Parto


Não desejo arranhar o céu, apenas visualizo as nuvens sem apreciá-las. Na igreja, diante do altar, encaro a cera que escorre das velas; me soa como uma lágrima. Permaneço em combustão contínua, rezando pela chegada dos maremotos. Sua presença agravou a solidão. São tempos difíceis. Vivo acompanhado por vermes que preservam algumas palavras em minhas…


Foto: Gabriel Jansen

Não desejo arranhar o céu, apenas visualizo as nuvens sem apreciá-las. Na igreja, diante do altar, encaro a cera que escorre das velas; me soa como uma lágrima. Permaneço em combustão contínua, rezando pela chegada dos maremotos. Sua presença agravou a solidão.

São tempos difíceis. Vivo acompanhado por vermes que preservam algumas palavras em minhas entranhas. Poucas foram cuspidas, escarradas ou vomitadas; outras permanecem indigestas; são essas as que compõem um dicionário intestinal integralmente incapaz de ilustrar o som esganiçado das malas que se fecham, dos cadeados que se rompem e das fechaduras que se alteram. Malditos sejam os artefatos que consumam sua partida. Mas não ouso esquecer: malditas sejam as partidas.

Nunca me acostumei a receber esses atestados de miséria, principalmente os dos recém chegados. Enquanto às minhas partidas, como tragédias anunciadas são dompedrianas: “diga a o povo que parto, que embriono uma partida como um parto”. De qualquer forma, por mais que sejam vítimas do meu ódio, não costumo impedí-las de agir. Pensei em implorar através da lágrima por sua permanência, mas costumo poupar esforços ao usar o linguajar dos olhos. Existem coisas que são improferíveis. Fechá-los é menos traumático.

O que me restou foi me esgueirar pelos cantos do Centro Histórico, me esbuxar pelo beco escuro, cambalear pelos rochedos da Beira Mar. Vaguei pelos ambientes insalubres da minha cidade em ruínas, me embriaguei algumas vezes e me enganei muito mais que me embriaguei. Às sete e trinta e cinco da manhã, avistei seu vulto vagando desnorteado entre as ovelhas que caminhavam para o matadouro. Fui embora, e sem lhe incomodar, pensei em me atirar no triturador.

Por: Gabriel Jansen

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