
‘’Seu Léo, posso pedir uma música?’’ é certamente uma das frases que eu mais pronunciei durante a vida, sempre em tom muito respeitoso, no início por conta da fama de ranzinza do destinatário do pedido. Minhas solicitações sempre foram atendidas e eu me sentia privilegiado quando Léo vinha me contar a história da música ou comentar a sua relação com a faixa.
Conheci o Bar do Léo em 2019, levado por Antônio, amigo, ex-sogro e mentor. Fui recebido ao som de ‘’Todo Sentimento’’, de Chico Buarque. A música foi suficiente para me conquistar, mas eu ainda tive a oportunidade de ficar encantado e intrigado com todas as singularidades do recinto. Todas as músicas são tocadas em mídia física (vinil e cd), é proibido dançar e beijar, o bar sempre fecha ao som do hino do Maranhão.
Além disso, o Bar do Léo reúne uma coleção surpreendente de objetos antigos – e raros. Câmeras fotográficas, televisores, aparelhos de som, quadros, livros e uma série de outros itens constituem a decoração do lugar. No último sábado, já pensando na construção deste texto, perguntei para Léo qual era o objeto mais antigo. Ele respondeu sem pestanejar: sou eu!
– Quantos anos o senhor tem mesmo, Léo?
– 69.
– Está novo…
– Sim, mas você lembra que já tentei morrer umas duas vezes. Ainda não deu certo (brinca).
Lembro. Em 2012 e em 2019 Léo foi internado com hemorragia. Nas duas ocasiões, seu time de amigos e fãs se reuniu para uma campanha de doação de sangue. Só houve mobilização parecida em 2009, diante da ameaça de despejo do bar. Felizmente, a sandice não foi concretizada. Ficou de recordação o maravilhoso quadro de Ronald de Almeida defendendo a ‘’Academia Musical Bar do Léo’’ e, em referência ao título do filme de Glauber Rocha, criticando a ‘burrocracia’ estatal que atacava o santo guerreiro da preservação musical. O título de Academia Musical concedido por Ronald é justíssimo. Léo possui um gigantesco e esplêndido acervo de discos, CD’s e fitas K7. E ele desafia: o que o cliente pede, é tocado.
Quando conheci o Bar do Léo, estava iniciando o meu fascínio que se mostraria eterno por Sérgio Sampaio. Pedi que Léo tocasse ‘’Em Nome de Deus’’, convicto de que ele não teria a faixa que abre o raríssimo disco póstumo de Sampaio, o ‘’Cruel’’. Tocou. E eu me emocionei. Definitivamente, eu havia encontrado o meu lugar.
Passei a frequentar o Léo quase que ritualisticamente aos sábados. Apresentei o bar para amigos e paixonites. Algumas adoraram, outras me ofenderam criticando a música ‘’velha’’ ou o peculiar cheiro de frango que, naturalmente, exala do Mercado do Vinhais, local onde o bar está instalado.

No fundo, eu não tinha expectativa de que alguém pudesse se apaixonar pelo Bar do Léo como eu havia me apaixonado. Antônio é uma das exceções. Nos vemos sempre por ali. Ele adora um lado do balcão, eu, o outro. Nos abraçamos, conversamos um pouco e, depois, cada um para o seu lado.
Minha preferência é o último banco, o mais próximo de Léo e do som que eu observo atentamente, ansioso pela próxima música. Gosto de vê-lo procurando os discos, escolhendo as faixas, recebendo os pedidos. Adoro quando Léo me pede ajuda para encontrar determinada música. Me sinto parte efetiva do lugar. Sempre quis ser parte efetiva do Bar do Léo. Sempre achei o bar muito meu. A explicação talvez seja a possibilidade de compartilhar predileções que considero muito íntimas. É emocionante ver tocar para o bar inteiro canções que eu achava que somente eu ouvia.
Meu posto de cliente fiel também serviu para ter acesso a algumas intimidades de Léo. Na entrevista-conversa que tivemos, ele me conta que o Bar do Léo surgiu na verdade como uma espécie de lanchonete, em 1979. A coleção de discos já existia, mas em quantidade infinitamente menor. As músicas tocavam baixinho, mas despertavam o interesse de quem passava pela feira do Vinhais. Finalmente Léo percebeu que talvez fosse melhor vender cerveja e tocar música do que continuar com a lanchonete.
Natural de Santa Helena, Léo desconversa quando pergunto por que se mudou para São Luís, mas confessa que sua diversão na Ilha eram os cabarés. Me conta também que o seu cantor favorito sempre foi Nelson Gonçalves. ‘’É a voz mais bonita da música brasileira!’’ ele afirma, entusiasmado. Era fácil adivinhar. Não há dia em que o Bar do Léo não toque ‘’Naquela Mesa’’. Nas costas dos uniformes das garçonetes, a música está estampada com o trocadilho ‘’naquela mesa está faltando…você’’.
Apesar da paixão por Nelson, foi ao som de ‘’Divã’’, de Roberto Carlos, que eu vi, pela primeira e única vez, Léo chorar. O trecho ‘’relembro bem a festa, o apito e na multidão um grito, o sangue no linho branco’’ que faz referência ao acidente sofrido por Roberto, emociona Léo porque o remete ao irmão que ficou tetraplégico num acidente.
No Bar do Léo as músicas tomam forma e se apossam de nós, como feitiço, como paixão. Minha relação com a música popular brasileira é outra desde que conheci o lugar. Já vi textos que se referem ao Bar do Léo como ‘’museu’’, ‘’templo’’, ‘’patrimônio’’ e eu mesmo em outra ocasião utilizei a expressão ‘’santuário da boêmia ludovicense’’. O local é isso tudo, mas também é escola, academia musical. Conheci dezenas de artistas nas minhas noites de sábado no Bar do Léo. Eu e tantos outros tivemos nossos ouvidos afinados pelo gosto inigualável de Leonildo Peixoto Martins.
Peço licença a Cesar Borralho, professor de filosofia e companheiro de balcão, para encerrar com as suas palavras, capazes de traduzir tudo: ‘’não existe rima com música, este véu invisível, mas sob o umbral onde sempre se tira o chapéu, música combina quase que apenas com o Bar do Léo’’.
Por: Paulo Vinícius Coelho





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