Talvez, naquela ocasião, minha intenção estivesse mais relacionada a captar padrões sonoros do que a realmente vencer o desprovimento de modorra que me atravessava. Foi às 4 e 37 da manhã que escutei a música que me fez escrever este texto. Ironicamente, não me recordo nome ou letra, muito menos qual emissora ouvia, mas lembro de um grandessíssimo detalhe que poderia soar mísero:
– A próxima música é uma belíssima canção de amor lançada em 2017… – narrou o locutor.
E de repente eu estava lá, no ano em que eu e ela nos conhecemos. Não sei se mais me dói ou impressiona nosso primeiro cumprimento e o silêncio ao qual me sentencia estarem separados por mais de uma meia década. Conforme penso nisso, mais opacas tornam-se as memórias, mas sigo cometendo a ousadia de lembrar. Ao soar da canção, as recordações se imprimiam cada vez mais sólidas. Permaneci em junho, porém, apreciava uma vista e degustava um sabor que somente os quinze anos de idade, talvez catorze, são capazes de proporcionar. Ao meu lado estava um amigo que hoje sequer sei o nome completo; à minha frente, duas moças, uma altíssima e outra, que era ela, descabelada. O contexto do encontro me foge a mente. Enxerguei-a distante, disso bem sei. Não me encantei à primeira vista, assumo, mas pensei na facilidade com que o encanto poderia surgir. Nossa interação foi curtíssima, nada além de um mero aceno acompanhado de um “boa tarde”. Ainda assim, de alguma forma, nos tornamos amigos dali em diante.
Segue a canção.
Alguns outros romances e desencontros adiaram a iminência de nosso primeiro beijo. Foi desajeitado, quase inocente, porém genuíno a ponto de nos fazer incapazes de postergar todas as histórias que o destino já nos havia previsto. Isento-o de culpa no entanto, já que às vezes me pergunto se não fui eu o cruel. Pensei em ligar para esclarecer, admito. Loucura minha, ela não me atenderia. E não somente por saber que reconheceria instantaneamente meu número de telefone, mas também por me recordar que, assim como sou com o rádio, jamais cultivamos este hábito. Todas as conversas, as duras e as ternas, aconteciam com seus olhos vidrados em meus olhos. Cada sílaba proferida por ela penetrava nas capsulas de meu silêncio. Sem válvula de escape, fizeram-se concretos meu amor e saudade, não por ela somente, mas por outras múltiplas coisas que a orbitam. Rabiscado no metal de minha pele está não o desenho dela, mas garranchos que a remetem. É estranho, tanto de mim remete a ela que chega a dar raiva. Aprendi a nadar aos vinte anos graças a ela; o que é um pouco patético, eu sei. Quase tudo que sei cozinhar, e não sei muito, ela quem me ensinou. Deixei de ser mimado; deixei de ser, mas também fui, mandado; deixei de ser medroso; “machinho”; ardiloso; e arrogante. Me permiti ser um pouco mais lascivo. Fui abjeto; objeto; burro; esperto; apaixonado; amoroso; odiado e odioso; sei o quanto fui e sou amado. Deixei de ser masculino para me tornar homem. Graças a ela. Tudo graças a ela. O erro, talvez, foi nunca tê-la deixado ciente disso. Não plenamente.
Com passos largos, a canção marcha rumo ao fim.
Por conta disso, ensaiei um diálogo, talvez um monólogo: já que não me atendes, peço perdão daqui. De antemão, preciso dizer que, diferente do que algumas pessoas comentam, não a culpo pelo meu vício em cigarro e minha rotina de bebedeira. Só é difícil negar a nítida relação entre nosso fim e o aumento exponencial do exercício de costumes boêmios em minha vida. Inclusive, como percebes, estou um pouco ébrio nesse momento. Quero saber. Você ainda guarda os diários? Não os meus, mulher; os do Kurt! Imaginei que sim. E quanto aos retratos? Revelei-nos lindíssimos retratos; alguns seguem por aqui, na gaveta. Substituiu por novos, como eu bem esperava. E sobre as lembrancinhas? Jogou fora? Queimou tudo?! Doou?! É, lhe digo o mesmo, meus olhos jamais suportariam recordações tão sólidas. Dia desses, pensei tê-la visto no Centro Histórico. Não era você, claro que não era. Me bastou alguns segundos para que eu soubesse. É… como vai a vida? Bem? É, estou bem também. Quero te dizer que… na verdade, esquece. Talvez não tenhamos muito o que conversar, afinal. Tenho que ir. Só faço uma última pergunta: há perdão?
Adormeci. Findou-se a canção.
Por: Gabriel Jansen





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